A criatura além do criador: o bolsonarismo resistirá depois de Jair Bolsonaro?

Pesquisadores de Ciência Política procuram entender se o bolsonarismo se consolidou ou não como um movimento de extrema direita no Brasil, e trazer pistas sobre se o projeto político associado a Bolsonaro tem forças para sobreviver às suas próprias derrotas eleitorais

26 mar 2026 - 11h18

Desde a ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, quando poucos eram os que acreditavam na sua vitória, cientistas políticos vêm buscando entender o papel do ex-presidente na construção de uma nova direita, mais extrema, no Brasil. Ou mesmo tentando mapear a existência do fenômeno que passou a ser conhecido como "bolsonarismo". Oito anos depois, mesmo após sua derrota eleitoral em 2022 e com sua prisão, o que se nota é que o bolsonarismo continua sendo uma das forças centrais que estruturam o debate político no país. Para além de um episódio ligado a Bolsonaro, ele parece representar uma transformação mais duradoura no modo como a direita brasileira se organiza e mobiliza eleitores.

No artigo publicado este ano por nós, autores deste texto, e por Eduardo Ryo Tamaki no Journal of Politics in Latin America, "Beyond Electoral Fortunes: The Consolidation of a Far-Right Alignment in Brazil", buscamos analisar justamente este processo. Ou seja, tentamos entender se o bolsonarismo se consolidou - ou não - como um movimento de extrema direita no Brasil.

Publicidade

Essa informação, para além de sua própria relevância, ajuda a trazer pistas sobre se o projeto político associado a Bolsonaro tem forças para sobreviver às suas próprias derrotas eleitorais e na Justiça.

Com esse objetivo, nossa pesquisa partiu de duas questões principais: quais grupos sociais continuaram apoiando Bolsonaro entre 2018 e 2022 e se o bolsonarismo produziu um alinhamento ideológico duradouro, capaz de ultrapassar a trajetória eleitoral individual do ex-presidente. Uma pergunta parecida a essa já vinha sendo feito quando se tratava do próprio presidente Lula, ou seja, se os votos eram dele ou do seu grupo (e, portanto, poderiam ser dados a outros candidatos da centro-esquerda).

Fontes e dados

Para entender este fenômeno, foram utilizados dados de duas pesquisas de opinião pública: o Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), da Unicamp, e a Face da Democracia, de um consórcio entre UFMG, UnB e IESP-Uerj.

Com base nessas informações, analisaram-se três dimensões complementares. Primeiro, os padrões de volatilidade eleitoral nas últimas duas décadas, ou seja, como e se as pessoas mudam seus votos. Depois, as avaliações afetivas que eleitores fazem de candidatos de direita. Por fim, foi usado um método de decomposição das mudanças eleitorais entre 2018 e 2022 para entender como diferentes grupos sociais e posições ideológicas contribuíram para a variação do apoio político.

Publicidade

No senso comum, muito se especulava que a derrota de Bolsonaro seria uma evidência de que a direita não teria capacidade de aglutinar os votos apenas ao redor de preferências mais conservadoras. No entanto, os resultados mostraram que, apesar da derrota de Bolsonaro em 2022, o apoio eleitoral conservador se consolidou de forma nunca antes vista. Nas eleições daquele ano, 91,9% dos eleitores que haviam votado em Bolsonaro no primeiro turno mantiveram esse voto no segundo turno. Esse nível de fidelidade representa uma ruptura clara com o padrão histórico da direita brasileira. Em 2002, os votos retidos foram de 62%. Desde então, eles vêm aumentando em todas as eleições presidenciais, alcançando os mais de 90% de 2002.

Essa estabilidade eleitoral está associada a uma dimensão emocional. Entre eleitores de direita, as avaliações afetivas (consideradas na ciência política aquelas mais relacionadas a preferências emocionais que preferências de política pública) em relação a Bolsonaro alcançaram níveis bem maiores quando comparadas aos de outras candidaturas conservadoras. E mesmo após a derrota de 2022, os níveis se mantiveram relativamente altos.

Bloco político coeso

O resultado dessa combinação é que acabou se formando um bloco político relativamente coeso. Isso faz com que, diferentemente de candidaturas conservadoras que precisavam convencer eleitores mais ao centro durante a campanha, o bolsonarismo passou a operar como um campo ideológico mais independente.

Para além desses achados, é importante mencionar que essa consolidação não está restrita a um perfil sociodemográfico. Embora Bolsonaro tenha ampliado seu apoio entre grupos como evangélicos, negros, classe média e pessoas com maior escolaridade, o elemento mais importante é a mudança na ideologia do seu eleitorado. Em diferentes temas, grupos com posições conservadoras passaram a representar uma proporção maior dos votantes.

Publicidade

Na prática, isso acaba gerando um alinhamento conservador que combina três dimensões principais: conservadorismo social, liberalismo econômico e preferências por formas mais autoritárias de governo. A convergência dessas agendas ajuda a explicar por que o bolsonarismo conseguiu reunir setores antes dispersos da direita brasileira dentro de um mesmo projeto político.

Bolsonarismo para além de Jair: força política permanecerá relevante

Dessa forma, o bolsonarismo não deve ser entendido apenas como um fenômeno encrostado no ex-presidente Jair Bolsonaro ou como algo transitório. Ele pode ser efeito de um movimento duplo que foi capaz de mobilizar eleitores que já tinham posições conservadoras, mas com o papel da liderança política contribuindo para moldar novas atitudes e preferências desse grupo de apoiadores. Lideranças como Javier Milei, na Argentina, e Nayib Bukele, em El Salvador, evidenciam como figuras políticas extremistas podem reorganizar o debate público a partir de sua chegada.

Outra evidência importante diz respeito à distribuição ideológica do apoio eleitoral. Em 2022 houve aumento geral da participação eleitoral em diferentes posições ideológicas, mas os ganhos de Bolsonaro ficaram concentrados entre eleitores posicionados na extrema direita. Ao mesmo tempo, ele perdeu apoio entre eleitores mais moderados, tanto à esquerda quanto à direita. Não se pode deixar de mencionar que os dados indicam também aumento da insatisfação com a democracia crescimento de atitudes autoritárias.

De tudo isso, podemos inferir que o bolsonarismo - ou essa aglutinação de preferências por ele iniciada - permanece como uma força política relevante e provavelmente continuará influenciando o sistema partidário nos próximos anos. Dessa maneira, ele não pode ser entendido apenas como um fenômeno eleitoral passageiro, centrado em uma pessoa, uma vez contribuiu para reorganizar a política brasileira ao consolidar um bloco conservador relativamente coerente, no qual diferentes agendas ideológicas passaram a se reforçar mutuamente.

Publicidade

Ou seja, mesmo que Bolsonaro saia completamente da disputa, as transformações produzidas por esse processo tendem a continuar moldando a política brasileira ao menos por alguns anos.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Lucio Rennó é afiliado à Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP).

Thiago Moreira da Silva é afiliado à Associação Brasileira de Ciência Política.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações