As artimanhas do Exército russo para aliciar estudantes

24 mar 2026 - 17h00

Universidades russas vem sendo usadas para recrutar jovens para o serviço militar, às vezes com promessas atraentes. Mas a realidade sob uniforme costuma ser bem diferente.O Ministério da Defesa da Rússia está recrutando estudantes para as chamadas tropas de drones diretamente nas universidades. Eles recebem a promessa de um contrato de um ano, destacamento a uma distância segura das linhas de frente da guerra na Ucrânia, aproximadamente cinco milhões de rublos (cerca de R$ 325 mil) e estudos universitários gratuitos após o serviço militar.

Estudantes são atraídos para batalhão de drones, mas muitas vezes acabam sendo enviados para as frentes de batalha
Estudantes são atraídos para batalhão de drones, mas muitas vezes acabam sendo enviados para as frentes de batalha
Foto: DW / Deutsche Welle

No entanto, observadores alertam que os estudantes estão sendo enganados e que o recrutamento frequentemente resulta em contratos por tempo indeterminado. No pior dos casos, eles acabam tendo que ir para a linha de frente, onde correm o risco de serem feridos ou mortos.

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De acordo com informações em portais de universidades e relatos de estudantes em canais do Telegram, as instituições de ensino organizam encontros com representantes de escritórios de alistamento e centros de treinamento militar, onde os estudantes são informados sobre as supostas vantagens dos contratos com o Ministério da Defesa.

Conforme relatado pelo portal russo Echo, pelo menos 70 instituições em 23 regiões da Rússia, incluindo as da Península da Crimeia anexada da Ucrânia em 2014, estão envolvidas no recrutamento. Quase metade delas esta em São Petersburgo e Moscou, e o restante espalhado por diversas localidades da Rússia.

Ordens para aliciar estudantes

Como Yuri (nome fictício), funcionário de uma universidade de Moscou, relatou à DW, os reitores de várias universidades foram convocados para uma reunião com o vice-primeiro-ministro russo, Dmitry Chernyshenko, responsável pelas pastas da Educação e Ciência. Eles receberam instruções para organizar esforços de recrutamento em suas universidades a fim de atrair estudantes para servir nas tropas de drones.

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"Não existe uma estratégia de recrutamento uniforme; cada universidade tem a sua própria", disse Yuri. Segundo ele, representantes dos escritórios de alistamento, veteranos da "operação militar especial" - como a guerra contra a Ucrânia é chamada na Rússia - e funcionários universitários vêm realizando discussões em grupo com os estudantes.

Em algumas regiões, as secretarias estaduais da Educação enviam diretrizes sobre como as universidades devem organizar os esforços de recrutamento. Além disso, administrações universitárias têm enviado e-mails oferecendo contratos com o Ministério da Defesa a estudantes, conforme relatado em fevereiro pelo portal de notícias investigativas em russo The Insider.

De acordo com a plataforma de mídia independente T-invariant, muitas universidades recrutam para as tropas de drones, inclusive aquelas sem qualquer ligação com o desenvolvimento ou a implantação desses equipamentos.

Inicialmente, o foco era em grandes universidades técnicas e departamentos militares, relatou o T-invariant. No entanto, desde janeiro, estudantes de outras universidades que correm o risco de expulsão por baixo desempenho acadêmico também têm sido alvo - são justamente esses estudantes que vêm sendo abordados.

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"Pelo que observei, foi estabelecida uma cota para cada universidade, entre 0,5% e 2% do corpo discente total", afirma Yuri. Ele acrescenta que, se uma administração universitária não atingir essas cotas, pode ser suspeita de deslealdade. "Nesse caso, o reitor ou vice-reitor corre o risco de perder o cargo", enfatiza Yuri.

Ele conta que. enquanto isso, a taxa de reprovação em sua universidade aumentou drasticamente nos últimos tempos. "Isso nunca acontecia antes. Os alunos estão sendo reprovados em massa. Antes, um professor conseguia salvar um aluno em uma prova, mas agora são dois examinadores". Os alunos que correm o risco de serem expulsos agora têm a opção de assinar um contrato com o Exército e servir nas tropas de drones ou cumprir o serviço militar obrigatório.

Os estudantes estão sendo enganados?

O material promocional distribuído nas universidades diz que os alunos podem assinar um contrato de um ano e depois retornar à vida civil. No entanto, Artyom Klyga, advogado do grupo Movimento de Objeção de Consciência, enfatiza que falar em contratos de curto prazo com as tropas de drones não está de acordo com as leis vigentes.

