'Há razões para esse mal-estar', diz José Dirceu sobre alta rejeição a Lula

Aos 80 anos, ex-ministro lança candidatura a deputado federal com estratégia online, devido ao tratamento de um linfoma 'agressivo, mas curável', e defende que o PT atenda aos descontentes com o governo Lula.

12 ago 2026 - 15h13
Devido ao tratamento do linfoma, o ex-ministro criou uma estratégia 100% online, incluindo as entrevistas
Devido ao tratamento do linfoma, o ex-ministro criou uma estratégia 100% online, incluindo as entrevistas
Foto: BBC News Brasil

Após um tempo em silêncio, o ex-ministro José Dirceu (PT) quer falar. Criou um canal em suas redes sociais, "Do Zé TV", com o quadro "Expresso do Zé", no qual ele faz análises diárias e conversa remotamente com seus seguidores.

"Estou fazendo meio expediente", brinca, em entrevista online à BBC News Brasil.

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Aos 80 anos, o candidato a deputado federal por São Paulo teve de recalcular a rota e criar uma campanha 100% online.

As sessões de quimioterapia para combater o linfoma no duodeno, diagnosticado em maio, o tiraram das ruas, mas não da disputa por uma das 70 cadeiras paulistas da Câmara dos Deputados.

Impossibilitado de ter contato com muitas pessoas devido à baixa imunidade causada pelo tratamento, ele montou uma estratégia para aparecer, ainda que somente nas telas. E dar entrevistas faz parte do plano.

O linfoma, um tipo de câncer que afeta o sistema linfático, tinha 10 centímetros quando foi detectado. "É agressivo, mas curável", diz. "A medicina evoluiu muito", afirma, usando um boné azul com os dizeres "O Brasil é dos brasileiros".

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O acessório, do qual não abre mão nas aparições online desde que iniciou o tratamento, há três meses, esconde uma cabeça possivelmente já completamente careca, mas não o inchaço do rosto.

Dirceu, que já foi o homem mais forte do governo e do PT no início do século, segue com espinha ereta, apesar do adereço pouco usual para um advogado e político desta envergadura e idade.

Ainda assim, para quem já realizou cirurgias plásticas para disfarçar a própria identidade quando retornou clandestinamente ao Brasil antes da anistia, o boné não esconde suas ideias. Tampouco o sotaque mineiro.

Apesar do cansaço visível, o ex-ministro de Lula fala durante uma hora. Discute diversos assuntos, da sua vida pessoal à situação de Cuba, país onde viveu exilado durante a ditadura militar e com o qual mantém estreita relação.

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Com tempo e dentro de casa, conta que está lendo muito, especialmente sobre os Estados Unidos — tema pelo qual diz ser "obcecado" — assistindo a vários seriados e "até" fazendo academia. "A semana da quimio é muito pesada, mas na outra dá para fazer academia. Assim, uma academia light né?"

Antes da campanha começar, estava totalmente dedicado à advocacia, atividade que voltou a exercer com Roberto Podval, advogado que o defendeu na Operação Lava Jato e com quem se associou recentemente. A entrevista só termina porque ele teria uma reunião em seguida com o sócio.

"Preciso acertar a minha vida de agosto e setembro com ele", diz, sobre o tempo que precisará para se dedicar à campanha.

Este não é o primeiro câncer que o ex-ministro enfrenta. Em 2020, retirou um pequeno tumor do rim esquerdo, numa cirurgia simples. Mas é o primeiro aos 80 anos.

Também não é a primeira vez que fica impossibilitado de se encontrar com outras pessoas. Esteve preso cinco vezes ao longo da vida política. A primeira, durante a ditadura. Depois, após o escândalo conhecido como Mensalão. E mais três vezes durante a Operação Lava Jato.

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"Eu fiquei dez anos interditado na política", afirma, mencionando que o PT "foi desorganizado" e que "centenas dos melhores quadros do PT sofreram uma vedação política."

"Nós somos uma força política e social consolidada no país, e o partido agora vai se reorganizar como ele não pôde no passado. Porque, a partir de 2022, nós temos liberdade."

Enquanto Lula afirma que esta é sua última eleição, para Dirceu é a primeira desde que o Mensalão e a Lava Jato o tiraram da cena política.

Na última vez que esteve na disputa, em 2002, foi reeleito deputado federal e Lula foi eleito presidente pela primeira vez.

Pragmático, pensa com a cabeça e os olhos voltados para frente. "Nós não temos medo de perder a eleição nem de ser oposição. Aqui no PT, se perdemos uma eleição, nós vamos para a oposição e nos preparamos para ganhar a [próxima] eleição."

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A resiliência é uma característica do ex-ministro chamado por parte da militância petista de "comandante". O conformismo, não. Em meio ao que pode ser a eleição mais acirrada desde a redemocratização, Dirceu se diz otimista.

