Crise do STF embala 7 de setembro e vira trunfo para Flávio Bolsonaro tentar recuperar força eleitoral

Com empate nas simulações de segundo turno, candidato do PL aposta no desgaste de Alexandre de Moraes para mobilizar a base bolsonarista no 7 de Setembro — mas enfrenta o desafio de não afastar eleitores moderados.

7 set 2026 - 05h07
Resumo
Mensagens vazadas atribuídas a Alexandre de Moraes geraram nova crise no STF e impulsionaram os atos da direita na Avenida Paulista neste 7 de Setembro. Empatado com Lula nas pesquisas de segundo turno, Flávio Bolsonaro usa o episódio para mobilizar sua base eleitoral e pedir o impeachment do ministro. Especialistas apontam que a ofensiva consolida a coesão do núcleo bolsonarista e sinaliza força política, mas a radicalização do discurso pode afastar eleitores moderados e independentes.
Flávio Bolsonaro discursa durante um comício de campanha na Praia de Copacabana
Flávio Bolsonaro discursa durante um comício de campanha na Praia de Copacabana
Foto: Fabio Teixeira/Anadolu via Getty Images / BBC News Brasil

Em 2021, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) atacou diretamente o Supremo Tribunal Federal (STF) em um carro de som na Avenida Paulista, em São Paulo.

Na ocasião, ele afirmou que não cumpriria mais decisões de Alexandre de Moraes. "Ou esse ministro se enquadra ou ele pede para sair", disse o ex-presidente, incitando apoiadores contra a Corte.

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Cinco anos depois, o ministro volta à pauta das manifestações da direita. Nas convocações para o ato na Paulista nesta segunda-feira (7/9), o mote é "Fora, Lula. Fora, Moraes".

As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e atribuídas a Moraes colocaram o STF em uma crise sem precedentes. Reveladas a menos de uma semana do 7 de Setembro, no dia 1º de setembro, elas também abriram uma oportunidade para a campanha de Flávio Bolsonaro (PL).

O candidato do PL e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estão praticamente empatados nas pesquisas de intenção de voto para o segundo turno, com o herdeiro de Bolsonaro reconquistando o fôlego nas últimas semanas, mostra o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

A um mês do primeiro turno da eleição presidencial, ambos os candidatos apareciam empatados nas simulações de segundo turno, com 44% das intenções de voto cada, segundo as pesquisas divulgadas até 3 de setembro.

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Moraes volta à pauta das manifestações do 7 de setembro após quebra de sigilo de relatório da PF sobre Vorcaro
Foto: Evaristo Sa / AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Assim que as mensagens de Vorcaro vieram à tona, depois que o ministro André Mendonça retirou sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF), Flávio declarou que Moraes não tinha mais "condições de permanecer no cargo".

O senador chamou as revelações de "muito graves" e opinou que o ministro deveria renunciar ao cargo.

Já a bancada do PL anunciou um novo pedido de impeachment de Moraes no Senado e cobrou investigação do ministro, de Andrei Rodrigues, chefe da PF, e de Paulo Gonet, procurador-geral da República, também implicados no episódio.

Nesta segunda na Paulista, nomes como os candidatos ao Senado Guilherme Derrite (PL-SP) e Michelle Bolsonaro (PL-DF), o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que busca reeleição, são esperados no palanque.

O pastor Silas Malafaia, organizador de outros atos bolsonaristas no mesmo local, diz estar otimista. No WhatsApp, ele tem dado munições para sua base quase diariamente, com vídeos argumentando contra o Supremo e Moraes.

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À BBC News Brasil, ele afirmou nunca dar uma expectativa de número de uma manifestação, mas acredita que o ato deste 7 de setembro será grande, "dada a revolta do povo com essa questão de Alexandre de Moraes". Ele promete fazer no palanque seu discurso mais duro contra o ministro.

"É um absurdo um cara jogar uma cortina de fumaça em cima do André [Mendonça] pra escapar. Não vai ser brincadeira lá não, vamos botar pra quebrar lá em cima de Alexandre de Moraes e do Gonet."

Mas essa expectativa não é compartilhada pelas cúpulas do Congresso Nacional. Segundo apuração do jornal Valor Econômico, a aposta dos presidentes da Câmara e do Senado é de que o bolsonarismo não será capaz de encher a Avenida Paulista — possivelmente fria e chuvosa, em um feriado prolongado.

O que Flávio ganha eleitoralmente com a crise?

Na última quarta-feira (2/9), o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, decidiu enfatizar a amizade de Lula e Moraes, em conversa com jornalistas.

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"Agora não adianta vir querer se descolar do Moraes, como estão pensando fazer", disse. "Por que Lula ainda não afastou o Andrei para que ele possa ser investigado? A confiança do presidente Lula no Andrei, no Alexandre de Moraes, no Gonet é altamente comprometedora."

