As regalias e a influência do presidente da Fifa, o homem mais poderoso (e polêmico) do futebol

Gianni Infantino parece tentar retomar a normalidade após o fracasso do plano de investimento privado na Copa do Mundo — mas isso pode não ser tão simples.

9 ago 2026 - 07h43
(atualizado às 08h04)

Gianni Infantino desembarcou em Cali, na Colômbia, na madrugada de sexta-feira (7/8) e foi recebido na pista do aeroporto pelo presidente da Federação Colombiana de Futebol, Ramón Jesurún.

Aliado próximo de Infantino, Jesurún aproveitou a ocasião para demonstrar seu apoio, sorrindo em uma foto publicada no perfil da federação no Instagram.

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Infantino não viajou à Colômbia para uma reunião comum. Ele foi ao país para participar da posse do novo presidente, Abelardo de la Espriella.

Infantino estava acompanhado de Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol — entidade que comanda o futebol sul-americano. Domínguez elogiou o histórico de Infantino e a Copa do Mundo de 2026, classificando como um evento "enormemente bem-sucedido", e afirmou: "Estamos com Gianni".

Essa é a vida de um presidente da Fifa.

O cargo envolve construir relações com algumas das pessoas mais poderosas do mundo — como mostra a proximidade de Infantino com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

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Antes do maior escândalo de sua gestão — o plano abandonado da Fifa para "vender a Copa do Mundo" — Infantino era uma figura extremamente poderosa, que parecia imune a crises.

Agora, após pedir desculpas e declarar que pretende resistir à reação negativa ao seu projeto, Infantino parece tentar voltar à normalidade.

Mas talvez isso não seja tão simples.

Uma reportagem do jornal britânico Daily Telegraph afirmou que uma suposta amante de Infantino recebeu uma indenização de rescisão da Uefa depois de ele ter tido um caso extraconjugal enquanto era secretário-geral da entidade.

Em resposta, neste sábado (8/8), a Fifa criticou duramente o que chamou de um "esforço coordenado e contínuo" para "enfraquecer" a organização e seu presidente. Um porta-voz disse ao Telegraph que Infantino "nega veementemente" as alegações e que elas são "categoricamente falsas".

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A ameaça da Uefa (União das Federações Europeias de futebol) de boicotar torneios da Fifa contra ele também continua de pé. A questão será colocada à prova com o início da Copa do Mundo Sub-20, na Polônia, daqui a 29 dias.

Talvez fortalecido pelo apoio que recebeu de fora da Europa nos últimos dias, Infantino não parece disposto a recuar facilmente.

Mas afinal, qual é exatamente o papel do presidente da Fifa?

As viagens de Infantino como um 'estadista' do futebol mundial

Após pedir desculpas pela proposta da Fifa de "vender a Copa do Mundo", Gianni Infantino parece tentar voltar à normalidade à frente da federação
Após pedir desculpas pela proposta da Fifa de "vender a Copa do Mundo", Gianni Infantino parece tentar voltar à normalidade à frente da federação
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Uma comitiva de Mercedes com vidros escuros, escoltada por carros da polícia, chegou à sede da Fifa em Rabat, no Marrocos, no início desta semana.

Infantino havia convocado alguns membros selecionados do conselho de administração da Fifa para discutir seu plano de vender 21% do negócio comercial e de venda de ingressos da entidade para uma empresa de private equity.

Esse é o padrão de viagem do dirigente suíço-italiano — entre voos no jato executivo da Qatar Airways disponibilizado para ele. A aeronave permitiu que Infantino fizesse até três voos por dia durante a Copa do Mundo de 2026, acompanhando duas partidas em um mesmo dia.

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Esse tipo de chegada passa uma imagem presidencial — mais parecida com a de um chefe de Estado do que com a de um dirigente esportivo.

A estrutura permite que ele percorra o mundo, visitando escritórios oficiais da Fifa, como o de Rabat, onde ficou na última semana enquanto a controvérsia sobre o plano da Fifa se desenrolava.

