As mais recentes vitórias presidenciais na América Latina reforçaram o movimento que a região vem promovendo há alguns anos: a de ter seus países governados pela direita.
Após mais de três semanas de apuração das urnas, Keiko Fujimori se consagrou como vencedora das eleições no Peru. Com uma diferença de 49.641 votos a mais sobre o candidato da esquerda, Roberto Sánchez, esta foi mais uma eleição acirrada na América Latina, onde direita e esquerda disputaram, voto a voto, a preferência do eleitor.
Foi mais uma eleição em que a direita sai vencedora na região, a exemplo também da vitória de Abelardo de la Espriella no disputado segundo turno na Colômbia.
Ambos são de direita, embora tenham características antagônicas, como explica Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especializada em América Latina.
Enquanto De la Espriella é tido como um outsider — um jovem empresário que nunca ocupou nenhum cargo eletivo antes — Keiko Fujimori vem de uma família tradicional na política de seu país e concorreu em outras três eleições presidenciais antes desta última, em que saiu vitoriosa.
Por outro lado, os dois presidentes foram eleitos sob forte discurso de combate ao narcotráfico e à violência nas ruas e contribuíram para deixar o mapa da região cada vez mais à direita.
Esse movimento vem acontecendo desde o início dos anos 2000, explica Bressan e já na última década tingiu o mapa da América Latina quase que todo de presidentes da direita (veja abaixo).
Ela atribui essa guinada à direita a diversos fatores, mas reforça que a descrença na política tradicional, a influência das redes sociais e a busca por soluções rápidas para problemas complexos estão muito presentes.
Mas o denominador comum desse movimento não é um discurso, é um país: os Estados Unidos.
Para Bressan, o país interfere — direta ou indiretamente — nas decisões da região. E as eleições do Brasil, neste ano, não serão diferentes.
"Eu acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil", afirma ela.
Nesta entrevista, ela conta o que está por trás dessa "tensão" americana na região, por que um presidente de direita não é automaticamente um aliado de Trump, e como o discurso baseado na segurança pública está tão presente em todas as campanhas.
BBC News Brasil - Podemos começar fazendo um panorama dos principais líderes da América Latina e seus alinhamentos políticos?
Regiane Bressan - Bom, na Argentina, o Javier Milei é um presidente de direita, alinhado com Donald Trump.
Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz Pereira está alinhado à direita e encerrou um longo ciclo de hegemonia do movimento socialista, representado pelo Evo Morales.
No México, a Claudia Sheinbaum, que é de esquerda. E é importante falar do México, que é um país e uma líder que tentou ao longo desses últimos anos não apenas ser governado pela esquerda, mas ter autonomia e reforçar a sua soberania. Ao mesmo tempo, eles têm uma política muito próxima dos Estados Unidos, isso é histórico devido à fronteira, aos acordos internacionais, pelo próprio Nafta, que hoje, com o México, chama-se T-MEC.
No entanto, a Claudia Sheinbaum vem encontrando muita dificuldade para manter certa autonomia, já que as questões da migração, do narcotráfico e mesmo do comércio, com as maquiladoras — que são as empresas americanas que estão no México — causam uma interdependência muito forte.
Ela encontra, muito mais do que o Brasil, dificuldade para manter autonomia e soberania ao mesmo tempo. O México, por meio de governos de esquerda, buscou uma presença maior na América Latina, inclusive figurando entre os países interlocutores na questão venezuelana. No entanto, ele saiu bastante fragilizado porque não conseguiu um diálogo, na época, com Nicolás Maduro, após as eleições de julho de 2024.
Sobre o Chile, estive lá antes do segundo turno, que deu a vitória, no fim do ano passado, para José Antonio Kast. Naquele momento, a população sentia o grande problema da segurança pública, da violência nas ruas. Há muita pressão por causa dos Estados Unidos de um lado, e dos fluxos migratórios, sobretudo venezuelanos, do outro, porque eles têm muito mais resistência do que nós em relação aos venezuelanos. E isso ajudou na vitória do Kast, já que o Chile também é um país historicamente mais conservador, mais à direita.
