Competição entre jovens tem viralizado em diversas cidades, mas também despertado hostilidade nas redes. Especialistas veem eventos com simpatia e apontam que eles promovem socialização em tempos de dependência digital.A expressão "farmar aura", que tem sido muito usada por jovens, saiu das telas dos smartphones e migrou para parques e praças públicas. Nas últimas semanas, competições relacionadas a essa gíria se popularizaram nas redes e foram realizadas em diversas cidades do país.

Esses campeonatos de "farmar aura" reúnem crianças, adolescentes e até adultos, muitos deles curiosos para acompanhar do que se trata. Os vídeos dessas competições viralizaram e dividiram opiniões: enquanto alguns elogiaram ou se divertiram com os registros, outros direcionaram diversas críticas.

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Para entender melhor esse assunto, primeiro é necessário compreender a expressão "farmar aura", que em resumo significa conquistar a admiração dos outros.

Clotilde Perez, diretora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), detalha que o termo "farmar" é derivado da palavra "farm" (fazenda, em inglês).

"É uma ideia de cultivo ou construção. No contexto dos jogos, seria cultivar pontos ou moedas, as recompensas, nesse caso."

Já a "aura", explica Perez, é derivada de algo como uma santificação. "Isso tem a ver com energia espiritual, a gente tem aquela imagem do santo com uma aura sobre a cabeça. Então, é como se alguém com aura tivesse um valor excepcional".

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"Quando esses dois termos se juntam, surge a ideia de cultivar algo especial. Como vem da linguagem digital, dos games, 'farmar aura' vem um pouco desse contexto de ser reconhecido, admirado ou pertencer a um lugar de destaque", diz Perez.

Os campeonatos pelo país são movidos por essa busca por "farmar aura". Nas disputas, os competidores, quase sempre crianças ou adolescentes, se enfrentam com danças, movimentos descompassados ou qualquer outra forma criativa, enquanto a plateia acompanha atentamente. No fim, vence aquele que conquista o público ou os jurados.

Não há uma regra sobre o que fazer para ganhar a disputa, o tema é livre. Isso fica evidente em algumas dessas batalhas disponibilizadas nas redes. Em um desses campeonatos, por exemplo, uma candidata gritava a plenos pulmões e tentava agitar a plateia, enquanto a adversária dançava com os braços para trás.

"O principal é ser você mesmo", diz o influenciador digital Victor Gabriel Tourinho Camargo, conhecido nas redes como Uvitinho, de 23 anos. No início de julho, ele criou um campeonato de "farmar aura" em um parque municipal de Suzano, em São Paulo. "Foi o primeiro campeonato desse tipo no Estado", orgulha-se.

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Só neste mês, ele já fez duas edições em Suzano e contabiliza que os eventos reuniram, juntos, mais de 500 pessoas, entre crianças, adolescentes e pais desses jovens.

Uvitinho planeja uma terceira edição. "Já temos patrocinadores em contato e grandes criadores de conteúdo. Vai ser mais que um campeonato, vai ser um evento maior", diz.

Os primeiros vídeos desse tipo de competição foram registrados no fim de junho, em uma praça da cidade de Cametá, no Pará. No local, centenas de pessoas se reuniram para assistir ao evento. Desde então, a brincadeira se espalhou pelo país.

Esses campeonatos surgem por meio das redes sociais, onde são convocados por um ou mais influenciadores locais, que costumam falar para o público da geração Alpha - aqueles nascidos a partir de 2010.

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A influenciadora digital Haruko Mendes Barreto, de 25 anos, que acumula 46 mil seguidores no Instagram, também usou o alcance das redes sociais para promover o campeonato em São Mateus, na Zona Leste de São Paulo. Segundo ela, o evento, que ocorreu em 18 de julho, reuniu cerca de 200 pessoas.

"Tudo começou em um post de brincadeira, já que a trend estava crescendo, mas com a repercussão acabou virando realidade. Vimos como uma oportunidade de promover a experiência alinhada com a ideia de trazer diversão e destacar nossa cidade com algo positivo, trazer atenção para São Mateus", diz Haruko.

Os vencedores desses campeonatos costumam receber dinheiro. O prêmio pode ser de R$ 1 mil, como no de São Mateus, ou bem menos que isso: um campeonato de Belo Horizonte (MG) pagou R$ 20 ao primeiro colocado.

Hostilidade e proibição

Com a repercussão nas redes e vídeos que viralizaram de diferentes campeonatos, esses eventos se tornaram alvos de inúmeras críticas.

