Escudo das Américas de Trump busca mais 'efeito político do que prático', diz especialista em segurança

A ampliação do Escudo das Américas, que passou a reunir 14 países da América Latina e do Caribe, além dos Estados Unidos, na classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, tem um efeito "muito mais simbólico e político do que prático". Para o especialista em segurança pública Roberto Uchôa, pesquisador da Universidade de Coimbra, a iniciativa expõe interesses geopolíticos e econômicos de Washington na região e alimenta a disputa entre os principais candidatos à presidência no Brasil.

23 set 2026 - 16h04
Resumo
O "Escudo das Américas", aliança liderada por Donald Trump que incorporou Peru, Chile e Colômbia, tem caráter mais político e simbólico do que eficácia prática contra o crime organizado, segundo o especialista Roberto Uchôa. Enquanto o presidente Lula rejeita a iniciativa em defesa da soberania nacional, a oposição apoia a adesão. Para Uchôa, a aliança mascara interesses geopolíticos dos EUA no Brasil, cuja real segurança depende do combate à corrupção interna e ao crime financeiro.

Adriana Moysés, da RFI em Paris 

O especialista em segurança pública Roberto Uchôa durante o lançamento de seu livro "Armas para Quem?".
O especialista em segurança pública Roberto Uchôa durante o lançamento de seu livro "Armas para Quem?".
Foto: © Arquivo pessoal / RFI

Criado em março por iniciativa do presidente Donald Trump, o Escudo das Américas reúne governos alinhados a Washington na região. Peru, Chile e Colômbia foram anunciados nesta terça-feira (22), em Nova York, como novos integrantes da aliança.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rejeita a classificação de Washington e sustenta que o combate ao crime deve respeitar a autonomia e a soberania dos países, posição reiterada em seu discurso na Assembleia Geral da ONU. Já a campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) defendeu a adesão do Brasil à iniciativa.

Em entrevista à RFI, Roberto Uchôa, ex-integrante da Polícia Federal, membro do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, especialista na área de crime organizado transnacional, analisa os recentes movimentos de Trump na região.

RFI - Essa ampliação do Escudo das Américas pode gerar algum tipo de interferência nas ações que já são realizadas no Brasil contra essas facções criminosas? 

Roberto Uchôa - É um ato muito mais simbólico e político do que prático, até porque o verdadeiro impacto pode ser causado pelas sanções aplicadas pelo governo dos Estados Unidos. Elas são muito mais amplas e problemáticas para um país do que sanções aplicadas por nações de dimensões menores e importância econômica muito mais reduzida em relação aos EUA.

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Na maioria desses países onde há atuação dessas organizações criminosas, já existe um trabalho conjunto com o governo do Brasil, principalmente através da Ameripol (associação americana de polícias) e da Interpol, no combate a essas organizações criminosas. 

O governo brasileiro não está dando conta de antecipar essa movimentação de Trump na região? 

Trump já declarou diversas vezes, sem nenhuma timidez, que a América Latina no entendimento dele é o quintal dos Estados Unidos. Alguns países capitularam rapidamente diante dessas ameaças, inclusive em processos legislativos e votações que elegeram governantes alinhados a essa política. Ao mesmo tempo, os governos do Brasil e do México enfrentaram essa proposição dos Estados Unidos e têm resistido a essa interferência. Mas não é algo fácil.

O Brasil ainda consegue devido ao tamanho da economia brasileira, à importância do país no cenário internacional e à pouca dependência do comércio exterior com os Estados Unidos. Nem todos têm essa possibilidade. Essa pressão do governo americano sobre países menores é muito maior em razão da dependência da pauta externa.

A profundidade desse alinhamento é que tem espantado o governo do Brasil, porque uma coisa é um país se alinhar a uma determinação de outro país mais forte economicamente para defender seus interesses. Outra coisa é se colocar contra um parceiro comercial na defesa dos interesses de outro país. Isso na diplomacia é uma coisa que não é muito comum, ainda mais na América do Sul e no Caribe. 

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O que está por trás do cerco americano? 

