Mesmo após dias de controvérsia - nos quais Donald Trump criticou a escolha da atração principal dizendo que não compareceria ao evento, e de um show alternativo "totalmente americano" organizado em paralelo -, a performance do rapper porto-riquenho Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, a grande final do campeonato nacional de futebol americano nos EUA, domingo passado em Santa Clara, na Califórnia, entrou para a história. Não só do esporte, mas da política norte-americana, podendo ter reflexos inclusive no resultado das eleições de meio de mandato no país, marcadas para novembro de 2026, que redefinirão a composição do Congresso e elegerão novos governadores.
No dia do jogo, as altas expectativas se refletiram no volume de telespectadores que sintonizaram suas TVs, computadores e celulares na transmissão de um dos eventos esportivos mais populares e valiosos do mundo. No intervalo mais caro do planeta, o show de Bad Bunny ultrapassou 135,4 milhões de visualizações ao vivo, superando os 133,5 milhões de Kendrick Lamar em 2025; e os 133,4 milhões de Michael Jackson em 1993.
A cobertura da mídia descreveu o show como uma celebração da diversidade, alimentando uma reação negativa dos apoiadores de Donald Trump e comentaristas conservadores. As críticas visaram Bad Bunny não apenas por sua oposição declarada ao governo Trump, mas também pelas alegações de que ele "não era um artista americano" - ignorando o status de Porto Rico como território dos EUA.
Em suas redes sociais, o presidente Donald Trump passou o recibo: "Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo, e a dança é repugnante", disse ele em suas redes sociais. "Esse show é um tapa na cara do nosso país", continuou.
A reação de Trump não surtiu muito efeito. No fim das contas, a apresentação de Bad Bunny foi amplamente elogiada e absolutamente redentora para o espírito abalado da população latina que vive nos EUA, legal ou ilegalmente, neste momento de repressão desmedida, violenta e muitas vezes inconstitucional promovidas pelo governo federal contra imigrantes e minorias étnicas no país. E demonstrou como a autenticidade pode ser produzida por meio do ativismo anticolonial.
Embora a autenticidade seja frequentemente considerada algo real, verdadeiro ou genuíno, ela é definida por uma qualidade relacional que pode emergir através do comportamento de uma pessoa de três maneiras distintas: conexões com pessoas ou lugares; conformidade ou ruptura com as convenções vigentes; e a consistência entre a mensagem transmitida e a ação proposta.
Analisamos como Bad Bunny demonstrou todas estas três formas de autenticidade no Super Bowl do último domingo, dia 8 de janeiro de 2025.
1. Autenticidade como conexão
Isso ficou evidente com a presença da cana-de-açúcar no palco: uma cultura que moldou as economias coloniais do Caribe e América Latina. As plantações eram propriedade dos colonizadores e sustentadas pela exploração violenta dos povos indígenas e dos africanos escravizados transatlânticos. Ao destacar a cana-de-açúcar, a apresentação expôs as bases da riqueza colonial e recuperou um símbolo de opressão como verdade histórica, em vez de memória romantizada.
A presença do ícone porto-riquenho Ricky Martin reforçou esse senso de conexão quando ele cantou Lo Que Le Pasó a Hawaii, de Bad Bunny. Através de sua letra, esta música adverte os porto-riquenhos contra a renúncia da sua identidade cultural em meio à pressão para assimilarem a influência dos Estados Unidos. A performance de Martin ressaltou a mensagem, destacando a preservação da cultura original de um povo como uma forma essencial de resistência anticolonial.
Logo depois, Lady Gaga acrescentou uma poderosa camada de simbolismo à apresentação. Seu vestido azul claro fazia referência ao desenho original de 1895 da bandeira porto-riquenha, antes de ter sua tonalidade escurecida para se alinhar com as cores da bandeira dos Estados Unidos. Ela a adornou com um hibisco vermelho, um emblema nacional de orgulho e resistência, ao lado de flores brancas. Juntos, esses elementos ecoaram as cores da real bandeira porto-riquenha. Dessa maneira, Gaga incorporou respeito, participação e solidariedade, no lugar de segregação ou apagamento.
