Acidente da Voepass: o que causou a queda do avião em SP?

24 jul 2026 - 13h01

Relatório do Cenipa aponta 19 fatores contribuintes para a queda do voo 2283 em 2024, incluindo falhas técnicas, erros operacionais e uma cultura organizacional que teria normalizado desvios de segurança.Quase dois anos após a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), um relatório divulgado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) nessa quinta-feira (23/07) listou nada menos do que 19 fatores que contribuíram para o acidente com o turboélice da marca francesa ATR 72-500 que matou, em 9 de agosto de 2024, 62 pessoas - entre elas, quatro tripulantes.

Restos do avião da Voepass que caiu na cidade paulista de Vinhedo deixando 62 mortos
Restos do avião da Voepass que caiu na cidade paulista de Vinhedo deixando 62 mortos
Foto: DW / Deutsche Welle

De acordo com as investigações do órgão da Força Aérea Brasileira (FAB), acúmulo de gelo, falhas no sistema de descongelamento, alertas ignorados pela tripulação e cultura organizacional de "normalização de desvios" estão entre as causas da tragédia que chamou atenção mundial.

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Imagens da aeronave PS-VPB, que fazia o voo 2283 entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), mostraram o avião em queda livre antes de atingir o solo, num movimento conhecido como "parafuso chato", usado para descrever quando um avião entra em rotação em torno de seu eixo vertical enquanto despenca.

O acidente foi o quinto maior em número de vítimas já registrado no espaço aéreo do Brasil e o maior desde que um avião da TAM bateu num galpão ao tentar aterrissar em Congonhas (SP), em 2007, deixando 199 mortos.

O que concluiu a investigação?

O relatório final do Cenipa constatou que a aeronave enfrentou condições favoráveis à formação de gelo intenso e que o sistema de descongelamento sofreu várias falhas, e que os pilotos o ligaram e desligaram várias vezes em meio a alertas de formação de gelo.

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Segundo o tenente-coronel Paulo Mendes Froes, investigador do Cenipa, estado emocional da tripulação, influências externas, condições climáticas adversas e supervisão regulatória insuficiente influenciaram na tragédia.

De acordo com o relatório, o ATR encontrou condições favoráveis à formação severa de gelo durante o voo de cruzeiro a 17 mil pés. O acúmulo de gelo nas asas aumentou o arrasto aerodinâmico e reduziu gradualmente a sustentação. A aeronave então perdeu desempenho, entrou em estol (stall) e evoluiu para um parafuso chato, do qual os pilotos não conseguiram se recuperar.

A investigação aponta que o sistema pneumático de degelo (Airframe De-Icing) apresentava falhas recorrentes já antes daquele voo. Os gravadores revelaram que os pilotos tinham conhecimento do problema. Em um momento registrado no áudio da cabine, o comandante comentou que o sistema havia falhado

Mesmo diante do acúmulo crescente de gelo, a tripulação deixou de executar procedimentos previstos pelo fabricante. Os pilotos não declararam emergência nem alteraram significativamente a estratégia de voo para deixar a área afetada pelas condições meteorológicas adversas.

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Além disso, a aeronave estava com um problema no limpador de para-brisa e deveria ter sido impedida de decolar, já que havia previsão de chuva - mesmo que a falha nesse instrumento não tenha influenciado no acidente.

"A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa", disse Fróes.

No total, segundo o Cenipa, o ATR da Voepass possuía dez itens com falhas antes de decolar, incluindo freios das rodas, assentos dos passageiros, sistema eletrônico de instrumento de voo e sistema de ignição.

De quem é a culpa?

As conclusões apontaram para falhas da tripulação, que deixou de executar procedimentos previstos para situações de formação severa de gelo e não reagiu adequadamente aos sucessivos alertas emitidos pelos sistemas da aeronave. Mas os investigadores também encontraram problemas muito anteriores à decolagem.

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Durante a apresentação do relatório, o tenente-coronel Fróes afirmou que havia na companhia uma "cultura organizacional que normaliza práticas fora dos padrões". Segundo ele, verificou-se uma "cultura de informalidade", na qual pilotos e mecânicos deixavam de registrar problemas técnicos ou os comunicavam verbalmente, permitindo que aeronaves continuassem operando sem que determinadas falhas fossem formalmente documentadas.

De acordo com o órgão, em voos anteriores da mesma aeronave, com tripulações diferentes, já havia ocorrido detecção de gelo e erro no sistema de degelo. Porém, a falha não foi registrada no diário de bordo.

"O que podemos afirmar é que essa ocorrência foi um acidente com peso elevadíssimo da parte da cultura organizacional. Foram 19 fatores contribuintes, mas a cultura organizacional foi muito presente", disse o brigadeiro Alexandre Avellar, chefe do Cenipa.

Além disso, o relatório final indica que houve falhas na fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para detectar os problemas com a aeronave que levaram à tragédia.

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Mesmo com todos os apontamentos, o relatório do Cenipa, por ter caráter preventivo de acordo com o código brasileiro, não aponta culpados nem pode ser utilizado como prova em processos judiciais. O objetivo, portanto, é evitar futuros acidentes e fazer recomendações para as entidades envolvidas.

Uma investigação da Polícia Federal, que deve ser concluída nos próximos meses, poderá apontar os responsáveis e levar ao indiciamento dos envolvidos na esfera criminal. A denúncia ou não, no entanto, ficará a cargo do Ministério Público. Já indenizações por responsabilização civil podem ser julgadas na esfera cível.

O que acontece agora?

Após a tragédia, a Anac suspendeu as operações da Voepass em março de 2025 e, três meses depois, revogou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo-a de continuar realizando voos comerciais. O órgão regulatório, no entanto, foi objetivo de recomendações pelo relatório do Cenipa.

De acordo com o texto, a Anac precisa aprimorar a fiscalização do modelo ATR no Brasil e revisar regras de comunicação entre tripulações e torres de controle, melhorando a comunicação para evitar situações de perigo. Em resposta ao Cenipa, a Anac informou que vai analisar as recomendações dentro de até quatro meses.

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A Cenipa também enviou recomendações para a Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) e à fabricante ATR para que haja a revisão de procedimentos relacionados aos alertas de degradação de desempenho, que desempenharam papel central na sequência do acidente.

A investigação também reforça discussões já iniciadas no setor sobre treinamento de tripulações para situações de perda de controle, gestão de ameaças e fatores humanos.

Ao longo do relatório, o Cenipa destaca fenômenos como a "cegueira por desatenção", a "surdez por desatenção" e o chamado startle effect - a reação de surpresa diante de eventos críticos - para explicar como a tripulação pode ter deixado de perceber ou processar adequadamente informações fundamentais durante os minutos que antecederam a queda.

Em nota após a divulgação do relatório, a Voepass afirmou que a queda do voo 2283 foi o "episódio mais difícil da história" da companhia aérea e que é "solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória".

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"Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação. A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais", acrescentou a Voepass.

De acordo com a empresa, a tripulação da aeronave era "experiente, capacitada e devidamente certificada", com mais de 5 mil horas de voo acumulados.

"Desde o início das apurações, a Voepass atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário", finalizou a empresa.

fcl/le (Agência Brasil, EFE, Reuters, AP, ots)

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