A diferença do atual governo dos Estados Unidos em relação a outros é a verborragia e a sinceridade excessiva nos seus movimentos. Os governos americanos sempre defenderam os seus interesses. O discurso de defesa da democracia no resto do mundo como um pilar do governo dos Estados Unidos não condiz com a realidade, em que o atual governo se alinha a ditaduras históricas em vários países, contanto que seja na defesa dos seus interesses.

Nesse momento, há uma sinceridade maior na defesa dos interesses das Big Techs e dos interesses americanos na América Latina. Isso tem ocorrido pela atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que tem sido incisivo na tentativa de interferir eleitoralmente. 

Nesse contexto, a eleição de Flávio Bolsonaro facilitaria os planos de Trump? 

É importante entender que o Brasil é a joia da coroa desse plano. Por ser uma das maiores economias do mundo e ter enormes reservas de petróleo, assim como a Venezuela, o Brasil é um cenário de disputa. Além de ser um importante competidor da economia americana, principalmente na questão da exportação de produtos agrícolas, tem sido um fornecedor importante, seja de insumos básicos, e também de consumo de exportações chinesas. É uma grande economia, que tem laços cada vez mais profundos com a economia chinesa. É um país que sempre teve certa independência da política externa americana.

Acredito que essa interferência no Brasil não seja algo só de apoio ideológico, e sim a necessidade de um governo que se alinhe imediatamente aos interesses dos Estados Unidos.

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O projeto dessa candidatura da extrema direita do Flávio Bolsonaro atende exatamente ao objetivo dos Estados Unidos. Flávio e seu irmão Eduardo, que está morando nos Estados Unidos, defendem essa pauta que o Brasil seja alinhado automaticamente aos interesses americanos e que se torne um terreno a ser explorado pelas empresas e pelo governo dos Estados Unidos. É como se fosse algo parecido com o neocolonialismo partindo da própria colônia. 

Para aqueles brasileiros que sofrem com os problemas de insegurança no cotidiano, como explicar que Trump não vai agir para livrá-las dessa violência? 

Os dados mostram que o Brasil registrou, nos últimos anos, redução das taxas de homicídio, roubos e outros crimes violentos. Ao mesmo tempo, cresceram fortemente os golpes digitais, as fraudes eletrônicas e os crimes financeiros.Também persiste o problema do domínio territorial exercido por organizações criminosas sobre determinadas comunidades. O Brasil sabe como enfrentar essa questão. O que falta é vontade política. Se governos de direita tivessem a solução, o Rio de Janeiro seria uma Suíça. Se governos de esquerda tivessem a solução, a Bahia seria uma Suíça. A resposta existe, mas não vem sendo implementada.

Achar que os Estados Unidos enviarão forças para entrar em comunidades controladas pelo crime organizado e libertar a população não é realista. O Brasil conhece seus problemas e sabe o que precisa fazer para enfrentá-los. O primeiro passo é combater a corrupção e a infiltração do crime organizado nas instituições políticas e estatais. Sem isso, não haverá plano externo capaz de resolver a questão.

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Nesse contexto, as informações que emergem com a crise no Supremo Tribunal Federal é esclarecedora. 

Exatamente porque mostram que a corrupção está presente em diferentes modalidades de crime organizado. Não estamos falando apenas de PCC ou Comando Vermelho. Há também organizações ligadas ao contrabando de cigarros, combustível adulterado, sonegação fiscal, falsificação de bebidas, garimpo ilegal e crimes financeiros.

Essa crise evidencia o grau de infiltração dessas redes em diferentes esferas do poder. Um banqueiro cometeu uma das maiores fraudes financeiras da história, envolvendo lavagem de dinheiro do crime organizado e infiltração em altas esferas do poder público. Uma grande parte do Supremo Tribunal Federal teve contato direto com eles. Senadores, deputados e governadores também. Também passa pelo financiamento de campanhas políticas em milhares de municípios. É um nível de infiltração e de envolvimento do crime com a política que precisa começar a ser enfrentado. 

Não adianta focar apenas no crime armado que aparece na violência cotidiana. É preciso combater também o crime financeiro, fiscal e econômico. Enquanto isso não for enfrentado, o país continuará sem resolver seus principais problemas.

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