Em seu cargo, espera-se que Infantino visite os 211 países-membros da Fifa para acompanhar projetos de base financiados pela entidade.

Parte de sua missão é unificar o futebol — algo que não pode ser feito apenas de dentro da sede da Fifa, em Zurique.

Para isso, são necessárias viagens internacionais para participar de reuniões das confederações e dos torneios globais organizados pela Fifa. Infantino também precisa construir relações com dirigentes esportivos e autoridades políticas.

Em abril, antes do Congresso da Fifa em Vancouver, as autoridades locais rejeitaram um pedido para uma escolta de nível quatro, normalmente reservada a chefes de Estado ou ao papa.

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A polícia da Nova Zelândia informou que havia recusado um pedido semelhante durante a Copa do Mundo Feminina de 2023.

Junto com a comitiva de carros e os voos fretados particulares vem também um salário elevado — três vezes maior do que o que Infantino recebia quando foi eleito, em 2016.

Infantino, que recebia cerca de £ 1,3 milhão (R$ 8,9 milhões) há dez anos, agora ganha aproximadamente £ 4 milhões (R$ 27 milhões) — sendo £ 2,2 milhões de salário-base e £ 1,8 milhão em bônus variável.

Seu antecessor, Sepp Blatter, recebeu um pacote de remuneração de £ 2,6 milhões em seu último ano como presidente da Fifa.

Infantino também recebe uma diária para cobrir despesas e custos de vida, no valor de £ 20,5 mil por ano, além do salário.

Como chefe do esporte mais popular do mundo, é esperado que haja uma remuneração compatível com o cargo.

Infantino argumentaria que, ao ampliar receitas recordes e aumentar o financiamento destinado às associações-membro, provou que seu salário é justificável.

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Como Infantino construiu uma relação próxima com Trump

A aliança de Infantino com Trump parece ter elevado ainda mais seu status.

No mundo do futebol, muitos sentiraram que isso começou a acontecer às custas de suas responsabilidades à frente do esporte.

Em maio de 2025, Infantino acompanhou Trump em uma viagem diplomática pelo Oriente Médio e chegou com duas horas de atraso ao Congresso da Fifa, no Paraguai. A Uefa acusou Infantino de priorizar "interesses políticos privados" e deixou o evento em protesto.

Houve também o Prêmio da Paz da Fifa, concedido a Trump poucas semanas antes de os Estados Unidos invadirem a Venezuela para prender o presidente Nicolás Maduro e lançarem ataques aéreos contra o Irã.

Apesar das críticas, o comitê de ética da Fifa não respondeu às reclamações sobre uma possível violação da neutralidade política de Infantino por causa da premiação.

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No início do ano, Infantino fez uma aparição surpresa na primeira reunião do Conselho da Paz de Trump, criado para supervisionar a reconstrução de Gaza.

O Comitê Olímpico Internacional, do qual Infantino é membro convidado, afirmou que suas regras sobre neutralidade política não haviam sido violadas.

Ainda assim, muitos entenderam que o presidente da Fifa havia se aproximado demais do presidente americano.

Essa percepção aumentou quando o atacante da seleção dos Estados Unidos Folarin Balogun escapou de uma suspensão após receber um cartão vermelho durante a Copa do Mundo.

Foi uma decisão sem precedentes do comitê disciplinar da Fifa. Trump afirmou que havia telefonado pessoalmente para Infantino pedindo uma revisão da expulsão.

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Infantino insistiu que a decisão havia sido tomada por um órgão independente, sobre o qual ninguém poderia exercer influência.

No último fim de semana da Copa do Mundo, Trump e Infantino apareceram juntos na Trump Tower, em Nova York. O presidente americano disse que havia ligado para o presidente da Fifa, que "tomou outra grande decisão".

Então, talvez o ponto máximo da associação de Infantino com Trump tenha sido o projeto Fifa Forward Enterprise, para vender uma participação de 21% do negócio comercial e de venda de ingressos da Fifa a uma empresa de private equity.

