Adversário do Brasil, camisa 10 do Haiti nunca esteve no país, viveu tragédia familiar e foi batizado por enfermeiros

Conheça a emocionante trajetória de Jean-Ricner Bellegarde, que superou um nascimento prematuro e o coma da mãe para fazer história pela seleção do Haiti

19 jun 2026 - 11h22

A trajetória de Jean-Ricner Bellegarde nos gramados internacionais carrega uma carga dramática que vai muito além das quatro linhas. O atual destaque da seleção do Haiti superou adversidades extremas antes mesmo de dar os seus primeiros passos no esporte. Ele nasceu de forma prematura com apenas seis meses de gestação em um momento de extrema fragilidade familiar. Enquanto o bebê lutava pela vida na incubadora da maternidade, sua mãe entrava em um estado de coma profundo.

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Foto: Ricner Bellegarde - Getty Images / Perfil Brasil

Sem a presença de outros parentes no hospital de Colombes e diante de um cenário de total incerteza sobre a sobrevivência da mãe, a própria equipe médica tomou a decisão de batizar o recém-nascido. Essa escolha moldou a identidade do atleta para sempre. Em um relato emocionante, o jogador relembrou esse momento crucial de sua existência que marcou o início de sua jornada.

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"Minha mãe estava em coma, então, não havia ninguém lá para me dar um nome. Foi o hospital em Colombes que me deu este nome. Quando minha mãe acordou, disse que manteria porque eles haviam dito que corríamos risco de vida e era ela ou eu, mas tivemos a sorte de sobreviver" disse em entrevista ao Le Media Carré.

O orgulho de construir uma nova história

A superação médica virou combustível para a carreira do atleta que cresceu em solo europeu. Hoje, a relação com o seu nome carrega um significado profundo de vitória compartilhado com sua progenitora. O atleta não esconde o desejo de reencontrar os profissionais de saúde que garantiram o seu futuro e o da sua mãe naquele período de internação.

"Hoje, quando minha mãe me chama de Jean-Ricner, ela diz isso com orgulho. Eu também tenho orgulho disso. Ainda estou tentando encontrar os profissionais que nos salvaram, mas por enquanto não encontrei" completou.

Nascido e criado na França, Jean-Ricner Bellegarde possui forte ligação com a América Central devido à ascendência haitiana por parte de pai. Ele chegou a defender as equipes de base do país europeu e disputou competições de prestígio como o Torneio de Toulon. No ano de 2025, o meio-campista optou por uma mudança definitiva em sua carreira internacional e escolheu defender as cores da pátria de sua família.

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"Naquela época, pensei comigo mesmo: vou representar o Haiti, o país do meu pai. Os jogadores me incentivaram a ir. Eles realmente queriam que eu me juntasse a eles. Até mesmo as pessoas queriam que eu fosse. Isso realmente me motivou a ir. Pessoalmente, sei que a história da seleção francesa já está escrita. Se você se classifica para a Copa do Mundo com a França, as pessoas dizem que é só mais um dia de trabalho. O mesmo acontece se você ganha. Eu, por outro lado, queria escrever a minha própria história com o Haiti" disse ao site Sofoot.

O impacto da chegada do jogador foi imediato nas Eliminatórias da Concacaf. O atleta participou ativamente das seis partidas da competição e liderou o elenco que superou adversários tradicionais como Costa Rica, Honduras e Nicarágua. A classificação histórica garantiu um lugar cobiçado no torneio mundial e gerou uma onda de felicidade em uma nação que enfrenta sérias dificuldades estruturais.

"Classificar o Haiti para a Copa do Mundo é simplesmente incrível. Para a história, para o povo. É motivo de orgulho para eles. Sabemos que vamos trazer muita alegria para um povo que não pedia nada menos do que isso. É como jogar Football Manager com um pequeno clube da Ligue 2 e tentar levá-lo à Ligue 1".

O futebol como esperança contra a violência

A façanha esportiva ganha contornos ainda mais impressionantes devido ao cenário político do país caribenho. Por causa de graves conflitos internos, a equipe nacional não pôde realizar nenhuma partida em seu território. Os três compromissos com o mando de campo do Haiti ocorreram em campos neutros no exterior. Por essa razão geográfica, tanto o jogador quanto o técnico Migné nunca estiveram fisicamente no território haitiano.

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"É uma pena não poder jogar no Haiti, especialmente para mim, já que nunca estive lá. Também acho que essa conquista traz muita esperança para as pessoas que estão passando por momentos tão difíceis. É frustrante porque sei que existem lugares lindos lá, então quero caminhar pela terra onde minha família cresceu. Quero ir para lá, e me entristece não poder conhecer meu país. Espero que o futebol ajude a acalmar os conflitos. Quando nos classificamos, a guerra diminuiu por dois ou três dias. Espero que, durante a Copa do Mundo, vençamos uma partida para que as coisas se acalmem ainda mais".

A paixão pelo futebol brasileiro é uma constante na vida do meio-campista que tem o craque Ronaldinho Gaúcho como uma de suas grandes referências na infância. No cenário internacional, o jogador costuma ser comparado ao volante francês N'Golo Kanté por seu estilo de jogo intenso e dinâmico.

"Desde muito jovem, quando eu era pequeno, adorava assistir aos brasileiros e, em particular, ao Ronaldinho. Muitas vezes me disseram que tenho o perfil do N'Golo Kanté. Tento me inspirar nele e, quem sabe, me tornar como ele" disse em entrevista ao jornal 'Sang et Or Le Mag'.

O meia explicou que o povo de sua nação costuma adotar potências sul-americanas em torneios esportivos devido ao histórico modesto da própria seleção. O impacto dessa admiração cultural influencia até mesmo a escolha dos nomes familiares na comunidade. A meta do jogador agora é usar o esporte como uma ferramenta social de transformação para desviar os jovens da criminalidade local.

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"A seleção haitiana nunca foi muito bem, então muitos haitianos torciam para o Brasil e a Argentina. O nome do meu sobrinho é Riquelme, e isso não é coincidência. Quero incentivar os jovens. Não há empregos lá, e você pode se tornar um criminoso rapidamente. Aos 15 anos, você pode acabar com uma arma, então é melhor para os jovens no Haiti jogarem futebol" afirmou ao Sofoot.

O profissional iniciou sua trajetória esportiva no Lens e acumulou ótimas atuações com a camisa do Strasbourg no futebol francês. O desempenho consistente garantiu sua transferência para o Wolves do futebol inglês no ano de 2023. Agora, o meio-campista se prepara para o desafio de enfrentar a seleção brasileira na Filadélfia pela segunda rodada do grupo C. A equipe caribenha busca a recuperação após uma derrota apertada para a Escócia na estreia do torneio.

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