Em sabatina, Lula dá guinada sobre redução da maioridade penal

16 out 2026 - 05h12
Resumo
Em busca de virada no segundo turno, o presidente Lula defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos e o financiamento de 138 presídios de segurança máxima. Em sabatina, ele assumiu a responsabilidade pela má avaliação do governo, cobrou apuração rigorosa sobre suspeitas de corrupção no STF, criticou a ida do diretor da PF a um evento ligado a investigados e justificou o reajuste tardio do Bolsa Família alegando desconhecimento prévio sobre a falta de correção do benefício.

Em busca de virada no 2º turno, presidente diz ser a favor de reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, bandeira normalmente associada à direita, e anuncia planos para financiar 138 presídios de segurança máxima.A dez dias do segundo turno e em leve desvantagem nas pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou se apresentar na noite de quinta-feira (15/10) em sabatina à TV Globo como uma figura pragmática, assumindo a culpa pela má avaliação do governo, defendendo reformas no Supremo e protagonizando uma guinada no tema da redução da maioridade penal.

Lula tenta virada no segundo turno da eleição presidencial
Lula tenta virada no segundo turno da eleição presidencial
Foto: DW / Deutsche Welle

Falando à jornalista Renata Lo Prete após o Jornal Nacional, Lula evitou mencionar o adversário Flávio Bolsonaro (PL), que ficou à frente no primeiro turno, preferindo falar de feitos do seu governo, mas também tentando se mostrar como um líder capaz de protagonizar mudanças.

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Redução da maioridade penal e segurança

A guinada mais explícita de Lula ocorreu no tema da segurança, com o presidente Lula se colocando a favor da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos para crimes hediondos, um tema que historicamente nunca foi bandeira do seu partido e que ainda foi rechaçado pelo presidente nos seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010.

"Crime hediondo exige punição. E eu, como cidadão, sou favorável à redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos. Segurança pública é coisa séria e precisa ser tratada com responsabilidade, sem distorcer o debate", disse Lula durante a entrevista à TV Globo.

A fala foi feita num contexto de uma proposta de emenda do senador Camilo Santana (PT-CE), ex-ministro da Educação e líder do PT no Senado, de reduzir a maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos. O senador tentou incluir o tema na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, após setores bolsonaristas tentarem incluir uma redução ainda mais ampla, dos 18 aos 14 anos.

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Lula, apesar de se mostrar favorável à proposta do senador Camilo Santana, avaliou que o tema da redução da maioridade não deveria entrar necessariamente na PEC da Segurança. "Qual é o problema? A PEC não estava discutindo isso", disse Lula na sabatina.

Ainda no tema da segurança, Lula defendeu a participação do governo federal na segurança pública, como prevê a PEC em questão, e disse que pretende criar um Ministério da Segurança Pública e financiar a construção de 138 presídios de segurança máxima em todo o país.

Lula também disse concordar que, do ponto de vista das comunidades, organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho agem como "terroristas", mas criticou movimentos dos EUA em classificar esses grupos oficialmente como grupos terroristas.

"O que nós temos consciência é de que aqui no Brasil, tanto o PCC como o Comando Vermelho, são terroristas para a comunidade brasileira, para os bairros brasileiros e para as cidades. Mas não é o terrorismo de Estado que os Estados Unidos querem que seja", afirmou Lula.

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Avaliação do governo e responsabilidade

Questionado sobre a má avaliação do governo e sua votação no primeiro turno, que o colocou atrás do adversário Flávio Bolsonaro, Lula disse assumir a responsabilidade. "Eu acho que a responsabilidade é toda minha. Eu sou o governo. Então, se eu não conseguir ser compreendido pela sociedade brasileira, eu não posso ficar jogando a culpa em ninguém, tenho que jogar a culpa em mim", disse. "Quando as coisas dão certo, sou eu que ganho. Quando elas não dão certo, sou eu que perco".

Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira mostrou o governo com 41% de avaliação ruim ou péssima, 35% ótima ou boa e 23% como regular.

O presidente também disse que enfrentou "algumas dificuldades" em razão da gestão anterior do ex-presidente Jair Bolsonaro. "Foram dois anos e meio para tentar recuperar o país", disse.

Questionado sobre se pode enfrentar dificuldades com um Congresso ainda mais à direita caso seja reeleito, Lula ainda fez uma avaliação positiva sobre a relação do seu governo com o Legislativo, argumentando que sua administração englobou todos os partidos, com exceção do PL da família Bolsonaro.

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"Aprovamos 99% de tudo que a gente fez, até uma reforma tributária que havia 40 anos que queríamos aprovar. Todos participaram de ministérios do meu governo, o PP, o União Brasil, o PSD, MDB. Ou seja, nós tivemos uma grande participação das pessoas no governo. É por isso que nós conseguimos aprovar tudo e, se não for assim, você não governa o país", disse.

Respondendo a uma pergunta sobre as razões de ter aumentado em 15,04% o Bolsa Família somente às vésperas das eleições, Lula respondeu que não sabia que o benefício não havia sido reajustado nos últimos quase quatro anos e, quando soube, determinou a correção.

"Eu não quero que você ouça a reunião que eu tive com meus ministros quando eu fiquei sabendo que o Bolsa Família não tinha sido reajustado. Eu não sabia. É inexplicável que, no governo do Lula, alguém pense em não reajustar. É impensável. Mas aconteceu", disse. "Eu tomei a decisão: a gente vai dar tudo o que a gente não deu."

STF e diretor da PF

No tema da crise do Supremo Tribunal Federal (STF), Lula defendeu o aprofundamento das investigações sobre suspeitas de corrupção envolvendo o Banco Master e ministros e defendeu mudanças na Corte.

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"Não é possível que apareça na Suprema Corte tantas e tantas denúncias de orgia, mulheres e dinheiro. A sociedade brasileira precisa que seja apurado", disse. "Que não fique pedra sobre pedra. Que se puna quem precisar punir. Não tem como imaginar que a sociedade vá aceitar que se coloque um tapete em cima disso e se esqueça o que aconteceu. É muito grave".

O presidente, porém, avaliou que parte das críticas sofridas pelo Tribunal não está relacionada apenas a suspeitas de corrupção, mas também ao papel do ministro Alexandre de Moraes na condenação dos envolvidos na trama golpista de 2022-2023.

"Obviamente que a extrema direita tenta jogar a Suprema Corte nas minhas costas, porque eles querem caçar o Alexandre de Moraes. Não é por conta do Banco Master apenas; eles querem caçar o Alexandre de Moraes porque o Alexandre de Moraes prendeu o pai do Flávio Bolsonaro", disse.

Lula ainda afirmou que vários ministros estão envolvidos com o banqueiro Daniel Vorcaro, e não apenas Moraes. "O Toffoli [Dias Toffoli] também está implicado, o André Mendonça também está implicado e o Kássio [Nunes Marques] está implicado. Agora está todo mundo implicado", disse Lula.

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Ainda na sabatina, Lula relatou que repreendeu o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, por ter participado de uma festa em Londres ligada a Vorcaro. "Quando eu fiquei sabendo que ele tinha ido a Londres, eu chamei a atenção dele [porque] o papel do diretor da Polícia Federal não permite que ele estivesse em Londres. Não permite", disse Lula. "Ele me deu uma explicação. Não foi convincente para mim. Ele não precisava ter ido. Aliás, ninguém precisava ter ido para aquela festa. Ninguém."

Por outro lado, Lula elogiou seu chefe da PF, afirmando que ele faz um "extraordinário trabalho". Questionado na sabatina sobre uma eventual permanência de Rodrigues no cargo em caso de reeleição, Lula se limitou a afirmar: "Primeiro, preciso ganhar as eleições".

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