O advogado da organização da sociedade civil, que é classificada como "agente estrangeiro" na Rússia, explica que o contrato que os alunos assinam é, na prática, por tempo indeterminado - até que o presidente Vladimir Putin encerre a mobilização parcial. Isso é confirmado por decisões judiciais que enfatizam a natureza indeterminada dos contratos, afirma Klyga.

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O deputado da Duma, Andrei Kartapolov, afirmou em entrevista ao portal russo Daily Storm que os estudantes assinam um "contrato completo". Portanto, segundo Klyga, o contrato com as "tropas de drones" não é um programa estudantil especial, mas um contrato padrão.

Além disso, a lei russa não garante serviço exclusivo nas tropas de drones. O especialista jurídico ressalta que a designação só ocorre após a assinatura do contrato. "Se você assina um contrato e não cumpre os requisitos, isso não significa que o contrato é rescindido ou que você é dispensado do serviço militar. Você simplesmente é transferido para outra unidade e para uma função militar diferente por ordem do comandante", explica Klyga.

O que pensam os universitários?

Em canais estudantis no Telegram, as promessas feitas pelas autoridades são vistas com ceticismo. Em um grupo de bate-papo, foi compartilhada uma gravação de áudio na qual um representante do centro de treinamento militar de uma universidade de Moscou sugere que estudantes com notas baixas ou problemas de saúde solicitem licença e assinem um contrato de um ano com o Ministério da Defesa. Ele alega que esta é uma forma de "recarregar as energias" e "continuar os estudos" a 20 quilômetros da linha de frente.

Ele incentivou os estudantes a assinarem os contratos rapidamente para garantir a admissão. Também os atraiu com bolsas de estudo e benefícios para quando retornassem à universidade após deixarem o Exército.

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"Eu não daria muita importância às alegações desse homem de que se trata de uma unidade militar específica. Ele não decide isso e não será responsabilizado se alguém for transferido", escreveu um participante do chat. Outro relembrou a história de dois soldados contratados e pilotos de drones com os codinomes Goodwin (Sergei Gritsai) e Ernest (Dmitri Lysakovsky). Após uma disputa interna com o comando, a unidade de drones deles foi dissolvida. Ambos os soldados contratados foram enviados para a frente de batalha, onde morreram pouco depois.

Yuri, o funcionário anônimo de uma universidade de Moscou, também alerta para não confiar no material de propaganda. Ele observa que mulheres também estão sendo recrutadas: "Elas provavelmente serão usadas como médicas". "Eu não daria muita importância às alegações desse tipo de material."

Enviados para a frente de batalha

O movimento Idite Lesom ("Caminhada pela floresta"), uma organização sediada na Geórgia que auxilia desertores da Rússia, recebeu relatos de promessas não cumpridas. Neles, estudantes da Faculdade Petrovsky, em São Petersburgo, descrevem seus contratos com o Ministério da Defesa russo. A eles foram prometidas vagas em uma instalação militar em São Petersburgo e trabalho com equipamentos militares. No entanto, eles logo foram informados de que teriam que ir para a frente de batalha como pilotos de drones.

Uma experiência semelhante ocorreu com um soldado contratado que conversou com a DW no início de janeiro e preferiu permanecer anônimo.

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Ele relatou que, ao assinar o contrato, foi assegurado que seria designado para um cargo no comando, o que inicialmente aconteceu. Após alguns meses, no entanto, ele foi inesperadamente transferido para o corpo de engenharia para trabalhar na remoção de minas terrestres. O contato com ele foi perdido no final de janeiro. Sabe-se agora que ele morreu na região de Kharkiv.

Entrevistas pessoais com estudantes no futuro?

Yuri afirma que, em sua universidade, não conhece nenhum aluno que tenha assinado um contrato. Ele, no entanto, teme que poucos estudantes estejam cientes das consequências legais. Ele, quetem a incumbência de informá-los sobre as possibilidades dos contratos em suas entrevistas, tenta alertá-los, pelo menos indiretamente, sobre os riscos. Alguns deles entendem, diz Yuri, que nenhuma quantia em dinheiro pode compensar uma deficiência ou a perda de uma vida. Discussões abertas podem ser arriscadas para os professores, afirma Yuri, enfatizando que "alguns alunos podem informar a administração da universidade".

Ele acredita que os esforços de recrutamento mudarão em breve, que em vez de reuniões gerais, haverá entrevistas individuais com os alunos em centros de recrutamento do Exército. Lá, eles tentarão convencê-los a assinar o contrato, disse Yuri. Até recentemente, ele tentou se manter afastado de tudo isso e se concentrar em seu trabalho acadêmico. "Até certo ponto, consegui me distanciar dessa guerra. Mas agora as universidades estão se transformando em quartéis. Minha visão humanista não me permite enviar meus próprios alunos para lá", disse.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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