Uma das maiores autoridades mundiais em mudanças climáticas, o climatologista Carlos Nobre faz um alerta contundente sobre a iminência de um El Niño "muito forte" e seus possíveis impactos globais e locais.
Abordando desde o recente aumento dos eventos extremos — como vendavais no Sudeste e secas históricas na Amazônia — até a falta de políticas públicas voltadas à proteção de populações vulneráveis durante ondas de calor, Nobre classifica a postura de políticos negacionistas como "uma ignorância inacreditável" a esta altura da crise ambiental.
Nesta entrevista, o climatologista relacionou o aumento de eventos climáticos extremos em São Paulo ao fenômeno das "ilhas urbanas de calor", que elevam as temperaturas da cidade e podem estar relacionadas ao vendaval da última quarta-feira.
Leia os principais trechos:
Teremos mesmo um super El Niño?
A gente não chama de super El Niño. Cientificamente o termo correto é El Niño muito forte. As categorias que usamos para classificar o El Niño são fraco, moderado, forte e muito forte. A tendência para este ano é que seja muito forte.
O que isso significa exatamente?
Essa classificação da força do El Niño é feita a partir da temperatura média das águas no Pacífico Equatorial. Quando a temperatura chega a 1,5ºC, 2ºC acima da média, o fenômeno é classificado como forte. Passando dos 2ºC já é muito forte. Com isso, ele tem efeito global muito maior, inclusive na América do Sul e no Brasil.
Nas últimas décadas, quando tivemos um El Niño dessa magnitude?
Em 1992/1993 e também em 2015/2016. O El Niño de 2023/2024 foi, na maior parte do tempo, moderado, mas causou ainda maiores impactos que os anteriores, com chuvas muito intensas no sul do País e uma das maiores secas na Amazônia. O que ocorre é que, com o aquecimento global, todos os fenômenos climáticos tendem a ficar mais intensos. E neste último El Niño, embora ele tenha sido moderado, tivemos um aquecimento acima da média das águas do Atlântico norte e sul. E foi essa combinação que acabou criando impactos importantes.
E este ano temos aquecimento do Atlântico?
Ainda não tanto quanto tivemos em 2023/2024. Na verdade, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram um Atlântico mais quente na costa do Nordeste, o que é uma boa notícia. O oceano mais quente na costa do Nordeste vai provocar mais chuva na região, amenizando a seca. Vamos torcer para que isso aconteça.
O aumento das temperaturas do Atlântico está relacionado ao aquecimento global?
O aquecimento das águas do Atlântico está totalmente ligado ao aquecimento global. A última vez que os oceanos estiveram tão quentes foi há 130, 120 milhões de anos, durante o último período interglacial.
A onda de calor na Europa está relacionada a este El Niño?
Olha, o El Niño tradicionalmente não influencia muito o clima na Europa. Ele pega mais o sul da Ásia, Índia, Austrália, Indonésia, América do Sul, sul dos Estados Unidos. Mas ainda temos que esperar os dados científicos para analisar se esta onda de calor tem a ver com o El Niño. Inicialmente, tivemos um sistema de alta pressão em cima do norte da África que acabou se estendendo e pegando grande parte da Europa. Os sistemas de alta pressão não permitem a formação de nuvens, então a insolação é maior.
E o que podemos dizer sobre o vendaval desta semana no Rio e em São Paulo?
O vendaval em si é um tipo de fenômeno muito comum, sempre existiu. Ocorre quando temos uma frente fria subindo no Sul, no norte de Santa Catarina e parte do Paraná, que costuma gerar rajadas de vento. No inverno, tradicionalmente as rajadas não são tão fortes. A questão é: por que o vento foi tão forte? Em São Paulo chegou a 124km/h. Bom, sabemos que o Atlântico está mais quente, estamos estudando essa relação.
Temos visto muitos eventos extremos em São Paulo...
Sim, verdade, os eventos extremos estão aumentando muito em São Paulo e, em menor medida, também no Rio. São fenômenos que sempre existiram, como frentes frias, ciclones extratropicais, rajadas de vento, mas que estão batendo recordes nas grandes cidades. O que acontece nessas grandes cidades é o que chamamos de ilha urbana de calor. Em São Paulo, de 70% a 75% da cidade não tem vegetação. Isso faz com que o clima fique muito quente. No verão, por exemplo, as temperaturas ficam de 6 a 11 graus mais altas nessas circunstâncias. A maior parte dessas áreas está dentro das comunidades. No Rio, isso também acontece, mas a cidade tem mais Mata Atlântica. Mas o fato é que essas ilhas urbanas de calor levam mais energia para a atmosfera, fazem o ar subir rápido, formando nuvens do tipo cumulonimbus e gerando chuvas fortes e vendavais.
