Em tom de campanha, Lula faz discurso duro na ONU e defende soberania

'Eleições vão definir entre democracia e negacionismo', disse o presidente

22 set 2026 - 12h18
(atualizado às 12h30)
Resumo
Em tom eleitoral na Assembleia Geral da ONU, o presidente Lula defendeu a soberania brasileira contra ingerências externas e abordou temas domésticos, como o fim da escala 6x1, a regulação de apostas e Big Techs, e a manutenção do Pix público. O petista também criticou a imobilidade das Nações Unidas perante conflitos armados e cobrou reformas no Conselho de Segurança, condenando a submissão global aos interesses das grandes potências e o avanço da corrida armamentista.

Em meio a uma disputa eleitoral acirrada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursou nesta terça-feira (22) na Assembleia Geral da ONU em claro tom de campanha, com menções a temas como crime organizado, casas de apostas, PIX e o fim da escala 6x1, além de uma reivindicação firme da soberania do Brasil, diante dos temores de interferências dos Estados Unidos em benefício de Flávio Bolsonaro (PL).

Presidente Lula discursa na Assembleia Geral da ONU
Presidente Lula discursa na Assembleia Geral da ONU
Foto: ANSA / Ansa - Brasil

"No dia 4 de outubro, milhões de brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Vão decidir entre democracia e negacionismo, se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão", disse o petista na parte final de seu longo pronunciamento, que foi interrompido quatro vezes por aplausos.

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Segundo Lula, alguns candidatos "se associaram a interesses estrangeiros contrários ao país", e "redes de desinformação pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha". "Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto e não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém, ninguém nos afastará desse caminho", acrescentou.

O presidente também denunciou o "recrudescimento das tentações hegemônicas" na América Latina e no Caribe devido à "proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo", porém ressaltou que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém".

"Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular, mas a democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar ingerências externas em processos eleitorais, e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos", disse.

Lula também aproveitou a ocasião para reivindicar ações de seu governo no combate ao crime organizado, ressaltando que o país não vai "terceirizar a responsabilidade de defender as fronteiras" e "não precisa de porta-aviões vigiando nossas águas", em referência às ações militares dos EUA contra narcotraficantes na América Latina.

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Além disso, garantiu que o Brasil não vai ceder a "pressões de multinacionais que querem privatizar o PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros".

O presidente também criticou as casas de apostas, alimentando a expectativa de que o governo apresentará uma medida provisória para restringir a atuação das chamadas "bets". "A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio", afirmou.

Lula ainda citou o papa Leão XIV para defender a regulamentação das Big Techs e da inteligência artificial, diante de "um punhado de tecno-oligarcas" que "quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência, promovendo uma corrida sem freios éticos à revelia da ONU".

"Como adverte o Papa Leão XIV, 'as decisões sobre tecnologia nunca devem ser separadas da consciência e da responsabilidade'", ressaltou o petista, que também defendeu o fim da chamada escala 6x1. "O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família", reforçou.

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Crises internacionais

O presidente também afirmou em seu discurso na Assembleia Geral que a ONU vive o "momento mais crítico" de sua história e expressou "indignação" pela imobilidade da instituição diante dos conflitos que assolam o mundo.

"A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas: a de salvar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa, e sua capacidade de proteger os mais vulneráveis nunca foi tão pequena", disse.

Segundo Lula, o mundo se tornou refém de um "Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel". "O poder de veto conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez", acrescentou o mandatário, lembrando que, em 2025, o planeta registrou o "maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra".

"Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista, e os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir, as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites", salientou.

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