Ministros da Defesa da Alemanha e Japão se encontraram recentemente em Tóquio. Países pintam aproximação como promissora, mas cooperação ainda esbarra em limitações militares impostas desde o fim da Segunda Guerra.Alemanha e Japão querem trilhar uma rota em comum. O fato de que, no atual cenário mundial, com guerras na Ucrânia e no Irã, novos caminhos são necessários, já ficou evidente no trajeto do avião que levou o ministro da Defesa da Alemanha para a Ásia.
No passado, a rota mais curta para o Japão costumava passar pela Rússia. No entanto, a aeronave que levou o ministro da Defesa alemão, fez um contorno rumo a Tóquio, passando pelo Oceano Ártico e, em seguida, evitando ainda a península russa de Kamchatka e o estado americano do Alasca.
No Japão, o ministro da Defesa Boris Pistorius e seu homólogo japonês Shinjiro Koizumi discursaram na base naval de Yokosuka, onde também está estacionada a Sétima Frota da Marinha dos Estados Unidos. Koizumi afirmou que, atualmente, é praticamente impossível para um país reagir sozinho aos acontecimentos mundiais. "A importância de uma cooperação estreita entre países com ideais comuns, como o Japão e a Alemanha, é hoje maior do que nunca."
Pistorius aproveitou a oportunidade. "Embora haja 9 mil quilômetros de distância em linha reta entre nossos países, a mesma convicção se aplica a ambos. O que prevalece é a força do direito", disse o alemão. Ambos os ministros enfatizaram os valores que as duas nações compartilham, por exemplo, no que diz respeito à manutenção do direito internacional ou à liberdade de navegação.
Valores históricos
Alemanha e Japão só se tornaram democracias após a Segunda Guerra Mundial. Antes disso, a Alemanha nazista havia arrasado a Europa, e o Japão imperial, boa parte da Ásia. Após 1945, nas duas nações, foi atribuído às forças armadas apenas um papel secundário.
As Forças Armadas da Alemanha (Bundeswehr) só foram fundadas em 1955 e, segundo sua própria concepção, eram compostas por "cidadãos de uniforme", ou seja, soldados que agem com responsabilidade e não obedecem cegamente a todas as ordens. O Japão adotou uma constituição pacifista e denomina seu exército de "Forças de Autodefesa". Aos dois países, os Estados Unidos, como maior potência militar do mundo, deram garantias de segurança com suas armas nucleares.
No entanto, o contexto mudou no início do século 21. Em 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia. Na região do Pacífico, as crescentes pretensões da China à hegemonia levaram a um rearmamento maciço no Japão. Por fim, a confiabilidade do fiador entrou em xeque desde que Donald Trump assumiu a Casa Branca pela segunda vez, em 2025.
Tóquio e Berlim reagiram às mudanças. Em 2022, o então chanceler federal Olaf Scholz anunciou uma "virada histórica" na Alemanha, indicando maiores investimentos em segurança e um "esforço nacional".
Já o Japão vem, há alguns anos, se afastando gradualmente da Constituição pacifista. Em 2022, o país asiático revisou a estratégia nacional de defesa e segurança. A atual primeira-ministra, Sanae Takaichi, também está buscando uma alteração do Artigo 9 da Constituição, que determina que Japão renuncie à guerra "para sempre". Além disso, Takaichi pretende aumentar os gastos com defesa para pelo menos 2% do Produto Interno Bruto.
Segurança interligada
A segurança da Europa está intimamente ligada à da região Indo-Pacífico, enfatizaram os dois ministros da Defesa na base militar de Yokosuka - enquanto, ao fundo, eram exibidos dois destróiers japoneses. Mas é claro que, devido à distância geográfica e aos recursos militares limitados, Alemanha e Japão só poderiam prestar apoio limitado em caso de emergência.
A cooperação militar concentra-se, portanto, em exercícios da Marinha, da Força Aérea e dos serviços médicos. Um pacto denominado Acordo de Aquisição e Serviços Cruzados (Acquisition and Cross-Servicing Agreement, ou Asca) permite que as forças armadas se apoiem mutuamente com combustíveis, suprimentos e materiais, quando necessário. O Japão tem acordos Asca com oito países, entre os quais, além de Alemanha e EUA, estão Austrália, Canadá, França, Inglaterra, Itália e Índia.
Cooperação no setor de defesa
Além disso, a Alemanha busca novos campos de cooperação. O ministro da Defesa pretende discutir com o Japão a coordenação no setor bélico. A segurança e a defesa não são apenas uma tarefa política, mas também uma questão do setor privado e da sociedade, afirmou Pistorius perante a Câmara de Comércio Exterior do Japão. "Sem segurança, não há economia próspera; sem economia, não há segurança."
Na viagem, o ministro foi acompanhado por seis CEOs de empresas alemãs do setor de defesa. Até agora, entre a Europa e o Japão, existe apenas uma parceria, que já dura décadas, entre a Airbus Helicopters e a japonesa Kawasaki Heavy Industries no setor de helicópteros. Nada mais.
Isso também tem raízes históricas. Até 2014, as armas letais "Made in Japan" não podiam ser exportadas. Essas regras foram sendo cada vez mais flexibilizadas desde a guerra na Ucrânia. No entanto, a divisão de armamentos de conglomerados japoneses que atuam globalmente, como a Kawasaki ou a Mitsubishi, muitas vezes representava apenas uma pequena parte do faturamento.
Longo caminho até à cooperação
Diante do novo cenário de política de segurança global, o Japão vem trilhando novos caminhos há alguns anos. E a Alemanha se oferece como parceira. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, ressaltou várias vezes que deposita grande confiança no Japão e valoriza a confiabilidade da nação. Segundo ele, ambos os países contam com uma vasta gama de empresas de alta tecnologia e com uma indústria forte.
Em 2010, a Alemanha classificou o Japão como um "parceiro equivalente à Otan", o que permitiu exportações de armamentos em grande escala e uma cooperação estreita no setor de defesa. Desde 2021 está em vigor o acordo bilateral de segurança que regula a troca de informações sigilosas, inclusive relacionadas a equipamentos militares. Para 2026, estão previstos novos encontros.
Pistorius esteve no Japão duas vezes desde 2023. Se isso será suficiente para convencer os atores do setor privado, no entanto, não ficou claro ao término da visita. Ainda assim, ambos os governos demonstraram firme determinação. Segundo o ministro da Defesa, há "muito mais potencial para os dois lados".