De um lado, a oposição petista e de esquerda tenta mostrar que quem está mais envolvido com o caso do Master é a direita e correligionários do Flávio Bolsonaro, diz Lucas Gelape, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

"Por outro lado, o candidato do PL tenta colocar que é uma questão não só do STF e do PT de Jacques Wagner, mas que também é uma coisa difusa no sistema político", continua.

Na sua avaliação, a crise da última semana pode ter impacto para Lula, mesmo que seu nome propriamente dito não esteja implicado no episódio.

"Mas aparece o nome de Andrei Rodrigues, chefe da Polícia Federal no governo Lula; de Paulo Gonet, um PGR indicado pelo governo Lula. Então pode ser que ele tenha um eventual dano colateral", argumenta.

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No seu principal ato de campanha até agora, na Vila Euclides, Lula tentou retomar a imagem de que ele não é um candidato da institucionalidade, mas que veio do sindicalismo.

"Lula tenta se colocar como alguém que não é da elite brasileira, mas, depois de três mandatos na Presidência e de todo um histórico na política institucional, é inevitável que o eleitor o associe à institucionalidade política no Brasil quando essa mesma institucionalidade é colocada em xeque."

Enquanto a crise pode atingir o petista, Flávio tenta se desvencilhar dela, puxando a histórica pauta contra o Supremo para o centro de sua campanha. "Se isso dará certo ou não, eu acho que é uma das perguntas-chave dessa eleição", diz o professor da UFMG.

Campanha de Flávio quer relacionar escândalo do Banco Master ao PT e ao sistema político, analisa cientista político
Foto: Gledston Tavares / AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Para a cientista política Carolina Botelho, pesquisadora do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade Mackenzie, ainda que cheio, o ato não deve provocar impacto fora da bolha bolsonarista.

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"Se a gente pensar bem, desde 2018, o bolsonarismo trabalha para manter essa bolha, para criar essa coesão o tempo todo. E eles têm sido muito bem-sucedidos nisso", diz.

"Mas a expectativa de trazer outras pessoas, eu acho que é muito difícil. Quem não está nessa bolha de crença bolsonarista dificilmente desassocia Flávio, a família e outras lideranças bolsonaristas desses episódios envolvendo o Banco Master", analisa.

Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), enxerga um dilema, inclusive. "Quanto mais radicalizado for o ato, provavelmente maior será sua capacidade de mobilizar o núcleo bolsonarista; mas menor poderá ser sua capacidade de persuadir eleitores moderados ou independentes", afirma.

Para ela, Flávio enfrenta um "problema estratégico": a estratégia pode ainda afastar eleitores moderados.

"Ele precisa mobilizar a base sem reproduzir integralmente o discurso de confronto institucional do pai. Por isso, acredito que devemos observar no ato uma divisão de trabalho discursiva. Lideranças como Silas Malafaia, Eduardo Bolsonaro e outros atores mais identificados com a ala mobilizadora podem realizar os ataques mais duros", avalia.

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"Flávio tende a tentar ocupar uma posição um pouco mais institucional: criticar Moraes, defender investigação, eventualmente defender impeachment, mas simultaneamente afirmar respeito ao STF enquanto instituição."

Há ainda um risco, afirma: a crise não é totalmente favorável ao bolsonarismo.

A própria campanha eleitoral de Flávio saiu arranhada depois do episódio do filme Dark Horse. Em maio, foi revelado que Flávio pediu R$ 134 milhões a Vorcaro para financiar a produção em homenagem a seu pai.

Na semana seguinte ao episódio, o candidato do PL chegou a cair 4 pontos nas simulações de segundo turno, mostra o agregador da BBC News Brasil. Mas o candidato tem ganhado novo fôlego nas pesquisas novamente.

Por isso, diz a professora, quanto mais o caso for explorado, maior a possibilidade de a discussão deixar de ser exclusivamente "Moraes versus bolsonarismo" e passar a envolver uma rede mais ampla de relações políticas.

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Na semana passada, o candidato Augusto Cury (Avante) ganhou força entre uma parcela dos eleitores que demonstra descontentamento com a polarização.

Cury deu um salto nas pesquisas. Considerando a média dos levantamentos publicados até o dia 3 de setembro por diversos institutos, Cury ocupa o terceiro lugar da disputa, com 7% de intenção de voto no primeiro turno.

Flávio, diz a professora, precisaria conseguir combinar a identidade bolsonarista com um discurso menos ameaçador para os eleitores independentes.

"Se prevalecer uma retórica exclusivamente dirigida contra Moraes, o STF e o sistema político, é mais provável que tenhamos uma poderosa demonstração de coesão da base do que uma ampliação efetiva da coalizão eleitoral", finaliza.

Berço para a direita

Avenida Paulista se tornou o principal palco do bolsonarismo no país
Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Há pelo menos uma década, desde os atos pró-impeachment de Dilma Rousseff em 2016, a Avenida Paulista se consolidou como um espaço de demonstração de força da direita brasileira.

