A guerra no Irã pode desencadear uma corrida nuclear no Oriente Médio?

3 abr 2026 - 17h51

Enquanto o Irã é bombardeado, a Coreia do Norte aparentemente se mantém intocável. Um cenário que pode incentivar a proliferação de armas atômicas - especialmente entre nações do já volátil Oriente Médio.Ao lançar sua ofensiva conjunta com Israel contra o Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, argumentou que a ação era necessária para impedir que o país obtivesse uma arma nuclear. No entanto, segundo especialistas, esse tiro arrisca sair pela culatra.

A usina nuclear de Barakah, nos Emirados Árabes Unidos
A usina nuclear de Barakah, nos Emirados Árabes Unidos
Foto: DW / Deutsche Welle

Possuir armas nucleares é amplamente visto como um fator de dissuasão. A teoria é que elas impedem que os inimigos ousem agir contra um país que tem tal armas.

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Analistas citam frequentemente o caso da Coreia do Norte. O país desenvolveu e produziu nas últimas décadas dezenas de ogivas nucleares que, segundo alguns, tornaram a ditadura intocável para ações de atores externos.

A Ucrânia, por sua vez, é encarada como o exemplo oposto. Em 1994, o país aceitou abrir mão do que era então o terceiro maior arsenal nuclear do mundo em troca de garantias de segurança e integridade territorial por parte da Rússia, dos EUA e do Reino Unido. Décadas depois, alguns analistas observam que, se Ucrânia tivesse mantido essas armas, a Rússia não teria ousado invadi-la.

"Latência nuclear" já não é suficiente

Antes do conflito, o Irã era descrito como um país em "latência nuclear", estágio que ocorre quando uma nação possui todos os meios tecnólogicos, experiência e capacidade técnica para para produzir rapidamente uma arma nuclear, mas sem ter dado efetivamente o passo decisivo de fabricar ogivas.

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"Durante anos, o Irã manteve uma ambiguidade estratégica, permanecendo logo abaixo do limiar de uma bomba para evitar os mesmos ataques que agora ocorrem", avaliou a cientista política Rupal Mehta no início de março. "A nova liderança de Teerã enfrenta um cálculo sombrio: embora a busca por armas nucleares fosse perigosa, não ter concluído uma bomba foi um erro fatal."

Nesta semana, alguns políticos iranianos afirmaram que o país poderia se retirar do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), criado em 1968 para impedir a disseminação de armas nucleares e que conta com 191 países-signatários.

No mundo, apenas quatro países-membros da ONU nunca assinaram o TNP: Índia, Paquistão, Sudão do Sul e Israel. A Coreia do Norte abandonou o tratado em 2003. Israel, por sua vez, é o único país do Oriente Médio com um arsenal nuclear, embora o país nunca tenha declarado oficialmente sua existência.

Agora, mudanças no quadro de segurança provocadas pela guerra no Irã também arriscam levar outros países da região, especialmente Estados árabes do Golfo Pérsico, a contemplar o desenvolvimento de armas nucleares.

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"Há uma série de fatores que empurrarão os países do Golfo na direção das armas nucleares", afirma Kelsey Davenport, diretora de políticas de não proliferação da Associação de Controle de Armas, com sede em Washington.

Os países do Golfo estão agora no fogo cruzado das ambições hegemônicas concorrentes do Irã e de Israel e perderam, pelo menos parcialmente, a confiança em suas alianças com os EUA.

"No entanto, ainda é improvável que algum desses países corra imediatamente atrás de uma bomba. Existem obstáculos técnicos e políticos significativos que qualquer país da região precisaria superar se desejar se armar."

Na avaliação de Davenport, os líderes dos países do Golfo devem esperar o fim do conflito para ver o que vai acontecer com o regime iraniano e seu programa nuclear. "Mas certamente esse conflito vai impulsionar o debate sobre a necessidade de armas nucleares para a segurança."

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Quem pode querer armas nucleares?

A Arábia Saudita deu os primeiros passos rumo a um possível estado de latência nuclear no ano passado. O líder saudita Mohammed bin Salman já havia afirmado anteriormente que, se o Irã produzisse uma bomba nuclear, a Arábia Saudita precisaria ter uma também. Após visitar os EUA em novembro, Bin Salman conseguiu, segundo algumas fontes, firmar um acordo de cooperação nuclear que permitiria ao seu país enriquecer urânio.

Mas qualquer acordo desse tipo com a Arábia Saudita teria que ser aprovado primeiro pelo Congresso dos EUA, explica Nour Eid, pesquisadora e autora de diversos artigos sobre ambições nucleares no Oriente Médio.

