[Coluna] Por trás das notas do Enem: corretores sem reajuste há uma década

22 jan 2026 - 09h11

Preço da negligência recai, mais uma vez, sobre os estudantes. Não há avaliação justa sem corretores valorizados, bem formados e respeitados.Na sexta-feira passada (16/01) foram liberadas as notas do Enem 2025. A nota na redação é a que os estudantes esperam mais ansiosamente e acaba sendo, em muitos casos, o que garante a aprovação no curso e nas universidades dos sonhos.

Logo após a liberação, candidatos de todo o Brasil se queixavam sobre suas notas na redação, pois estavam abaixo do que costumavam tirar enquanto treinavam.

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Em um exame como o Enem, com 4,8 milhões de candidatos na última edição, é natural que nem todos saiam felizes com a nota. No entanto, a frustração parecia generalizada e indicativa de que algo merecia atenção.

Não coincidentemente, foi um ano de bastante descontentamento por parte dos corretores oficiais do Enem, em relação à Cebraspe, a atual banca que organiza o exame no Brasil.

Erros graves da banca

Para avançarmos na discussão, precisamos entender os bastidores de um corretor oficial, da candidatura à correção. De modo geral, o candidato se inscreve em julho. Passa por um treinamento formativo de três meses, online e de caráter classificatório e, se aprovado, por um treinamento presencial que ocorre após o exame e logo antes de iniciar as correções.

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Há algumas semanas, Henrique Araújo, professor de redação e mentor da maior comunidade de corretores do Brasil, publicou em suas redes sociais uma carta aberta a Camilo Santana, atual ministro da Educação , com a intenção de ser um porta-voz dos corretores e expor erros da banca.

Segundo ele, "os maiores erros têm a ver com a falta de didática. Um treinamento muito longo, burocrático, mas que não capacita de verdade. As questões são muito fáceis, e os textos não são redações autênticas. O Cebraspe ensina minimamente a ligar o carro e o corretor precisa dirigir em alta velocidade na estrada."

Para ele, o mais grave é que "há uma falha de comunicação gigantesca e o próprio material se contradiz. No treinamento presencial não há material denso e completo, pois isso ocorre durante o treinamento online. Teve um conteúdo no material oferecido no treinamento formativo online, e basicamente no treinamento presencial chegam e dizem: 'Olha, o que está no material não vale mais. Vale o que irei passar agora no quadro e essa folha que estão recebendo agora'. Aí começa uma bagunça. O treinamento presencial seria só para arrematar o tema e não dar novas diretrizes. Além disso, ele é um grande telefone sem fio, pois há claras discrepâncias entre os estados e regiões."

Corretor desvalorizado e invisível

Organizar o maior vestibular do Brasil envolve uma complexidade absurda. Nesse contexto, a banca organizadora precisa estar preparada para lidar com todos os desafios e não parece ter sido o caso da Cebraspe. Mudar as diretrizes de formação durante uma edição, descartando instruções do treinamento formativo durante o treinamento presencial, impacta diretamente a formação dos corretores, o que, por sua vez, impacta as notas dos estudantes. É um erro gravíssimo.

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Além disso, já faz 10 anos que não há qualquer tipo de reajuste da remuneração do corretor. Por correção padrão, ainda recebem os mesmos R$ 3. Esse problema orçamentário não é de responsabilidade principal da banca, mas sim do MEC e do INEP.

A desvalorização docente no Brasil é tão profunda que alcança até os corretores do Enem.

Por trás das notas do Enem, o maior vestibular do Brasil, há corretores sem reajuste há uma década. O preço dessa negligência recai, mais uma vez, sobre os estudantes. Não existe avaliação justa sem corretores valorizados, bem formados e respeitados.

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Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.

Este texto foi escrito por Vinícius De Andrade e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

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