O investidor privado que participaria do projeto seria uma empresa ligada ao irmão do genro de Trump, Jared Kushner.

Infantino raramente responde perguntas da imprensa

Nos últimos quatro anos, Infantino realizou apenas duas entrevistas coletivas abertas, nas quais respondeu a perguntas da imprensa
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Questionamentos independentes sobre os métodos e as decisões de Infantino são raros, porque ele não costuma falar com a imprensa.

Nos últimos quatro anos, ele concedeu apenas duas entrevistas coletivas, ambas com duração de uma hora e realizadas antes do início da Copa do Mundo.

Fora essas ocasiões, Infantino geralmente aparece em entrevistas produzidas pela própria Fifa e divulgadas pelos canais oficiais da entidade.

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Antes da Copa do Mundo de 2026, Infantino tentou se antecipar a possíveis perguntas sobre os preços elevados dos ingressos e os vistos para torcedores.

Mas, sua resposta durante entrevista coletiva que antecedeu o Mundial, em que ele disse que as pessoas deveriam "se acalmar e relaxar" ao ser questionado sobre o árbitro somali Omar Artan — que havia sido impedido de entrar nos Estados Unidos no aeroporto de Miami — provocou preocupação.

Ao divulgar declarações por meio dos canais da Fifa, Infantino pode tentar controlar a narrativa.

O comunicado divulgado pela Fifa na quarta-feira trouxe um tom de mea-culpa. Mas também houve uma repreensão.

O texto deu a Infantino a oportunidade de reagir, afirmando que a Fifa "não toleraria mais ataques à sua integridade, à boa governança e ao devido processo".

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Controvérsias

O cargo exerce grande fascínio — a Fifa teve apenas quatro presidentes permanentes desde a eleição de Stanley Rous, em 1961.

Fora da Europa, as receitas recordes obtidas por Infantino financiaram as atividades relacionadas ao futebol de muitos países. Isso criou lealdades — e também votos.

Para a Uefa e algumas outras associações nacionais, porém, a lista de controvérsias envolvendo Infantino já é longa demais.

Segundo seus críticos — muitos deles ligados ao futebol europeu — a Fifa não pode mais ser administrada como um projeto autocrático.

A ampliação da Copa do Mundo estava no programa eleitoral de Infantino, e um aumento para 64 seleções em 2030 parece bastante provável caso ele conquiste um quarto mandato.

Houve também a expansão do Mundial de Clubes para o verão. O troféu da competição traz uma homenagem pessoal: "Inspirado pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino".

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A definição das sedes das próximas duas Copas do Mundo masculinas também ajudou a garantir que a Arábia Saudita, outra aliada próxima de Infantino, recebesse o Mundial de 2034.

O sorteio da Copa do Mundo deste ano foi um evento longo, luxuoso e extravagante. Trump ocupou um lugar de destaque, assim como Infantino.

Muitos torcedores consideraram os preços dos ingressos altos demais, enquanto alguns que estavam dispostos a pagar não conseguiram vistos.

A Fifa optou por utilizar um mercado secundário de ingressos com preços sem limite máximo e receber 30% do valor de cada ingresso vendido.

Críticos afirmaram que o lucro havia se tornado mais importante do que a experiência dos torcedores. Os procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey intimaram a Fifa a responder a questionamentos sobre suas práticas de venda de ingressos.

Mesmo com todas essas controvérsias, esperava-se que Infantino fosse reeleito, tamanha era a força de seu apoio entre associações-membro de várias partes do mundo.

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De fato, antes da Copa do Mundo, 111 delas já haviam declarado apoio a Infantino — número suficiente para garantir sua reeleição.

Agora, esse cenário é incerto diante das repercussões do fracassado plano de investimento privado da Fifa.

A Uefa vê neste momento uma oportunidade para pressioná-lo a deixar o cargo.

Mas, como mostra a presença de Infantino na posse do presidente da Colômbia, isso pode ser extremamente difícil de conseguir.

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