A IA está testando o nível de consciência da liderança

A liderança terá de aprender a distinguir automação inteligente de empobrecimento da experiência humana

30 mai 2026 - 18h00

Ao ouvir Zack Kass, ex-head de Go to Market da OpenAI, fiquei com a sensação de que a conversa sobre inteligência artificial (IA) precisa amadurecer rapidamente. Estive na palestra dele nas últimas semanas em Los Angeles e compartilho a seguir meus principais insights.

A IA pode expandir enormemente o que fazemos
A IA pode expandir enormemente o que fazemos
Foto: Canva Fotos / Perfil Brasil

Ainda falamos muito sobre ferramentas, automação, produtividade e ganho de escala. Esses temas são relevantes, evidentemente. Mas a palestra dele apontou para uma camada mais profunda: a IA está tornando a inteligência mais acessível, mais barata e mais presente no cotidiano das pessoas e das organizações. Diante disso, a pergunta central passa a ser menos técnica e mais humana.

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O que faremos com tanto poder de criação, análise e decisão?

Kass usa uma imagem interessante: a inteligência artificial é o pincel. O potencial humano é a obra. Essa metáfora ajuda a deslocar o olhar. A tecnologia pode ampliar capacidades, acelerar descobertas e transformar setores inteiros, mas a direção dessa transformação continuará dependendo da qualidade da intenção humana.

Vejo pelo menos três grandes oportunidades nesse momento.

A primeira é a democratização do acesso à inteligência. Durante muito tempo, capacidade analítica, pesquisa sofisticada, produção de conhecimento e apoio à decisão estavam concentrados em poucos lugares, pessoas e instituições. A IA muda essa equação ao permitir que mais gente tenha acesso a recursos antes restritos.

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Isso pode impactar educação, ciência, saúde, inovação e produtividade. Kass citou exemplos de avanços científicos e médicos que ganham velocidade com o apoio da tecnologia. Quando pesquisadores, profissionais e organizações passam a operar com mais capacidade de análise, problemas complexos podem ser enfrentados de outro modo.

Para líderes, essa mudança altera o próprio sentido de competência. Ter informação deixa de ser suficiente. A diferença estará na capacidade de formular boas perguntas, interpretar sinais, escolher prioridades e transformar inteligência disponível em decisões responsáveis.

A segunda oportunidade está na liberação de tempo e energia humana. Muitas organizações ainda consomem uma quantidade enorme de atenção em atividades repetitivas, burocráticas e operacionais. A IA pode assumir parte desse trabalho e abrir espaço para aquilo que depende mais diretamente da presença humana: imaginação, julgamento, sensibilidade, escuta, coragem e qualidade de relação.

Esse ponto exige cuidado. Automatizar sem repensar o trabalho pode apenas dar mais velocidade a rotinas sem sentido. A liderança precisa olhar para a tecnologia como uma oportunidade de redesenho, perguntando onde a automação realmente melhora a vida das pessoas, a experiência dos clientes e a qualidade das decisões.

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A terceira oportunidade é repensar os limites da eficiência. Kass trouxe uma pergunta provocativa: se pudéssemos automatizar quase tudo, onde escolheríamos parar?

Essa questão deveria estar presente nas conversas estratégicas de qualquer organização. O fascínio pela eficiência pode levar a escolhas pobres quando o único critério passa a ser reduzir tempo, custo ou esforço. Há dimensões do trabalho que também produzem vínculo, aprendizagem, pertencimento e senso de contribuição.

A liderança terá de aprender a distinguir automação inteligente de empobrecimento da experiência humana. Essa talvez seja uma das competências mais importantes dos próximos anos.

A palestra também deixou claros alguns riscos.

O primeiro é a perda de pensamento crítico. Quando uma tecnologia passa a responder, escrever, resumir, comparar e recomendar, cresce a tentação de terceirizar o raciocínio. Em ambientes corporativos, isso pode se tornar um problema silencioso: profissionais mais rápidos, documentos mais bem apresentados e decisões aparentemente mais sofisticadas, mas com menor profundidade de reflexão.

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A IA pode ampliar a capacidade de pensar. Também pode reduzir o hábito de pensar quando usada apenas como atalho. Líderes precisarão educar seus times para usar a tecnologia como parceira de investigação, não como substituta da consciência.

O segundo risco é a desumanização. Kass foi bastante enfático ao falar sobre telas, isolamento e perda de convivência. Defendeu a necessidade de reinvestir no mundo físico, nos espaços de encontro, nas cidades, nos parques e na natureza.

Essa mensagem ganha peso por vir de alguém ligado diretamente ao avanço tecnológico. Em um tempo no qual quase tudo passa pela tela, trabalho, estudo, relações, consumo e lazer, existe o risco de naturalizarmos uma vida cada vez mais mediada e menos vivida.

Para as organizações, isso é muito relevante. Cultura não se forma apenas em plataformas. Confiança, colaboração e pertencimento dependem de convivência, presença e conversas reais. A tecnologia pode apoiar relações, mas não deveria substituir o encontro humano que dá sustentação a uma cultura saudável.

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O terceiro risco é o deslocamento de identidade. A discussão sobre IA e trabalho costuma se concentrar no medo da substituição profissional. Esse medo é legítimo, mas há uma camada ainda mais delicada. Muitas pessoas construíram sua identidade em torno do cargo, da função e da carreira. Quando o trabalho muda de forma acelerada, a pergunta deixa de ser apenas sobre renda ou empregabilidade. Passa a tocar também o sentido de quem somos.

Esse ponto exige uma liderança mais madura. Implementar IA será também conduzir uma transição emocional e cultural. Pessoas precisarão aprender novas formas de contribuir, de se reconhecer e de encontrar sentido em um ambiente que muda rapidamente.

Talvez por isso a conversa sobre inteligência artificial precise ser, cada vez mais, uma conversa sobre consciência.

Consciência sobre os hábitos que estamos reforçando. Sobre as capacidades humanas que estamos deixando de desenvolver. Sobre o tipo de produtividade que estamos buscando. Sobre o futuro que estamos ajudando a construir.

No fim da palestra, Kass deixou uma recomendação simples: go outside.

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Vá para fora.

Leve reuniões para fora. Fique com seus filhos. Volte para a natureza. Reaprenda a conviver.

Essa recomendação carrega uma força simbólica importante. Uma pessoa que esteve no centro de uma das maiores revoluções tecnológicas da história recente nos lembra da importância de sair da tela.

Talvez esse seja o ponto.

A IA pode expandir enormemente o que fazemos. A liderança consciente precisará cuidar da direção dessa expansão.

Porque tecnologia poderosa sem consciência pode apenas acelerar padrões antigos.

E o futuro que deixaremos para as próximas gerações dependerá menos da potência das ferramentas e mais da qualidade humana com que escolhermos usá-las.

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