O Kast não é um populista como o Milei ou como o Abelardo de la Espriella, que acabou de ganhar na Colômbia, mas é alinhado aos Estados Unidos e à direita.
Falando de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, ele mimetiza [Nayib] Bukele e Milei. É um extremista populista, um outsider que não tem praticamente nenhuma experiência na política, mas foi eleito com um discurso atacando a dificuldade de governabilidade de Gustavo Petro, o fluxo migratório da Venezuela, com um alinhamento com os Estados Unidos e com o desafio de crescimento econômico.
BBC News Brasil - O Panamá, embora não figure entre os grandes países da região, tem uma situação interessante de ser dita, não?
Bressan - Sim, ali, o presidente José Raúl Mulino também é considerado de direita, mas é importante recordar que os Estados Unidos ameaçaram voltar a ter o domínio no Canal do Panamá. Ou seja, não é porque o governo é de direita que o Trump está facilmente alinhado e apoiando.
Eu acho que os Estados Unidos são sempre uma ameaça e os países têm que se curvar muito. E isso foi pressionado pelo documento expedido no dia 5 de dezembro de 2025, quando os Estados Unidos divulgaram o seu interesse em ter o domínio na região, em exercer influência.
Ou seja, ainda que Mulino seja de direita, ele não deixa de sofrer a pressão dos Estados Unidos sobre o Canal do Panamá.
BBC News Brasil - Ser de direita não garante automaticamente apoio dos Estados Unidos.
Bressan - Exatamente.
BBC News Brasil - Esses países alinhados à direita e aos Estados Unidos foram eleitos com um discurso de combate ao narcotráfico e à violência, talvez exceto Milei.
Bressan - É, mas ele foi eleito em 2023, era outro momento. E a Argentina vem enfrentando um problema enorme de crescimento econômico desde 2002.
O país está numa crise econômica e ele se ancorou muito nessa questão da ideologia, porque houve trocas ideológicas na Argentina e nenhum deles conseguiu resolver o problema econômico. Então ele se pautou muito na economia, mas eu acho que ele também traz em seu discurso essa questão da violência e da segurança, mas não tanto quanto os outros nesse momento, já que essa também está sendo uma bandeira muito grande do Trump.
Então, de maneira geral, e respondendo à sua pergunta, com certeza. E a questão da violência vai pautar também a eleição aqui no Brasil.
BBC News Brasil - Mas seguindo com o mapeamento, faltou o Peru...
Bressan - Isso, onde a Keiko Fujimori foi eleita. Ela é de direita, mas ela não é uma outsider como os demais, como o Abelardo, Milei e Bukele. Ela vem de uma família tradicional, é filha de Alberto Fujimori, que governou o país nos anos 90 de maneira autoritária, então, ela deve seguir uma linha de direita bem conservadora.
É a quarta tentativa dela de eleição. E ela também usou as pautas do narcotráfico e da segurança interna como uma bandeira da sua campanha eleitoral.
BBC News Brasil - E essa ancoragem nessa pauta da segurança, da violência, é um dos fatores que podem explicar o país ter voltado para um Fujimori?
Bressan - Sim, mas foram uma campanha e uma eleição muito acirradas. Mas podemos dizer sim, que essa temática também induziu, também favoreceu sua eleição. O Peru está, há muito tempo, muito envolvido com o narcotráfico. Junto com a Bolívia e a Colômbia, é um país que lidera o envolvimento com o narcotráfico.
A questão do narcotráfico é um grande problema, porque, ao mesmo tempo que países como o Brasil querem ter autonomia e soberania para lidar com esse problema, trata-se de um problema transnacional em que os países já não conseguem mais efetivar uma ofensiva sozinhos.
