As equipes brasileiras que atuam nas buscas na Venezuela

3 jul 2026 - 06h21

País enviou mais de 100 profissionais para ajudar nos resgates de vítimas dos terremotos, além de montar um hospital de campanha para atender a população local."O cenário era de muita destruição, com muitas pessoas perambulando pelas ruas, paradas em frente ao que sobrou de suas casas ou fazendo buscas por conta própria." Essas foram as primeiras cenas que o comandante da Força de Resposta Imediata a Desastres Naturais (FRIDA), capitão de Mar e Guerra, Leonel Mariano se deparou ao chegar à cidade de La Guaira, na Venezuela, três dias após os terremotos que devastaram parte do país.

Equipes brasileiras estão em La Guaira, o estado mais devastado pelos terremotos
Equipes brasileiras estão em La Guaira, o estado mais devastado pelos terremotos
Foto: DW / Deutsche Welle

O fuzileiro naval é um dos 150 brasileiros que foram encaminhados pelo governo federal ao país vizinho para ajudar nos resgates às vítimas dos terremotos. Desde o final da última semana, os profissionais brasileiros atuam em conjunto com equipes internacionais na definição das áreas prioritárias de busca e no atendimento às vítimas.

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Entre os profissionais encaminhados ao país vizinho estão bombeiros, fuzileiros navais, profissionais de saúde, engenheiros estruturais da Defesa Civil e técnicos da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que ajudam a localizar sinais de celulares de possíveis vítimas sob os escombros. A missão conta ainda com cães de busca.

Na bagagem, os brasileiros levaram equipamentos para resgate em estruturas colapsadas, recursos médicos, mantimentos, abrigo para as equipes e para montar um hospital de campanha e geradores solares. Além da experiência acumulada na atuação em diversas tragédias ocorridas nas últimas décadas.

Como estão as buscas

Apesar de as primeiras horas após um desastre dessa magnitude serem cruciais para encontrar sobreviventes, a busca sob os escombros ainda é o ponto principal dos trabalhos realizados na Venezuela. Nesta quinta-feira (02/07), socorristas venezuelanos conseguiram resgatar um homem preso havia oito dias sob escombros de um shopping em La Guaira, no estado mais devastado pela tragédia.

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Bombeiros brasileiros e profissionais da Defesa Civil estão atuando diretamente nessa frente. As equipes trabalham no reconhecimento das edificações atingidas, avaliam a estabilidade das estruturas e empregam cães de busca e equipamentos especializados para localizar e sinalizar possíveis vítimas sob os escombros.

Conforme a atualização divulgada pela corporação, dois homens e quatro mulheres foram encontrados sem vida nos escombros pelas equipes brasileiras. Na madrugada desta quinta-feira, cães farejadores indicaram a presença de sobreviventes num edifício colapsado pelo terremoto. Os brasileiros passaram a noite toda tentando localizar a possível vítima.

"A operação já se aproxima de 24 horas contínuas de trabalho, exigindo precisão, resistência física e extrema cautela. Em cenários de colapso estrutural, cada movimentação dos escombros é realizada de forma controlada para evitar novos desabamentos e preservar eventuais bolsões de sobrevivência", publicou a agência de notícias do Governo do Estado de São Paulo.

As buscas contam ainda com um aliado tecnológico: a triangulação de dados digitais. A destruição das redes de energia e das torres de telefonia celular locais deixou milhares de sobreviventes incomunicáveis.

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Para atenuar esse apagão de informações, a missão brasileira incluiu técnicos da Anatel. Eles utilizam estações móveis de satélite e equipamentos de varredura de radiofrequência para tentar captar sinais de aparelhos celulares que ainda estejam ligados sob a terra.

A partir da detecção desses sinais, os técnicos conseguem indicar áreas com maior probabilidade de vítimas, contribuindo para orientar os esforços das equipes de busca.

Atendimento à população

Além do trabalho de buscas de sobreviventes, o Brasil instalou em La Guaira um hospital de campanha, o primeiro disponibilizado por um país estrangeiro no local da tragédia. A estrutura foi montada pela Marinha que também é quem comanda os atendimentos.

"Quando ocorreram os terremotos, a equipe estava em um treinamento contra desastres em Minas Gerais e em menos de 24 horas já estávamos com tudo pronto para embarcar. Ao chegarmos, logo buscamos um local para montar toda a estrutura e na manhã seguinte já estávamos atendendo", recorda Mariano.