Quando começaremos a sentir efeitos do El Niño muito forte por aqui?
Já estamos sentindo. Já está demonstrado que as chuvas dos últimos dias no sul estão relacionadas ao fenômeno. Podemos esperar também uma seca muito forte na Amazônia. No Sudeste e no Centro-Oeste podemos esperar ondas de calor e pancadas de chuva. Não chuvas por vários dias e semanas seguidos como no sul, mas pancadas fortes. No El Niño de 2023/2024 tivemos muitas ondas de calor. De setembro a janeiro, as temperaturas máximas devem chegar facilmente a 40ºC no Rio e ultrapassar os 35ºC em São Paulo.
Como o senhor avalia a preparação do País para enfrentar um El Niño muito forte? Estamos preparados? Quais os principais riscos?
Essa é a primeira vez que vejo governos estaduais e municipais, com apoio do governo federal, se preparando para um El Niño. Acho que estamos nos preparando bem melhor do que das outras vezes. Nesta última chuva no Sul, salvo engano, não tivemos nenhuma morte. Isso porque as prefeituras e as Defesas Civis atuaram preventivamente, retirando milhares de pessoas das áreas mais vulneráveis. Isso é uma boa notícia. Em 2023/2024 isso só aconteceu depois que a tragédia já estava estabelecida e acabou deixando 184 mortes. No caso da Amazônia, o governo federal já contratou um grande número de brigadistas, investiu bilhões de reais para combater incêndios florestais. Essa é uma política importante porque a poluição do ar causada pelos incêndios é péssima para a saúde. Vamos ver se vai funcionar. Em 2023/2024, o impacto das queimadas (e da poluição) chegou ao Sudeste. São Paulo ficou no escuro às 16h. No ano passado, conseguiram reduzir muito o número de incêndios na Amazônia em relação ao ano anterior, mas era um ano de La Niña.
E sobre as ondas de calor?
Não vi ainda políticas para proteger as populações vulneráveis das ondas de calor, que é o que mais leva à morte em qualquer evento climático extremo. No mundo inteiro, nos últimos anos, temos registrado quase 500 mil mortes por ano relacionadas ao calor, cerca de 14 mil delas no Brasil. O calor afeta principalmente idosos, pessoas doentes e crianças pequenas. No Brasil, a maior parte das residências não tem ar-condicionado. Quando temos sete, oito, dez dias seguidos de temperaturas máximas perto dos 40ºC e, o pior, mínimas que não baixam dos 27ºC, isso é péssimo para a saúde dos idosos. Quando a temperatura mínima é alta assim, o corpo perde pouco calor durante a noite. Eu posso estar enganado, mas ainda não vi nenhuma política governamental para isso. Mas é difícil porque são milhões de brasileiros nessa condição.
O senhor acha que, de alguma forma, os eventos extremos recentes estão deixando as autoridades mais conscientes do problema do aquecimento global?
Sim, em muitos níveis de governo. Estou vendo, pela primeira vez, muitos governos preocupados, independentemente da ideologia política. Isso é uma excelente notícia: que o risco das emergências climáticas não tenha mais lado político. No Sul, muitos prefeitos ligados à extrema-direita tradicionalmente negacionista estão tomando providências, por exemplo. Vamos ver se na Amazônia será assim também. É inaceitável termos políticos negacionistas, que dizem não acreditar nas mudanças climáticas, a essas alturas. É de uma ignorância inacreditável.
Do ponto de vista econômico, qual o setor mais prejudicado?
Economicamente, o agronegócio é o mais prejudicado. Mas a maior parte não concorda com a meta de zerar o desmatamento; ao contrário, quer continuar expandindo.
Mas o agro é o setor mais impactado pelas mudanças climáticas.... Não é um contrassenso?
Total contrassenso. Em 2023/2024, nós, da ciência, alertamos com antecedência para o fato de que haveria uma seca muito forte na Amazônia. Mas o agronegócio nos ignorou. Quando tiveram a pior safra de soja dos últimos anos foram ao Congresso tentar aprovar uma lei para serem indenizados pelas perdas.