2. Autenticidade como conformidade
Os artistas muitas vezes se conformam e quebram regras simultaneamente, e Bad Bunny dominou essa tensão. Como um artista porto-riquenho em ascensão em uma indústria que frequentemente pressiona os artistas a abandonarem suas raízes, ele criou um espaço cultural híbrido: um show no intervalo do evento mais americano que existe, o Super Bowl, cantado em espanhol. Ele operou dentro do sistema enquanto rompia com as suposições e expectativas de que o inglês deve dominar o espetáculo, e que os ícones da cultura pop devem se encaixar em um molde cultural restrito.
Bad Bunny rompeu ainda mais com a narrativa dominante nos EUA, que reduz a "América" aos Estados Unidos, reconhecendo, em vez disso, toda a geografia dos três continentes chamados América. Depois de declarar "Deus abençoe a América", ele passou a listar todos os países das Américas do Sul, Central e do Norte.
Ao nomear os países em alto e bom som no microfone, Bad Bunny também inverteu a hierarquia geopolítica convencional. O gesto ecoou a famosa pintura América Invertida, do artista uruguaio Joaquín Torres-García, bem como sua afirmação de que "o sul é o nosso norte".
3. Autenticidade como consistência
A consistência apareceu através de referências ao ativismo de longa data de Bad Bunny. A explosão do poste de luz antes da apresentação da música "El Apagón" fez referência direta ao videoclipe da canção, de 2022, que funciona como um documentário criticando a negligência da infraestrutura e a privatização da eletricidade por empresas norte-americanas. Esse momento conectou o entretenimento à realidade dos porto-riquenhos, reforçando como Bad Bunny se recusa a separar sua arte das dificuldades coloniais que afetam sua terra natal.
A breve aparição de El Sapo Concho, o mascote não oficial de seu último álbum, acrescentou outra camada de continuidade simbólica. Quase levado à extinção por séculos de perturbação ecológica ligada à extração colonial de recursos, o sapo-de-crista-porto-riquenho tornou-se um símbolo visual da sobrevivência contra a exploração estrutural. Sua presença, mesmo que por um momento, serviu como um lembrete de que o impacto do colonialismo também é ambiental.
A mesma ideia surgiu quando Bad Bunny entregou um Grammy a uma versão mais jovem de si mesmo, reforçando sua frase: "Se estou aqui, é porque sempre acreditei em mim mesmo".
Em um mundo onde pessoas de nações colonizadas enfrentam discriminação, exclusão, opressão e marginalização, muitos passaram a ver a cultura de seus colonizadores como um caminho para transcender essas barreiras. Assim, o gesto de Bad Bunny reivindicou a autoconfiança como um ato de rebeldia. Ao centrar a identidade em vez da imitação, Bad Bunny afirmou que reforçar a própria autenticidade cultural é a forma mais poderosa de recusa anticolonial.
'This is America'
No final da apresentação, um outdoor luminoso exibiu: "A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor".
Nesse momento, Bad Bunny segurava uma bola de futebol com as palavras "Juntos, somos a América", propondo um ideal pan-americano ancorado na solidariedade, em vez da dominação, e enfatizando a colaboração, no lugar da hierarquia.
O ódio se alimenta do isolamento, mas esse ato de resistência num templo da cultura dos EUA, assistido por mais de uma centena de milhões de pessoas, criou uma visão unificadora. Por meio de símbolos de resiliência coletiva, Bad Bunny enquadrou a autenticidade como ativismo anticolonial baseado no amor, na memória e na comunidade.
No geral, esses recursos visuais foram intencionais, alinhando-se com anos de declarações públicas, música e envolvimento com a comunidade. Cada elemento reforçou uma narrativa consistente de resistência, mostrando que a autenticidade não é apenas performance, mas o culminar de um ativismo anticolonial sustentado.
Ao incorporar história, simbolismo e convicção pessoal em cada momento de sua apresentação, Bad Bunny demonstrou que a arte pode ser um veículo deliberado para ações políticas e culturais baseadas no amor, na tolerância e na inclusão.
Em meio a tudo isso, a vitória do Seattle Seahawks sobre o New England Patriots foi o que menos importou no Super Bowl de 2026.
Flavia Cardoso recebeu financiamento do Goveerno de Chile (Fondecyt) e da Fundacao Luksic
Belinda Zakrzewska e Jannsen Santana não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.