Aliás, um dos grandes problemas do narcotráfico é o consumo, e o principal mercado consumidor são os Estados Unidos. Se não houver um combate ao consumo de drogas lá, a gente não vai conseguir aqui. Porque a partir do momento em que eu continuo tendo consumo, eu estou incentivando toda a cadeia.
E já sabemos que os países não vão dar conta sozinhos.
Então é possível que tanto a Colômbia quanto o Peru e a Bolívia tenham um envolvimento maior dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico, inclusive na Bolívia.
É importante falar também do Uruguai, cujo presidente é Yamandú Orsi, de esquerda.
É um dos países mais estáveis da América Latina. Diferentemente dos demais, ele está à esquerda, mas não existe um tensionamento ideológico tão grande quanto nos demais. Ali ocorre a manutenção das políticas.
Conversando com lideranças, analistas e pesquisadores no Uruguai, é isso que a gente vê: uma esquerda, mas que mantém as políticas públicas, e aí quando a direita ganha, também não há muitas mudanças. Então é um dos países mais estáveis da região, é claro, mantendo sempre o preceito democrático.
BBC News Brasil - Recentemente vazou uma fala do presidente Lula afirmando que "nunca foi um esquerdista". Essa fala ocorreu em conversa informal com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, durante o G7 na França. Como a senhora classificaria o país?
Bressan - Eu ainda o classifico como de esquerda, como um país progressista. Mas a própria esquerda critica muito, tem muitas críticas.
BBC News Brasil - Olhando para esse mapa, a gente pode perceber que a direita, os governos alinhados aos Estados Unidos são a maioria nos países da região. Isso tem a ver com o que os pesquisadores chamam de pêndulo na América Latina?
Bressan - Sim, de maneira geral, os governos estão alinhados à direita. Isso não seria um problema, afinal, não é um problema ser de direita ou de esquerda. O problema é que governos extremistas muitas vezes tensionam e flertam com o autoritarismo.
Muitas vezes, para conseguir realizar determinados feitos, como, por exemplo, Milei, que prometeu extinguir o Banco Central e dolarizar a economia, e, para isso, ele está fazendo uma grande afronta ao Congresso, porque isso não se resolve apenas com o presidente.
O cidadão latino-americano acredita numa democracia que nós chamamos de democracia delegativa. Guillermo O'Donnell [politólogo argentino] dizia que o eleitor latino-americano acredita que a democracia acontece apenas a cada quatro anos, no sufrágio.
Ou seja, eleito presidente, ele teria superpoderes para governar da forma como pretender.
E assim, a população latino-americana muitas vezes não se espanta quando um governo vai migrando para o autoritarismo, porque muitas vezes esse movimento é feito de maneira paulatina. Não é de uma hora para outra que se torna autoritário.
Vejamos o exemplo da Venezuela, que é o mais recente na região: as instituições democráticas foram sendo extintas, reformas foram sendo feitas, e quando a população se dá conta, já é um governo autoritário.
A grande preocupação com governos extremistas e populistas é que muitas vezes eles têm o apoio da população para determinadas reformas.
O próprio Hugo Chávez fez inúmeros plebiscitos. Ele, que era uma figura que governava muito em torno de si mesmo, era bastante populista.
O nosso medo de governos como o de Bukele, como o de Milei, como agora, de Abelardo de la Espriella, que é um outsider que não vem da política tradicional, é que eles possam, de alguma forma, migrar para o autoritarismo.
BBC News Brasil - E por que esses governos foram eleitos agora?
Bressan - Existe também uma descrença na política tradicional e na própria democracia. Por que a população elegeu candidatos como eles, que não têm repertório?
Estive na Argentina em 2023, pouco antes das primárias, e consegui, naquele momento, visitar o Congresso argentino junto a um deputado. Eu estava fazendo pesquisa sobre o apoio ao acordo Mercosul-União Europeia.
No Congresso, eu perguntei a esse deputado sobre o Milei, [na época deputado também], e ele respondeu: "eu sei como é que ele atua aqui, ele fala muito menos do que eu — e eu não sou um candidato muito expressivo — então dificilmente ele vai ganhar".