Quase todos os 26 acordos de cooperação nuclear que os EUA mantêm - que contemplam mais de 50 países - possuem um "protocolo adicional" que reforça o papel da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Esse protocolo dá à AIEA um maior poder de supervisão sobre as atividades nucleares de um país. Segundo Eid, embora ainda não tenha sido oficialmente confirmado, o governo Trump tem manobrado para expandir sua cooperação com os sauditas por meio de um acordo bilateral de salvaguardas, contornando o "protocolo adicional".

"Isso contraria todos os precedentes", afirmou Robert Kelley, ex-diretor da AIEA, à rede Bloomberg nesta semana. "A ideia de que o governo esteja disposto a dar à Arábia Saudita a capacidade de fazer exatamente aquilo pelo qual o Irã está sendo bombardeado soa hipócrita."

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Ainda assim, aponta Eid, os sauditas ainda levarão entre 10 e 20 anos para desenvolver energia nuclear, sem falar em armas. Há também outros problemas, como a falta de mão de obra qualificada. No momento, a pesquisadora acredita que os sauditas ainda encaram potenciais projetos nucleares principalmente como uma fonte de energia doméstica.

Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, já possuem uma usina nuclear, a Barakah, com quatro reatores. Quando os emiradenses assinaram um acordo nuclear com os EUA em 2009, eles concordaram com o protocolo adicional e em renunciar ao enriquecimento e ao reprocessamento de urânio.

Segundo Eid, os Emirados Árabes Unidos sempre encararam a capacidade nuclear mais como uma questão de prestígio do que como uma ambição militar, tornando-se primeira nação árabe a desenvolver essa forma de energia. "Mas há uma cláusula no acordo deles, uma cláusula verbal não incluida no texto final, que diz algo como 'se um país vizinho conseguir um acordo mais flexível, então eles [os Emirados Árabes Unidos] se reservam o direito de renegociar seus termos'", explica a pesquisadora.

Eid observa que parte da razão para o acordo de cooperação nuclear saudita ter sido mais flexível em 2025 provavelmente se deve à competição dos EUA com a China e a Rússia, os principais fornecedores de reatores nucleares globalmente. Trump prometeu repetidamente revitalizar o setor nuclear dos EUA e nos últimos anos os acordos nucleares que diversos países firmaram com a Rússia ou a China tendem a ter condições menos rigorosas e mais incentivos financeiros interessantes, explica Eid.

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Outros países do Oriente Médio que poderiam caminhar para o desenvolvimento de capacidade nuclear incluem o Egito e a Turquia, aponta Kelsey Davenport, da Associação de Controle de Armas.

Em cooperação com a Rússia, o Egito está construindo um reator nuclear na costa do Mediterrâneo. No entanto, segundo observadores, o Egito, que oficialmente defende a ideia de um Oriente Médio livre de armas nucleares, enfrenta dificuldades financeiras e provavelmente não teria condições de converter seu programa de energia nuclear para um projeto de armamentos.

Já a Turquia está atualmente desenvolvendo um programa de energia nuclear com a Rússia e pode em breve começar a cooperar com a China também, observa Eid. "Mas não vejo por que eles colocariam a comunidade internacional contra si apenas para adquirir armas nucleares", destaca. "Sua indústria de defesa convencional está se desenvolvendo bem e recebendo muito reconhecimento."

A Turquia também é membro da Otan e, na prática, já está incluída sob o "guarda-chuva" nuclear da aliança militar, que tem entre seus membros três países com armas atômicas: EUA, França e Reino Unido.

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Como impedir a proliferação nuclear?

Também é importante analisar o panorama geral da não proliferação, acrescentou Davenport. "Não é do interesse da China nem da Rússia permitir que o regime de não proliferação entre em colapso total", avalia. "Se ampliarmos o olhar para além do Oriente Médio, alguns dos países com maior probabilidade de desenvolver armas nucleares estão bem próximos da China — como a Coreia do Sul e o Japão."

Embora a Rússia e a China possam fornecer materiais e tecnologias para ajudar na fabricação de armas nucleares, e sob regras menos rigorosas do que as que os EUA tiveram no passado, os dois países não têm interesse na assistência ativa, segundo Davenport.

"O mais provável é que os países do Golfo tentem explorar as divisões entre os EUA e a Europa, de um lado, e a Rússia e a China, do outro, para minimizar as consequências de chegar ao limiar das armas nucleares", acrescenta Davenport.

Para evitar mais armas nucleares, o diálogo regional é a resposta, enfatiza. "Não tenho ilusões de que, após o conflito, o diálogo sobre segurança regional será facilitado ou se tornará mais direto", conclui Davenport. "Mas essa ainda é a melhor opção para impedir que os países decidam que os dissuasores nucleares são vitais."

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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