'Minha mãe morreu de novo': a jovem que presenciou o pai matar a mãe e agora vê o tio como suspeito de outro feminicídio na família

Micheli Barbosa reviveu recentemente as dores do crime cometido pelo pai há quatro anos, quando atirou contra a mãe dela e tirou a própria vida em seguida.

23 set 2026 - 15h33
Resumo
Micheli Barbosa reviveu o trauma da perda da mãe, assassinada pelo pai em 2022 após anos de abusos e violência doméstica no Rio Grande do Sul, ao ver o tio, Valdecir Barbosa, ser preso como suspeito de matar a própria esposa em junho. Valdir, pai de Micheli, havia sequestrado e matado a ex-mulher antes de morrer em confronto com a polícia. A jovem, que também sofreu abusos do pai na infância, desabafa sobre a repetição da tragédia na família e o estigma social que enfrenta na pequena cidade de Alecrim.
Teresinha, mãe de Micheli, em uma foto antiga
Teresinha, mãe de Micheli, em uma foto antiga
Foto: Arquivo Pessoal / BBC News Brasil

Alerta: este texto tem conteúdo sensível.

Quando Micheli Barbosa soube, no fim de junho, que seu tio Valdecir Inácio Barbosa havia sido preso por suspeita de matar a esposa, ela sentiu que repetia a tragédia de quatro anos antes.

Publicidade

Em 2022, Micheli perdeu a mãe, Teresinha, assassinada. O autor do crime foi seu pai, Valdir Barbosa, irmão de Valdecir.

"Veio tudo de novo. Eu disse para a minha avó: 'Parece que estão me ligando para dizer que minha mãe morreu de novo'", afirma.

O que mais surpreendeu Micheli, esteticista de 25 anos, foi lembrar das conversas que teve com o tio na época da morte da sua mãe.

"Quando aconteceram as coisas, esse tio meu, Valdeci, disse: 'Meu Deus, o que se passava na cabeça do Valdir, o que que levou ele a fazer isso? Que loucura. Se não dá mais, separa. Se não querem, né, se acertem numa boa'", relata.

Publicidade

Moradora de Alecrim, cidade gaúcha de cerca de 5,5 mil habitantes próxima à fronteira com a Argentina, Micheli cresceu em meio à violência doméstica.

Ela conta que o pai era ciumento e controlador e que as agressões contra a mãe faziam parte da rotina da família.

"Eu lembro do meu pai chegando bêbado em casa, agredindo minha mãe com coronhada [de arma de fogo], batendo muito nela. Meu irmãozinho mamando no peito e corria sangue por cima dele, nos paninhos brancos", se recorda.

Ao longo dos anos, Teresinha tentou se separar diversas vezes. Registrou ocorrências policiais, chegou a fugir para outras cidades e, mais tarde, foi morar com a filha.

Mas, segundo Micheli, nenhuma medida foi suficiente para afastar Valdir.

Micheli e a mãe, Teresinha, que foi assassinada em janeiro de 2022
Foto: Arquivo Pessoal / BBC News Brasil

Em 2021, depois de deixar a prisão onde cumpriu pena por outro crime, Valdir passou a frequentar os lugares onde mãe e filha estavam.

Publicidade

"A gente ficava com muito medo. Minha mãe tinha começado a fazer ginástica, estava voltando a viver. E aí ele começou a seguir a gente."

No início de janeiro de 2022, Valdir apareceu armado na casa de Micheli, apontou um revólver para a cabeça dela e levou Teresinha à força de lá.

Micheli correu até a casa de uma vizinha e ligou para o pai. Ele pediu para que ela não chamasse a polícia, que levaria a ex-mulher de volta dentro de uma hora, e que só queria que ela assinasse uns papéis.

"Só que eu não acreditei nisso. Então, eu liguei de novo e pedi para falar com ela. E a única coisa que ela dizia pra mim: 'Cuida dos teus irmãos pra mim'. Ele pegou o telefone e desligou", lembra a esteticista.

Micheli ligou para a polícia, que iniciou buscas na região. Valdir e Teresinha foram localizados em uma residência na cidade vizinha. Policiais cercaram o imóvel e tentaram negociar a rendição de Valdir.