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A estrutura montada conta com seis leitos de internação por até 48 horas, dois de terapia intensiva e dois de curta permanência. O atendimento acontece todos os dias das 7h às 18h, com equipe de plantão 24 horas para casos de emergência.

O hospital tem ainda equipamento de anestesia, monitores de frequência e pressão arterial, respiradores, bombas de infusão e ultrassom portátil. Além de uma farmácia com diversos tipos de medicamentos enviados pelo Ministério da Saúde.

Segundo a Marinha, foram realizados dezenas de atendimentos desde o início de seu funcionamento, dia 29 de junho. Os casos envolvem, principalmente, pequenos traumas e escoriações, infecções e doenças crônicas preexistentes que demandam medicação contínua.

"Atendemos muitas pessoas com infecção de pele, com desidratação e com imobilizações que precisam ser refeitas. Agora, começaram a chegar pacientes com diarreia, já que a situação está bastante precária. As pessoas estão sem água encanada, muitas não tomam banho há dias, as ruas estão sujas e isso vai fazendo com que as doenças começam a surgir", detalha a capitão de Mar e Guerra Marisa Martins, diretora da Unidade Médica Expedicionária da Marinha (UMEM), que comanda a equipe de saúde brasileira no hospital de campanha.

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Ainda segundo os profissionais da Marinha, os desafios vão mudando com o passar dos dias e não há uma previsão de quantas pessoas ainda buscarão atendimento médico. A tendência é que doenças infecciosas aumentem nas próximas semanas.

"A destruição e a presença de corpos sob escombros fazem com que haja proliferação de diversos vetores, como ratos, mosquito da dengue, entre outros, e isso vai contribuir para o aumento de casos de doenças", diz Martins. "É uma situação muito crítica que o povo da Venezuela está enfrentando, e eles precisam de muita ajuda, que vai desde água, alimentos e infraestrutura. É triste ver que bairros inteiros desapareceram."

A força-tarefa brasileira na Venezuela tem um planejamento inicial de atuação de 15 a 30 dias, podendo ser prorrogado por tempo indeterminado. "Caso haja necessidade, podemos ficar na Venezuela por quanto tempo eles precisarem. Temos estrutura de pessoal para fazer revezamento, caso seja necessário", diz Mariano.

A bagagem técnica do Brasil

O Brasil não possui um histórico expressivo de terremotos em seu território, mas se transformou em uma referência em busca e salvamento urbano. Esse paradoxo se explica por um investimento contínuo em treinamento para enfrentar desastres naturais como enchentes e desabamentos de encostas e pela memória institucional de missões passadas.

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Em 2010, o terremoto que devastou o Haiti deixou mais de 220 mil mortos. Naquela ocasião, o Brasil liderava a missão de paz da ONU no país e precisou estruturar, às pressas e sob escombros generalizados, uma operação de socorro complexa. Vinte e um brasileiros, entre eles 18 soldados do exército que atuavam na missão de paz, morreram.

No mesmo ano, a Marinha também atuou com hospital de campanha no atendimento às vítimas do terremoto no Chile. Na ocasião, 48 militares realizaram mais de 13 mil atendimentos. Além disso, o rompimento da barragem em Brumadinho, em 2019, exigiu operações complexas em ambiente altamente instável e as equipes brasileiras uniram esforços para atuar na região.

As equipes também trabalharam no atendimento à população atingida por temporais na Região Serrana do Rio de Janeiro: em 2011, no município de Nova Friburgo, e, em 2022, na cidade de Petrópolis. Em fevereiro de 2023, os deslizamentos em São Sebastião, no litoral paulista, fizeram com que as equipes fossem deslocadas para lá para ajudar nas buscas e atendimentos à população.

Mais recentemente, estruturas semelhantes foram instaladas para atender as vítimas das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul.

"Apesar de serem diferentes, os desastres têm algumas características muito semelhantes. Busca por vítimas, famílias desabrigadas que precisam de acolhimento e a possível proliferação de doenças caso esse local não seja rapidamente organizado", explica o capitão Maxwel Souza, porta-voz da Defesa Civil de São Paulo. "Nossa experiência na gestão dessas tragédias é muito útil em ocorrências como essa da Venezuela."

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