No carnaval de SP, bloco em Pinheiros ironiza tarifaço de Trump e destaca soberania nacional

'Bastardo' teve fantasias provocando presidente dos EUA; desfile parou para aula de dança em parceria com academia local

15 fev 2026 - 15h09
(atualizado às 18h40)

O bloco Bastardo desfilou por Pinheiros, zona oeste de São Paulo, em seu 13º Carnaval neste domingo, 15. O grupo, que toca marchinhas próprias e clássicas, como Aurora e Mamãe Eu Quero, além de frevos e sambas, já havia saído no sábado, 15, e voltará às ruas na terça-feira, 17.

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Em 2026, o tema é "soberania nacional", sobre o orgulho de ser brasileiro e preservar a autonomia do Brasil. O bloco saiu da rua João Moura e passou pela Fradique Coutinho, rua dos Pinheiros, Henrique Schaumann e Artur Azevedo. A estimativa de público é de pelo menos 10 mil pessoas para cada um dos três dias.

Nesse ano, a marchinha tema buscou reforçar elementos brasileiros e latino-americanos, de cinema, vestuário, comida e bebida - e até o Zé Gotinha, símbolo das campanhas de vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS). "Não me vendo, não te importo/sangue quente, sou real/minha pátria, nossa pinga vem/provar meu carnaval", diz um trecho.

Valentina Bucolieiro, de 26 anos, encarnou o Zé Gotinha no carnaval em Pinheiros
Valentina Bucolieiro, de 26 anos, encarnou o Zé Gotinha no carnaval em Pinheiros
Foto: Luís Filipe Santos/Estadão / Estadão

"Salve o mestre, o mascarado/chama tudo que é bastardo/minha penca de banana/mete taxa nos bacana", afirma outra parte da marchinha, que faz alusão ao momento geopolítico global, de tensões entre países e de instabilidade causada pelo presidente americano Donald Trump - que no último ano impôs altas tarifas a uma série de nações, incluindo o Brasil. Segundo os organizadores, o bloco sempre reage ao contexto sociocultural.

O bloco foi marcado por fantasias com referências ao Brasil, desde caipirinha, Zé Gotinha e Carmen Miranda à música "Minha Pequena Eva" e xingamentos a Trump. Também apareceram referências mais recentes, como uma mulher de Erechim (RS) que foi ao aeroporto da cidade esperar um suposto namorado - o ator americano Brad Pitt.

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Maritza Queiroz, de 35 anos, e Raissa Azevedo, de 32, brincaram com a senhora de Erechim que foi buscar o Brad Pitt no Aeroporto de Erechim (RS)
Foto: Luis Filipe Santos/Estadão / Estadão

Fernanda Torres continuou em alta, com duplas referenciando as personagens Fátima e Sueli, da série Tapas e Beijos. Wagner Moura foi lembrado com réplicas do Oscar. O brasileiro está indicado ao prêmio de melhor ator por seu papel no filme O Agente Secreto, que concorre em outras três categorias.

O bloco teve um momento para aula de dança, em parceria com uma academia do bairro, que concedeu uma aula gratuita para os foliões com músicas de Ivete Sangalo e MC Melody.

Lori Buena, de 24 anos, se fantasiou de Carmen Miranda
Foto: Luís Filipe Santos/Estadão / Estadão

Política

Se Trump foi ofendido diretamente e indiretamente, também não faltaram referências à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, em letras de marchinhas. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, foi criticado pelas confusões no carnaval ocorridas desde o último fim de semana.

A presidente do bloco, Ana Luiza Borges, avaliou que a atual gestão não valoriza o carnaval como um ativo cultural. "Carnaval é uma manifestação popular livre, mas está sendo cerceado tanto por esse modelo de gestão que entende o carnaval como um evento e não como uma manifestação cultural, quanto com as articulações e negociatas", afirma.

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Em 2026, o tema é 'soberania nacional', sobre o orgulho de ser brasileiro e preservar a autonomia do Brasil
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

Segundo a cientista social, a prefeitura pouco ouviu quem trabalha para organizar os blocos. "Se a prefeitura soubesse trabalhar o carnaval como um ativo, seria muito melhor, porque sentaria, conversaria, faria essa política de acordo com as demandas dos blocos. É possível fazer, já foi feito antes", diz.

Histórico

Conforme o relato de Borges, o bloco contou com a experiência de carnavais anteriores para superar algumas dificuldades financeiras neste ano.

"Somos um bloco independente, não temos um financiamento externo constante. A gente sempre tem que buscar esses financiamentos, e esse ano não conseguimos o fomento da prefeitura", conta a organizadora, que também é cientista social e sócia da empresa consultoria Tomara Educação e Cultura.

O Bastardo surgiu em 2013, como uma 'jovem guarda' do Vai Quem Qué, outro bloco tradicional de Pinheiros, que existe desde 198
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

A solução foi buscar outras fontes de receita, como fazer shows, vender bonés e iniciar campanhas de arrecadação por meio de internet. O Bastardo conseguiu entrar num edital de financiamento da Ambev e teve o patrocínio da academia que forneceu a aula de dança.

"Esse tipo de parceria nos deixa muito contentes. Gostamos porque reforça esse aspecto comunitário do bloco, como movimento cultural do bairro em que os comerciantes, as pessoas que estão no trajeto, no entorno do bloco, contribuem na perspectiva de também se beneficiarem dessa manifestação", avalia Borges.

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O Bastardo surgiu em 2013, como uma "jovem guarda" do Vai Quem Qué, outro bloco tradicional de Pinheiros, que existe desde 1981. De acordo com a presidente do bloco, a intenção na criação era de ser mais inovador e acolher mais pessoas, após um crescimento "desordenado" do Vai Quem Qué que incomodou quem já estava nele há décadas.

Com isso, uma ala mais jovem se dividiu do Vai Quem Qué e fundou o Bastardo, que foi às ruas pela primeira vez em 2014. O nome "Bastardo" se dá pela ideia de que a "rua é a mãe de todos, e o pai é desconhecido". Além das marchinhas novas compostas para cada ano, o bloco também tem um hino fixo.

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