RJ: militares são condenados por mortes de músico e catador

Evaldo Rosa e Luciano Macedo morreram em ação do Exército em que foram efetuados mais de 200 disparos, em abril de 2019

14 out 2021 - 06h38
(atualizado às 07h07)
O carro de Evaldo baleado após a ação militar em Guadalupe, na Zona Norte do Rio
O carro de Evaldo baleado após a ação militar em Guadalupe, na Zona Norte do Rio
Foto: DW / Deutsche Welle

A Justiça Militar condenou na madrugada desta quinta-feira, 14, oito militares pelas mortes do músico Evaldo dos Santos Rosa e do catador de material reciclável Luciano Macedo, fuzilados em ação do Exército no Rio de Janeiro em 7 de abril de 2019.

Mais de dois anos e meio depois das mortes e após 15 horas de julgamento, o tenente Ítalo da Silva Nunes, que comandava a ação, recebeu uma pena de 31 anos e 6 meses de prisão por duplo homicídio e tentativa de homicídio de Sérgio de Araújo, sogro do músico.

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Os outros sete militares condenados, que também efetuaram disparos na ação, realizada em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, receberam penas de 28 anos de prisão. São eles: sargento Fábio Henrique Souza Braz da Silva, cabo Leonardo Oliveira de Souza, soldado Gabriel Christian Honorato, soldado Matheus Sant'Anna, soldado Marlon Conceição da Silva, soldado João Lucas da Costa Gonçalo e soldado Gabriel da Silva de Barros Lins.

Nunes recebeu a maior pena por, além de comandar o grupo, ter sido o primeiro a disparar e ter atirado o maior número de vezes: 77. Quatro outros militares que haviam sido acusado foram absolvidos por não ter sido provado que efetuaram disparos na ocasião.

O crime

Evaldo dos Santos Rosa ia com a família para um chá de bebê naquele domingo de abril quando o veículo em que eles estavam foi atingido por 83 do total de mais de 200 disparos. Cinco pessoas, incluindo uma criança, estavam no carro, que o Exército alegou inicialmente ter furado um bloqueio.

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Luciano Macedo foi baleado com gravidade quando tentava ajudar Evaldo e os familiares. Os militares também atingiram o sogro de Evaldo, Sérgio Araújo, que foi ferido nas costas.

Evaldo morreu no local após ser atingido com nove tiros de fuzil, e Luciano, depois de passar 11 dias internado em decorrência dos tiros que levou no braço e nas costas. Peritos militares encontraram 37 marcas de tiros em muros, paredes e carros nos arredores do local da operação.

Segundo o Ministério Público, disparos foram efetuados em dois momentos. Primeiro, os militares miraram assaltantes que roubavam um Honda City branco e fugiram. Dois dos tiros efetuados contra eles acabaram atingindo o veículo em que Evaldo e a família estavam, um Ford Ka branco, baleando o músico e obrigando seu sogro, que estava sentado ao seu lado, a assumir a direção.

O carro parou, e a esposa de Evaldo, o filho de 7 anos e uma amiga da família desceram para pedir ajuda. Foi então que Luciano foi socorrê-los. Segundo a denúncia, por suporem que se tratava dos assaltantes do outro veículo, os militares efetuaram então mais ao menos 82 disparos, e 62 deles atingiram o carro de Evaldo.

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A defesa alegou que o músico morreu ao ser baleado no primeiro momento, quando os militares teriam agido em legítima defesa do dono do carro roubado. Isso, no entanto, não foi comprovado.

"Recado para a sociedade"

Durante o julgamento nesta quarta, a viúva de Evaldo, Luciana Nogueira, passou mal quando viu os militares acusados entrarem na sala.

"Eles não têm noção de como estão trazendo uma paz para a minha alma. Eu sei que não vai trazer o meu esposo de volta, mas não seria justo eu sair daqui sem uma resposta positiva", disse Luciana após o julgamento, citada pela Folha de S.Paulo.

"Hoje vou conseguir dormir. Vou olhar para o meu filho, que vai crescer sem ver o pai, e vou dizer que era um homem de bem. É um recado que o tribunal manda para a sociedade. Esse crime não ficará impune", diss ainda, segundo o jornal O Globo.

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Os dois lados ainda poderão recorrer ao Superior Tribunal Militar (STM).

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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