CPI rejeita indiciamento de ministros do STF, mas sugestão de relator agrava crise entre os poderes

O relatório final da CPI do Crime Organizado não conseguiu votos suficientes, mas nem de longe isso significa bandeira branca entre os poderes da República, ao contrário. A reação de autoridades aponta para novos capítulos da crise institucional instalada no país.

15 abr 2026 - 09h05

Por Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

Plenário do Senado brasileiro durante uma sessão em março de 2026.
Plenário do Senado brasileiro durante uma sessão em março de 2026.
Foto: AFP - EVARISTO SA / RFI

Enquanto o relator Alessandro Vieira (MDB-SE) citava o rei absolutista Luís XIV, da França, para criticar o poder de ministros do Supremo Tribunal Federal, do outro lado da rua, na sede do Poder Judiciário, a reação evidenciava mais um capítulo da crise institucional do país.

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Ver o nome incluído no capítulo mais negativo de um relatório, o dos indiciamentos, ainda mais em uma comissão instalada para apurar o crime organizado, levou magistrados a defenderem maior controle sobre as CPIs e até a inelegibilidade de parlamentares.

"Trata-se de um erro histórico que nos conduz a uma reflexão mais ampla sobre os poderes de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Tenho absoluta certeza de que o tribunal vai se debruçar sobre isso", afirmou Gilmar Mendes durante sessão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal.

"Excrecência de um relatório completamente infundado, com o único objetivo de obter votos. Isso é abuso de poder e pode levar à inelegibilidade", afirmou Dias Toffoli. "A Justiça Eleitoral não faltará em punir quem age com proselitismo eleitoral", completou.

Pedido de indiciamento por crime de responsabilidade

O texto final da CPI do Crime Organizado, derrotado por 6 votos a 4, defendia o indiciamento por crime de responsabilidade dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, por suspeita de relação próxima e ilegal com Daniel Vorcaro, ex-dono do banco Master, e de Gilmar Mendes, por decisões que teriam dificultado a apuração dos fatos. Além deles, o relator pretendia indiciar o procurador-geral da República, Paulo Gonet, por suposta inação diante das suspeitas.

A ideia do relator, que contava com o apoio de parlamentares bolsonaristas, era que a proposta da CPI embasasse, em análise posterior pelo Senado, o impeachment dos magistrados citados. O texto também defendia a aprovação de uma emenda constitucional para impor limites à atuação do STF.

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"Que ajude a Suprema Corte a superar o que me parece um complexo de Luís XIV, a quem é atribuída a frase 'o Estado sou eu'. Temos ministros que incorporam esse espírito ao entenderem que críticas direcionadas à conduta individual deles se traduzem como críticas à democracia ou à instituição suprema", ressaltou Alessandro Vieira.

Embora o texto do senador trouxesse capítulos descrevendo a atuação de grupos organizados, uma das principais críticas ao relatório é que os pedidos de indiciamento se limitavam ao STF e ao chefe da PGR, sem trazer nomes ligados ao próprio grupo de Daniel Vorcaro, ao sistema financeiro, a organizações criminosas, tampouco a parlamentares e outros políticos citados no escândalo.

"Nós tínhamos pano para manga para indiciar muita gente. Chegou aqui sigilos bancário, fiscal e telefônico que permitiriam um trabalho aprofundado, com uma boa contribuição para as investigações. E isso não foi feito. Foi justamente de onde não se aprofundou que vieram os indiciamentos", afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE).

Reação do relator da CPI

O relator afirmou que decidiu focar nas autoridades judiciais porque elas não figuram em investigações oficiais e também por uma questão técnica, alegando que o crime de responsabilidade não exige um arcabouço tão robusto de provas quanto crimes comuns, como corrupção, uma vez que a punição é política, com afastamento do cargo ou perda de direitos políticos, e não privação de liberdade.

Ele também destacou o tempo curto de apuração da CPI, a falta de pessoal para conduzir os trabalhos, já que nem todos os órgãos cederam funcionários, assim como a dificuldade de acesso a informações e até o impedimento de depoimentos de testemunhas em razão de decisões do STF. Vieira justificou que, diante disso, optou por focar nos casos em que a palavra final cabe ao Senado.

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"Os ministros do STF precisam estar submetidos ao controle da fiscalização. O uso da toga não gera impunidade nem imunidade plena para ninguém", afirmou o relator, que recebeu apoio de parlamentares como Sérgio Moro (PL-PR), mas críticas de senadores governistas, que apontaram revanchismo contra ministros responsáveis por condenações relacionadas aos atos antidemocráticos de janeiro de 2023.

Ainda assim, a votação e a discussão na CPI ocorreram de forma cordial, sem episódios de maior acirramento.

Nos bastidores, porém, a movimentação foi intensa. A derrota do relatório final ocorreu após o MDB, que coordena o maior bloco da CPI, substituir nomes da oposição por integrantes do PT, em uma articulação com governistas e com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que já havia vetado a prorrogação do prazo de funcionamento da comissão.

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