Aliás, dos dez entrevistados que a gente teve naquela semana, todos falavam "Milei não tem chance". Eu cheguei a ouvir "a gente não é Brasil, como vocês, que elegeram Bolsonaro".
Só que eles eram pessoas mais experientes, com mais idade, que ainda acreditavam na política tradicional. Os mais jovens, além de não acreditarem na política tradicional, se alimentam de informações pelas redes sociais, e gostam de candidatos que apresentam uma solução rápida, uma solução imediata [para os problemas].
Por isso que a Colômbia acabou de eleger Abelardo de la Espriella, que é jovem e empresário. E ele quer dar uma solução rápida a um problema histórico da Colômbia, que é o narcotráfico, um problema que vem desde os anos 70.
Tudo isso para a gente entender que a região está sendo governada hoje por governos majoritariamente de direita, que estão pegando muito pesado com a questão da segurança pública. Isso porque a violência está grande, mas ela também é fruto de um problema estrutural da região, que é a pobreza e a desigualdade. E os governos de esquerda não deram conta de resolver essa problemática totalmente.
Tivemos a onda da esquerda no começo do século 21 e esses governos, claro, se saturaram. E aí uma outra coisa importante sobre a influência externa: esse período [da onda da esquerda, início dos anos 2000] foi o momento em que os Estados Unidos se voltaram para o 11 de setembro e eles deram um espaço, um respiro, se retiraram muito da nossa região.
E não existe vácuo nas relações internacionais. Outras lideranças ocuparam. Tanto líderes emergentes, não populistas, vieram à baila, ou seja, conseguiram governar, como também tivemos uma influência cada vez maior da China, que não publiciza, mas está muito presente na nossa região. E os Estados Unidos estão esperneando desde o começo do governo Trump, porque eles sabem que estão perdendo a hegemonia mundial para a China.
A China não publiciza, eles têm outra forma de trabalhar, mas eles estão muito presentes.
BBC News Brasil - E olhando para essa situação, dos Estados Unidos perdendo hegemonia, a senhora acha que Trump pode, de alguma maneira, interferir ou atuar na eleição brasileira deste ano?
Bressan - Com certeza. Eu não tenho provas concretas sobre isso, mas eu te falo por circular pelas eleições dos outros países, estar em contato com pesquisadores do Uruguai, da Venezuela, agora estive no México, e não tem como não acreditar que não haja interferência.
E não precisa existir uma interferência direta. Existe uma influência, uma pressão e isso é muito divulgado, como quando o Flávio Bolsonaro foi lá nos Estados Unidos jogar com as tarifas. Sabemos que o nosso Pix é uma ameaça em relação às bandeiras dos cartões, então existe aí toda essa dinâmica.
Mas, que os Estados Unidos vão pressionar por um candidato alinhado a eles, não tenho dúvida. Eles querem voltar a ter influência sobre nós, porque sabem que perderam, de um lado para a China, e do outro, para a União Europeia, que deve estar cada vez mais presente aqui. A União Europeia não é uma ameaça para os Estados Unidos, mas está nesse tabuleiro de forças de influência na região.
BBC News Brasil - Especialmente agora com o acordo Mercosul-União Europeia entrando em vigor...
Bressan - Com certeza.
Em agosto do ano passado [quando o primeiro tarifaço de Trump tinha acabado de entrar em vigor], estive em Brasília fazendo entrevistas sobre o tema das tarifas.
Conversamos com alguns deputados e foi interessante que nenhum deles, naquele momento, queria falar dos Estados Unidos. Mas todos diziam "olha, temos que procurar alternativas, temos que ir ao México".
Aí fomos na CNI [Confederação Nacional da Indústria], no Itamaraty, e a ideia era a mesma: "Vamos buscar alternativas, vamos buscar uma solução, não vamos ficar reféns dos Estados Unidos ou duelando com os Estados Unidos."
