Centros de logística da Wildberries, maior varejista online da Rússia, vêm sendo destruídos em ataques de drones ucranianos, em novo abalo para economia e levando a guerra para o cotidiano da classe média russa.Da origem como empresa familiar em um apartamento nas proximidades de Moscou, a Wildberries cresceu e, em menos de duas décadas, tornou-se a principal varejista online da Rússia e um importante motor econômico do país, um equivalente nacional da Amazon. Agora, virou alvo de ataques da Ucrânia.
Ao menos sete armazéns da Wildberries foram atacados pelas forças ucranianas na última semana. As ofensivas geraram imagens impactantes, com enormes colunas de fumaça preta subindo dos incêndios nas instalações da varejista.
Drones ucranianos acertaram, no fim de semana, alvos em Elektrostal, a leste de Moscou, e na região de Tambov, matando oito pessoas e ferindo dezenas. Mais dois galpões da Wildberries - nas regiões de Krasnodar e Stavropol, no sul do país - foram atacados e incendiados na madrugada dessa quarta-feira (22/7). Uma pessoa morreu e outras 14 ficaram feridas. Também foram atingidas instalações em Podolsk, cidade próxima de Moscou.
As investidas fazem parte da campanha aérea da Ucrânia dentro da Rússia, com o objetivo de minar a economia de guerra do país de Vladimir Putin e fazer com que os cidadãos sintam as consequências da invasão da Ucrânia pelo Kremlin.
Os ataques ameaçam causar sérias perdas para as empresas que vendem por meio da Wildberries, a versão russa da Amazon.com, e possíveis transtornos para os clientes que a utilizam para comprar roupas, eletrodomésticos, medicamentos, cosméticos e uma série de outros produtos.
Parte da população russa já sente os efeitos de uma escassez de combustíveis, resultado de ataques sistemáticos da Ucrânia contra refinarias russas. O jornal americano Wall Street Journal avaliou que, agora, os ataques de drones contra a maior varejista online da Rússia estão levando "a guerra para o cotidiano da classe média" russa.
A Rússia, por sua vez, tem atacado regularmente a infraestrutura, a logística e empresas ucranianas ao longo dos quatro anos e meio de guerra.
Uma gigante na economia russa
Em cidades por toda a Rússia, os pontos de retirada da empresa tornaram-se onipresentes. A Wildberries afirma processar 20 milhões de pedidos por dia em vastos armazéns espalhados por todo o país, com uma área total de 3 milhões de metros quadrados.
Sua cofundadora, Tatyana Kim, tornou-se a mulher mais rica da Rússia, segundo a Forbes, com um patrimônio líquido de 7 bilhões de dólares (R$ 35 bilhões). Ela fundou a Wildberries em 2004. À época, a então professora e jovem mãe se dedicava à venda de roupas.
Em 2021, Kim adquiriu um pequeno banco e o transformou no que hoje é o Wildberries Bank, mas essa instituição passou a estar sujeita a sanções impostas pelo Reino Unido e pela União Europeia.
Juntamente com concorrentes menores, a Wildberries e sua principal concorrente, a Ozon, vendem bens e serviços que representam o equivalente a 8,5% do Produto Interno Bruto da Rússia (PIB). Elas geram empregos para 4 milhões de pessoas, o que corresponde a mais de 5% da força de trabalho do país.
As empresas formam a espinha dorsal do que o Kremlin chama de "economia de plataforma", que conecta milhões de consumidores a vendedores, entregadores, funcionários de armazéns e operadores de pontos de retirada por meio de mercados online.
As varejistas são fundamentais para os planos do Kremlin de revitalizar o crescimento em uma economia estagnada e voltada para a guerra. O principal assessor do presidente Vladimir Putin para assuntos econômicos, Maxim Oreshkin, foi pessoalmente encarregado de supervisionar o setor.
Oreshkin descreveu plataformas como a Wildberries e a Ozon como uma nova forma de economia planejada, administrada não por instituições dirigidas por pessoas, como na época soviética, mas por algoritmos.
Produtos para fins militares
O ataque realizado no sábado matou oito funcionários da empresa, provocou incêndios e interrompeu as operações da varejista. "Não há palavras para descrever todos os sentimentos e emoções causados pelos ataques contra pessoas comuns, contra nossos funcionários, contra todos nós que estamos simplesmente fazendo nosso trabalho", disse Kim, em uma postagem no Telegram.
A cofundadora disse que a empresa estava prestando assistência aos vendedores e buscando apoio do governo por meio de isenções fiscais e outros incentivos.
De acordo com o jornal russo Kommersant, citado pela agência de notícias EFE, os ataques ucranianos geraram uma perda de 8% da capacidade logística da varejista online.
Embora o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, não tenha mencionado a Wildberries diretamente, ele alega que as instalações atacadas por Kiev estariam envolvidas no fornecimento de equipamentos e diversos componentes técnicos às forças armadas russas.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, negou a acusação na terça-feira (21/7) e acusou Kiev de "atacar alvos civis".
Uma pesquisa da agência Associated Press no site da Wildberries encontrou produtos que poderiam ser usados tanto para fins civis quanto militares, como coletes à prova de balas, capacetes, rádios e outros aparelhos eletrônicos. Alguns deles estavam marcados como "testados na SVO" ou "escolha dos combatentes da SVO" - sigla em russo para "operação militar especial", termo usado pelo Kremlin para se referir à guerra na Ucrânia.
Especialistas independentes estimam que a Wildberries terá que gastar milhões de dólares na reconstrução de suas instalações, embora as maiores perdas sejam dos pequenos empresários que trabalham com a empresa. Uma primeira estimativa calcula perdas de cerca de 1,9 bilhão de dólares (R$ 9,7 bilhões) com os ataques.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro
fcl (AP, Reuters, EFE)