A trajetória de Edinanci Silva, ícone do judô brasileiro e primeira mulher da modalidade no Hall da Fama do COB, virou biografia escrita por Helena Rebello. Primeira brasileira a disputar quatro Olimpíadas e dona de importantes títulos, a atleta superou preconceitos e ataques nos anos 1990 ao ser identificada como intersexo. A obra resgata suas conquistas esportivas e aborda a exploração midiática sofrida, destacando sua luta por inclusão e respeito além dos tatames.
Marcio Arruda, correspondente da RFI no Rio de Janeiro
A ex-atleta da seleção brasileira tem um carinho especial por Paris. Além da medalha de bronze no campeonato mundial disputado na capital francesa em 1997, a judoca lembrou a maior conquista em solo francês.
"A França mora no meu coração porque em 2000 também consegui realizar outro grande feito, conquistar o torneio de Paris, que hoje é chamado de Grand Slam de Paris. Foi a primeira vez que subi ao pódio em primeiro lugar. Aquele resultado rompeu uma barreira nesse âmbito das grandes competições de alto rendimento", disse Edinanci.
Presente ao lançamento da biografia, a bicampeã olímpica Fabi Alvim destacou o tamanho de Edinanci para o esporte brasileiro. "Depois que eu comecei a jogar vôlei profissionalmente, entendi a dimensão da Edinanci para o esporte feminino brasileiro numa época em que o Brasil ganhava pouquíssimas ou nenhuma medalha. Eu fiquei muito comovida com a história dela", apontou.
"As pessoas perderam tempo em não ouvir a Edinanci ao longo desses anos por ignorância e pela falta de sensibilidade. Eu espero que todo mundo que leia esse livro se sinta impactado, como me impactei", comentou a ex-jogadora de vôlei, que escreveu a orelha do livro sobre a vida de Edinanci.
Combate ao preconceito de haters
A história dela vai muito além dos tatames. Nos anos 1990, a paraibana teve de lutar fora das competições contra um duro adversário, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Atlanta: a ignorância de algumas pessoas que insistiam em discriminá-la por ela ter descoberto ser uma pessoa intersexo, ao possuir características biológicas masculinas e femininas. Edinanci sofreu ataques de haters numa época em que nem existiam redes sociais.
"Se você recebe um hater analógico, você ainda consegue respirar porque você volta para casa, às vezes fica magoada, mas tem tempo para respirar e depois voltar e encarar com mais maturidade aquelas brincadeiras de mau gosto. Eu acho que o hater que acontece pelas redes sociais hoje em dia é muito mais danoso, porque a pessoa que sofre o ataque não tem tempo de respirar e fazer uma reflexão sobre o que está acontecendo. Você está sendo constantemente atacado", avalia. "É preciso tomar muito cuidado porque, se você não tem pessoas que te acolhem e te dão um conselho positivo, você acaba sucumbindo", lembrou.
A judoca acredita que o caso vivido por ela despertou a reflexão sobre um tema ainda desconhecido no Brasil. Na comparação com os tempos atuais, ela salientou os preconceitos enfrentados pelas pessoas transgênero.
"Eu acho que cabe um debate da nossa sociedade para acolher essas pessoas. O objetivo não é excluir ou criar uma bolha; é acolher essas pessoas e respeitar o processo que cada um vive", afirmou Edinanci.
Mea-culpa da imprensa
A autora e jornalista Helena Rebello se formava em jornalismo na época em que a atleta encerrava a carreira profissional. Para ela, faltava um mea-culpa da imprensa sobre a exploração midiática da vida da judoca.
"Talvez ela não tenha conquistado uma Olimpíada muito por esses holofotes excessivos", observou. "Nesse processo de mais de dez anos tentando entrevistá-la, eu percebi que a história dela é muito mais densa e com muito mais camadas. Para mim, hoje, é uma honra concluir esse processo depois de tantos anos e levar a história da Edinanci para muitas pessoas para que conheçam e valorizem não só a atleta, mas principalmente esse ser humano incrível", contou.
Primeira brasileira a disputar quatro Olimpíadas (1996 a 2008), a judoca defendeu a seleção brasileira até 2008. Neste período, Edinanci foi bicampeã pan-americana nos Jogos de Santo Domingo (2003) e do Rio de Janeiro (2007), além de ter conquistado o bronze em Winnipeg (1999).
A paraibana também coleciona duas medalhas de bronze nos Mundiais de 1997 em Paris e 2003 em Osaka, no Japão, além de ostentar o título do ano 2000 do Torneio de Paris.
Edinanci no Hall da Fama do COB
A biografia conta diferentes épocas da vida de Edinanci, desde a infância em Sousa, na região do Alto Sertão, a 430 quilômetros de João Pessoa, até o auge no esporte, passando por questões de gênero e inclusão vividas pela judoca.
A paraibana, que recentemente completou 50 anos, disse que ainda não leu o livro, que é um verdadeiro documento de sua vida. "O objetivo principal é primeiro ter o retorno do pessoal que está com esse livro em mãos, ver o que todos acham da obra da Helena [Rebello]. A minha família também já me trouxe alguns relatos. Mas eu vou ler mais para frente", prometeu.
Em maio do ano passado, Edinanci foi eternizada no Hall da Fama do COB (Comitê Olímpico do Brasil). Ela é a primeira representante do judô feminino a entrar na seleta galeria de ícones do esporte brasileiro.
"Tudo que faço é sempre tentando motivar pessoas e despertando consciência social. Eu nunca busquei vitrine, mas as homenagens acabam vindo e eu gosto desse reconhecimento, que é uma forma de resgatar a sua história", disse Edinanci - uma mulher muito forte, sim senhor.