BBC News Brasil - Diante dessa situação, numa eventual vitória novamente do Lula esse ano, ele corre o risco de ficar isolado no continente, em relação aos Estados Unidos?
Bressan - Bom, vamos lembrar como foi a estratégia do Brasil no G20. A gente queria negociar o acordo do Mercosul com a Europa. O que o Brasil fez? Usou uma grande estratégia. Chamou o Milei para o G20, o Milei foi, falou tudo o que ele queria falar, a política externa brasileira acolheu o Milei e depois falou: "Milei, então você assina o documento?"
E ele assinou.
A política externa é pragmática, e a gente não vai se isolar, porque a nossa política externa é pragmática.
Eu dei o exemplo do Milei, mas é isso que a gente vai fazer com a Colômbia, com a Venezuela. Ou seja, não concordamos com a eleição, mas não vi ninguém do Itamaraty condenar, se isolar, porque fazemos fronteira, porque somos um país grande, porque a qualquer momento os Estados Unidos podem intervir ou se envolver num conflito, e o Brasil quer estar aqui presente na região.
Aliás, o que a gente tem discutido nos congressos de integração é voltar a ter o que a União Europeia teve lá nos anos 50, que foi uma integração funcional. Ou seja, Alemanha e França, que estiveram em conflito na Segunda Guerra, não queriam mais brigar. O que eles fizeram? Compartilharam a administração de aço e carvão, essenciais para uma guerra.
As políticas de infraestrutura, de estrada, de rodovia na América do Sul devem continuar, a despeito das ideologias. E aí a gente consegue uma integração mais funcional, ou seja, baseada em funções, em pragmatismo e interesses efetivos dos nossos Estados.
Eu acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil. Vão continuar tensionando a situação do México. E, é claro, a gente tem que estar muito atento a esses governos extremistas, porque são governos extremistas que rompem com a democracia.
BBC News Brasil - Quando a senhora fala em tensionar as eleições brasileiras, o que isso significa, na prática? Essa tensão vem de que forma?
Bressan - Em forma de tarifas, de considerar como terroristas as facções criminosas, as Big Techs, que o Brasil quer regulamentar, e as críticas ao Pix.
Acho que esses quatro temas já são um grande exemplo do que a gente deve enfrentar nos próximos meses em relação ao tensionamento dos Estados Unidos.
BBC News Brasil - E tem alguma conversa que o Lula poderá ter para remediar essa postura do Trump?
Bressan - Aí vamos entrar em outra arena que é a sanidade do Trump. Ele é muito instável, não é pragmático. Acho que a dificuldade que o Lula encontra é essa, ele encontra o Trump num dia, o Trump gosta. Aí no outro, já não gosta mais. É uma instabilidade que dificulta demais.
[Robert] Keohane, um teórico dos anos 80, que fala sobre a importância, depois da Guerra Fria, de criarmos e ampliarmos as organizações, diz que é importante que eu saiba como o outro vai atuar. Eu tenho regras, porque eu sei mais ou menos como o outro país vai atuar e aí eu consigo ter um planejamento econômico, consigo investir em indústria para exportar, porque sei que o outro país vai comprar de mim, sei que eu posso fazer uma cadeia produtiva.
A previsibilidade de comportamento é muito importante para as relações internacionais. E nós estamos num momento de fracasso, de encolhimento, de retração dessas organizações.
A imprevisibilidade, que não me deixa saber como os países vão atuar, dá medo, gera insegurança à população e faz com que haja também uma descrença.
É um ciclo: uma descrença na política, nos partidos tradicionais, que gera o apoio a candidatos de respostas rápidas, e que flertam com um certo autoritarismo, porque existe instabilidade e instabilidade gera insegurança que gera medo.
E aí as pessoas tendem a sair dos partidos mais tradicionais, sair daqueles políticos que já até governaram antes, para candidatos outsiders.