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"Logo depois que eu divulguei o primeiro evento, muita gente jogou hate, até me ameaçaram, como se fosse algo grotesco", relata Uvitinho. "Acho que o problema está no ser humano, não no campeonato", acrescenta.

"Infelizmente, o nível de ataques foi desproporcional, comparado com a ideia do evento", diz Haruko.

Os dois influenciadores afirmam que muita gente não entendeu que o intuito do campeonato é divertir crianças e adolescentes.

"A gente não tá fazendo nada de ruim, existe uma ignorância em apontar o dedo para algo tão normal e comum. Várias gerações já tiveram as suas brincadeiras. Acho que as pessoas deixam de lado as preocupações que são importantes", afirma Uvitinho.

Em Cuiabá (MT), as críticas ao evento partiram do próprio prefeito da capital mato-grossense, Abílio Brunini (PL). Um influenciador local havia convocado um campeonato em um parque da cidade, mas o gestor municipal proibiu.

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Brunini disse que não havia interesse público no evento. Ele argumentou que o parque da cidade é um lugar que "edifica a família, que fornece o crescimento dessas pessoas na prática do esporte, do lazer, e não essas coisas que vão diminuir a imagem do ser humano."

"Acredito que no futuro essas pessoas que fazem parte dessa brincadeira vão sentir muita vergonha de ter participado disso", acrescentou o prefeito, em entrevista à imprensa local. Quando questionado sobre a expressão "farmar aura", ele disse desconhecer. "Tenho nem ideia, sou hétero, cara, não sei dessas coisas", declarou.

Diante das declarações do prefeito, o organizador do evento transferiu o campeonato para o estacionamento da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Comportamento de uma geração e saúde mental

As inúmeras críticas a esses eventos surgem de uma perspectiva muito moralizante, avalia Clotilde Perez, da USP. "Há uma tensão estrutural, que está forte e deve ficar ainda mais, que é o neoconservadorismo", diz.

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Perez avalia que esses campeonatos representam um traço comum da juventude, em busca do novo, desta vez em um cenário intensamente atravessado pela tecnologia das redes. Em um paralelo com épocas mais recentes, ela menciona a busca por Pokémons pela cidade e os "rolezinhos" que grupos de adolescentes faziam em shoppings e parques públicos.

"Hoje, o 'farmar aura' tem a ver com esse jogo entre o físico, porque acontece em um espaço físico, mas com os olhos voltados para ser expandido e transbordar para as redes. É uma manifestação jovem, própria do nosso tempo, com esse atravessamento do digital", diz Perez. "Se você olhar, todo mundo quer pertencer, todo mundo quer se destacar", acrescenta.

A psicóloga Anna Lucia Spear King, especialista em dependência digital, diz que eventos como os campeonatos de "farmar aura" podem ter efeitos positivos para os jovens.

"O maior ganho é levar esses jovens, que costumam passar horas isolados no celular, para se encontrar em praças e parques públicos. A interação presencial melhora o humor, a socialização e o combate ao isolamento social. Isso ajuda a se desconectar das telas e se conectar presencialmente", diz.

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King acrescenta que esses eventos também ajudam no desenvolvimento da resiliência dos jovens, que podem levar o constrangimento em tom de piada e reverter isso em autoaceitação.

"E um dos pontos positivos principais é o sentimento de comunidade e pertencimento que adquirem quando participam de uma tendência que todos os jovens compreendem, criando uma forte sensação de identidade e inclusão com pessoas da mesma geração", diz.

Por outro lado, a psicóloga menciona que a exigência de demonstrar uma postura inabalável e confiante para o público pode causar um medo excessivo do julgamento, de cometer falhas ou de passar vergonha diante da plateia e das câmeras. "Isso pode contribuir para o surgimento de transtornos mentais, como fobia social, ansiedade, traumas por cyberbullying, entre outros", afirma.

A especialista detalha que a forma como o jovem pode reagir depende "do histórico prévio dele, da vulnerabilidade genética e do ambiente familiar e social."

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Mas as preocupações com os campeonatos de "farmar aura" não devem durar muito tempo. Especialistas avaliam que, assim como outras novidades entre jovens ao longo das últimas décadas, esses eventos também devem representar um comportamento de curta duração.

"Essas manifestações têm a natureza da efemeridade, operam na velocidade do digital. Depois surgem novas formas de expressão, pertencimento e diferenciação", afirma Perez.

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