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E o 7 de Setembro, por sua vez, também se tornou um palco relevante de mobilização política para este espectro político.

Historicamente, a data sempre foi marcada por desfiles militares e celebrações cívicas. Movimentos populares da esquerda também organizam anualmente, desde 1995, o Grito dos Excluídos — mas sem grande atenção da imprensa.

Lucas Gelape diz que o Dia da Independência é especialmente importante para o bolsonarismo porque uma das linhas deste campo político é justamente o nacionalismo.

"É uma data muito simbólica, talvez de maior ativação da base bolsonarista", afirma o analista.

"Durante o governo de Jair Bolsonaro, era no dia 7 de Setembro que ele concentrava força. Ele dedicava esforços a isso. Foram nessas manifestações que muitas vezes ele radicalizou o discurso contra o Supremo Tribunal Federal."

A multidão de verde e amarelo, bandeiras nacionais e lideranças reunidas em torno de um mesmo adversário produz "uma imagem política muito poderosa" para o campo bolsonarista, completa Luciana Santana.

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"O bolsonarismo conseguiu associar parte importante de sua identidade política a símbolos que pertencem originalmente ao repertório nacional, como bandeira, hino, cores nacionais, patriotismo, independência. Por isso, a data permite construir uma narrativa segundo a qual aquele campo não estaria apenas defendendo um candidato ou partido, mas o próprio país", afirma.

Já Carolina Botelho adiciona que as manifestações se tornaram uma "caixa de ressonância" do bolsonarismo.

"Elas reforçam valores, integram mais o grupo, criam mais coesão e mantêm não só viva essa mobilização desses perfis", diz a pesquisadora.

"Mas também repercute o que, naquele momento, o bolsonarismo gostaria de vocalizar e de passar para as pessoas, mantendo fortes os laços e garantindo que o grupo se mantenha unido em torno da família [Bolsonaro] e dos políticos que atuam junto com ele."

Dia da Independência na Avenida Paulista serviu de palanque eleitoral para a direita em 2022
Foto: NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Foi em 2021, porém, que o Dia da Independência ganhou centralidade para a direita bolsonarista.

Naquele ano, apoiadores do então presidente tomaram as ruas com centenas de milhares de pessoas, em um ano pré-eleitoral. O ato culminou com o ataque de Bolsonaro a Alexandre de Moraes.

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Também naquela ocasião, a Corte foi surpreendida pela invasão da Esplanada dos Ministérios na noite anterior, por caminhões e manifestantes a pé, o que gerou fortes temores de que a sede do Tribunal poderia ser depredada ou invadida.

"Para mim, é momento de maior radicalização institucional do Bolsonaro. Interpelar um ministro do Supremo, dessa forma, é algo raro, basicamente em qualquer democracia. E, transportando isso para hoje, temos Alexandre de Moraes no centro do debate mais uma vez."

Nas eleições de 2022, com o bicentenário da Independência e em meio à campanha eleitoral, o evento funcionou como palanque para candidaturas bolsonaristas na Avenida Paulista.

Em Brasília e no Rio, Bolsonaro participou diretamente das comemorações. Depois, o TSE entendeu que ocorreu abuso de poder político e econômico e declarou Bolsonaro e seu candidato a vice, Walter Braga Netto, inelegíveis por oito anos em razão do episódio. Segundo o tribunal, houve uma "fusão" entre o evento cívico oficial e o ato eleitoral.

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"O bolsonarismo aprendeu o enorme potencial eleitoral da data, mas também os riscos jurídicos de confundir celebração estatal e campanha eleitoral", diz Luciana Santana.

Lucas Gelape afirma que explorar a nova crise do STF neste 7 de setembro tem ao menos dois objetivos: dar ânimo à base bolsonarista e fazer uma imagem foto de um ato de campanha mais cheio.

Considerado esvaziado, o primeiro ato de campanha do Flávio Bolsonaro em Copacabana, em 16/08, reuniu 8,9 mil pessoas, segundo um monitoramento da Universidade de São Paulo (USP).

Primeiro ato de campanha do Flávio Bolsonaro em Copacabana reuniu 8,9 mil pessoas, segundo levantamento
Foto: Fabio Teixeira/Anadolu via Getty Images / BBC News Brasil

"Foi pouco mobilizado em relação a outros. E, no momento em que precisa demonstrar força, Flávio encontrou uma chama para jogar na base dele", afirma Gelape.

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O analista lembra que a importância de um comício não é converter novos eleitores. "Não é que vai ter uma pessoa andando na rua que vai ouvir um discurso e falar: 'Pô, vou votar nesse cara'. Não é por isso que o comício é importante, mas porque você sinaliza para o eleitorado que você é forte e tem chance de ganhar a eleição", explica.

Ele prevê que Flávio deve explorar ao máximo esta crise política. "Digamos que ele ganhou o vento nas velas de seus barcos para deixar esse ato do 7 de setembro mais forte."

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