Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Para reverter essa tendência, o governo disponibilizou a vacina Pneumo 20 (vacina pneumocócica conjugada 20-valente, VPC20) nas unidades básicas de saúde e pontos de vacinação para crianças menores de cinco anos e grupos especiais.
Entre eles, povos indígenas sem histórico de vacinação pneumocócica conjugada, idosos a partir de 60 anos acamados e/ou institucionalizados e pessoas com condições clínicas especiais atendidas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE).
A Pneumo 20 substituirá a Pneumo 10, incluída no calendário vacinal infantil em 2010. O novo imunizante amplia a proteção de 10 para 20 sorotipos da bactéria pneumococo e inclui novos sorotipos, como 3, 6A e 19A, que causam doença pneumocócica invasiva. Mais de seis milhões de doses poderão ser disponibilizadas em 2026, de acordo com o governo brasileiro. Disponível na rede privada, o custo do imunizante pode chegar a R$ 600.
A obstetra Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer Brasil, explicou quais são os benefícios da vacina e por que ela apresenta um nível maior de proteção. A executiva é especialista em ginecologia e obstetrícia, com atuação em medicina fetal, tem pós-graduação em gerenciamento de projetos pela Universidade da Califórnia, em Irvine, e está na Pfizer desde 2011.
"A PCV10, que era a vacina disponível na rede pública, não oferecia proteção contra dois sorotipos importantes do pneumococo, especialmente os sorotipos 3 e 19. Esses sorotipos estavam associados a mais de 50% das internações pela doença", lembra. O novo imunizante também amplia a proteção contra outros sorotipos prevalentes no país, como 8, 10A, 11A, 12F e 15B, aumentando a cobertura vacinal.
Quais são os grupos podem tomar a vacina na rede pública?
"É uma vacina que já estava disponível na rede privada e agora também integra a rede pública. No SUS, ela é oferecida para crianças de até 5 anos e para pacientes de risco atendidos pelos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE)", explica. Entre esses pacientes estão pessoas com imunidade comprometida, diabetes, hipertensão ou em tratamento oncológico com imunossupressão. Ao todo, mais de 20 condições dão direito à vacinação.
"Até então, o sistema público utilizava a vacina PCV10 para criança e a cobertura oferecida pela PCV10 havia caído para cerca de 3%, porque os sorotipos predominantes da bactéria mudaram ao longo do tempo", explica a executiva. "A vacina cumpriu seu papel, mas deixou de proteger contra os sorotipos que passaram a causar mais casos da doença. Com a introdução da PCV20, essa proteção sobe para cerca de 77%, representando um avanço significativo para a saúde pública."
Vigilância epidemiológica global
O laboratório tem acesso a uma vigilância epidemiológica global de vírus e bactérias para antecipar tendências e preparar futuros imunizantes. "À medida que a circulação dos sorotipos muda, novas variantes podem emergir e ganhar relevância epidemiológica. É fundamental manter vigilância constante e estar preparado para desenvolver e incorporar novas vacinas que ampliem a proteção da população contra os sorotipos mais prevalentes."
Essa metodologia faz com que o imunizante seja eficaz em diferentes continentes. A vacina, explica Adriana Ribeiro, é conjugada e protege contra vários tipos de pneumococo ao mesmo tempo. "Em termos simples, é como se houvesse 20 'minivacinas' dentro de uma única vacina. Ela utiliza a tecnologia de vacina conjugada conhecida pela comunidade científica", detalha a diretora médica do laboratório.
Segundo a executiva, essa tecnologia é utilizada pela Pfizer há muitos anos nas vacinas pneumocócicas e tem um histórico consolidado de segurança e eficácia. No caso da PCV20 e de suas versões anteriores, os açúcares da cápsula dos 20 sorotipos do pneumococo são ligados a uma proteína chamada CRM197, uma versão inativada da toxina da difteria. Essa proteína ativa o sistema imunológico e ajuda o organismo a reconhecer melhor os sorotipos, gerando proteção.
Adesão da população
Nos últimos anos, a adesão vacinal voltou a crescer no Brasil e, após um período de queda, desde 2022 há uma recuperação das coberturas vacinais infantis, segundo dados do Ministério da Saúde.
Para a diretora da Pfizer, a disseminação da desinformação contribuiu para esse cenário. Apresentadas com aparência de conteúdo científico, muitas notícias confundem o público. Embora pareçam baseadas em evidências, transmitem informações "falsas ou distorcidas", ressalta.
Esse fenômeno, lembra ela, não é exclusivo do Brasil. O crescimento da desinformação relacionada à saúde e às vacinas, diz, tem sido observado em diversos países e representa um desafio global para as estratégias de imunização e para a confiança da população nas vacinas. "É importante destacar que, para uma vacina ser incorporada ao mercado brasileiro, ela precisa passar por todas as etapas de desenvolvimento clínico e obter aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)", diz Adriana.
A agência, reitera, é reconhecida pelo rigor de seus critérios regulatórios, o que garante que apenas vacinas com segurança e eficácia comprovadas sejam disponibilizadas à população. Esse processo contribuiu para a recuperação das coberturas vacinais observada nos últimos anos. No caso da vacina pneumocócica, por exemplo, o país já possui uma tradição consolidada de vacinação, o que favorece altas taxas de adesão.
"Ao mesmo tempo, é fundamental que a população não apenas mantenha o calendário vacinal em dia, mas também esteja atenta às vacinas que exigem reforços ou revacinação ao longo da vida. É o caso, por exemplo, da vacina contra o tétano e de imunizantes recomendados em fases específicas, como a gestação."
Em diferentes momentos da vida, é importante verificar a situação vacinal e atualizar a proteção quando necessário. A ampliação da cobertura depende tanto do acesso às vacinas quanto da oferta de informações confiáveis. Por isso, o combate à desinformação continua sendo um trabalho essencial e coletivo para fortalecer a confiança da população na vacinação.