"A eleição no Brasil, desde 2014, é disputada por um, dois milhões de votos. Nós nunca tivemos a ilusão de que seria diferente."

Dirceu foi ministro-chefe da Casa Civil de 2003 a 2005. Na foto, a primeira reunião ministerial do primeiro governo Lula, em janeiro de 2003
Foto: EVARISTO SA/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

"Comparando com 2022, quando éramos oposição, estamos em uma posição privilegiada", afirma, listando como vantagem o fato de o PT estar no governo hoje, e ter feito uma coalizão partidária ampla com PV, PSOL, PSB, PCdoB, PDT, Rede e "com o apoio da metade do MDB e quase um terço do PSD".

Essa aliança dará ao PT mais tempo de propaganda partidária no rádio e na TV, além de palanques estaduais.

"Nós estamos levando a sério. Não estamos disputando uma eleição que já ganhamos. Nós não fizemos um trabalho amador. Nós fizemos um trabalho profissional."

O PL, apesar de ter lançado Flávio Bolsonaro em uma chapa "puro sangue", sem coligações, tem o segundo maior tempo, porque o cálculo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considera a bancada federal eleita em 2022, e o PL é a segunda maior da Câmara, com 98 deputados.

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'É bom que protestem'

Na parte meio cheia do copo, o ex-ministro enxerga o maior convívio com os filhos — três mulheres e o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR), o único na política — já que está em casa o tempo todo. Na parte meio vazia, a privação dos netos, a ausência das atividades de campanha e as feridas na boca, "o problema maior", segundo ele.

"Mas tem que acostumar. Eu como bem, durmo bem. Namoro…", relativiza.

Ao ser questionado se tem alguma religião, generaliza dizendo ter "fé na vida". "Sou muito apegado aos meus sonhos." Diz que a família é católica e que por isso foi batizado na igreja, fez crisma e primeira comunhão.

"Mas nunca fui católico praticante. A minha geração se envolveu com a política muito cedo", afirma, sobre uma época em que política e religião pouco se misturavam.

Com o segundo volume da sua autobiografia pronto e com previsão de lançamento para o ano que vem, ele se prepara para escrever o terceiro e último volume, contando sua trajetória entre 2015 e 2019, incluindo a Lava Jato.

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Foi no auge da operação que apurou o desvio sistemático de dinheiro da Petrobras envolvendo empreiteiras que o Supremo Tribunal Federal (STF) extinguiu o financiamento privado de campanha, em 2015.

Na época, a Corte entendeu que a doação empresarial desequilibrava as eleições e abria margem para corrupção.

Na mesma esteira, o Congresso aprovou o fundo eleitoral, a versão pública de financiamento das candidaturas, cujo critério para distribuição aos partidos é a representatividade parlamentar.

Hoje, o PT tem o segundo maior fundo eleitoral, detendo 12% dos recursos, R$ 615 milhões. Já o PL ocupa o primeiro lugar, com R$ 881,6 milhões.

Dirceu defende que o financiamento privado volte. "Essa legislação brasileira é um absurdo. Isso de você não poder arrecadar não existe em nenhum lugar do mundo", afirma. "Põe um limite, um teto, 500 mil reais."

Para ele, as emendas parlamentares constituem hoje o cerne da questão, pois abriram brecha para desvios de dinheiro que financiam, inclusive, campanhas políticas.

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"Nós temos que construir uma medida legislativa para que toda emenda parlamentar seja dirigida a programas que são estabelecidos pelo governo", diz.

"Já tem mais de 93 inquéritos de desvios de recursos", afirma, sobre as investigações abertas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar desvio de recursos de emendas parlamentares.

Ele defende uma reforma capaz de reverter o que chama de "desconstrução do pacto federativo". Mas reconhece que, para isso, é preciso ter maioria parlamentar. E dá um passo atrás. "Primeiro precisamos reeleger o Lula", pela "questão da democracia".

A rejeição ao presidente, no entanto, é alta, oscilando em torno de 50%, conforme dados divulgados em agosto de 2026 por institutos de pesquisa como a Genial/Quaest.

Para Dirceu, a rejeição se justifica, em parte, pela dificuldade que o governo encontrou para realizar mudanças estruturais. "E porque há um choque cultural, não é só uma questão econômica."

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"Há razões para esse mal-estar", diz, mencionando também salários baixos e altas jornadas, más condições do transporte público e dificuldades para "milhões de mães no Brasil".

Mas aposta na crítica construtiva para reverter o quadro.

"É bom que seja assim. Eu tenho dito publicamente isso, porque muitos companheiros e companheiras falam: 'Ah, mas que injustiça! Com o Lula, com tudo o que o Lula fez, esses três anos e meio, tudo o que nós fizemos nesses 20 anos que nós governamos'. Eu digo que é bom que eles protestem. Nós temos que atender isso."

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