Publicidade

Segundo Micheli, que acompanhava a operação à distância, os agentes ouviram disparos vindos de dentro da casa.

"Quando os policiais tentaram entrar, ele deu um tiro na porta. Depois veio o outro tiro. Naquela hora eu pensei: acabou."

Quando os policiais conseguiram invadir o local, encontraram Teresinha baleada. Valdir também estava morto. Segundo Micheli, a mãe chegou a ser socorrida, mas não resistiu.a

"Foi a pior noite da minha vida, porque eu não pude fazer nada", afirma.

"Até hoje, a gente não consegue se reerguer direito."

'Eu virei a mulher dele'

Mas a violência relatada por Micheli não se limitava às agressões que presenciava contra a mãe.

Ela afirma que também foi vítima de abusos cometidos pelo pai durante a infância.

Publicidade

Segundo seu relato, os episódios começaram após uma das tentativas de separação de Teresinha.

Na época, a mãe havia fugido com os filhos para a casa de parentes em uma cidade vizinha. Micheli diz que o pai conseguiu reaver a guarda das crianças e levá-las de volta para casa.

"Ali, ele começou a abusar de mim. No primeiro dia que nos trouxe de volta, começou a passar as mãos em mim. Depois, eu virei mulher dele", relata.

Micheli diz que viveu anos sem contar à mãe o que estava acontecendo.

"Eu tinha medo. Ele falava que ia matar nós duas. Dizia que ia nos picar em pedacinhos. Eu não podia abrir a boca de nada."

Ela afirma que só conseguiu revelar os abusos aos 14 anos, depois de um episódio em que o pai tentou atacá-la com uma faca.

Segundo Micheli, as duas procuraram a polícia, registraram a denúncia e realizaram exames. Mas, dias antes da audiência, o pai teria voltado a ameaçá-las.

Publicidade

"Ele disse que eu tinha que negar tudo. Que eu tinha que dizer que inventei a história."

No dia do depoimento, os três ficaram frente a frente. Micheli conta que, com muito medo, acabou negando. "Eu não sabia o que fazer."

Hoje, ela acredita que o medo foi determinante para que a violência continuasse por mais anos dentro de casa.

"Enquanto tu estás naquele ciclo, tu não enxergas claramente as coisas. Tu vives com medo o tempo todo."

Estigma

Tatiana foi morta por Valdecir em junho
Foto: Arquivo Pessoal / BBC News Brasil

A tragédia familiar marcou profundamente Micheli. Com a prisão de Valdecir, ela diz que as lembranças sobre a mãe voltaram à tona.

E o que mais a surpreende é que nunca imaginou ver o tio suspeito em um caso semelhante ao do irmão dele.

Segundo Micheli, Valdecir costumava frequentar torneios de bocha na região acompanhado da esposa — uma mulher muito reservada.

"Até pouco tempo atrás, eu ia assistir a jogos com eles. Ela respondia o que perguntavam e nada mais."

Publicidade

Micheli diz que não sabe o que acontecia dentro da casa do casal. Mas afirma que a própria história a ensinou que a violência doméstica muitas vezes permanece invisível para quem está de fora.

"Só quem vive entre quatro paredes sabe o que uma pessoa é capaz de fazer."

A reportagem tentou localizar a defesa de Valdecir Inácio Barbosa por meio do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e da Defensoria Pública do Estado. A defensoria disse, por meio de sua assessoria de comunicação, que atua pelo réu, mas irá se manifestar apenas nos autos do processo.

O TJ-RS e a polícia local não responderam aos pedidos de mais informação sobre o caso.

A lavradora Tatiane Cristina Kusniewski deixou duas filhas, uma de 21 anos e outra de 10.

Além da dor causada pelos dois casos, Micheli enfrenta hoje o peso do estigma em uma cidade pequena.

"A gente tenta fazer uma coisa, tenta fazer outra, mas não vai para frente. Aqui a cidade é tão pequena que a gente acaba sendo manchada junto por uma coisa que a gente nem tem culpa do que aconteceu."

Publicidade
BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações