De enfermeira envolvida em uma trama macabra a uma bailarina em uma renomada companhia de dança, Aretha Sadick já deu vida a essas e muitas outras personagens na televisão, no cinema e nos palcos de teatro e de performances. Natural de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, a artista, de 34 anos, sonha em ter uma carreira ainda mais diversa e enxerga na arte uma possibilidade de cura para si mesma e para o público.
- Essa reportagem faz parte da série Nós Somos Potência, em que pessoas trans de destaque em diversos setores da sociedade contam suas histórias, vivências, dificuldades e conquistas
"Se as personagens podem ser complexas, se elas podem ser divertidas, se elas podem ser apaixonadas, isso, para mim, é um grande espaço de cura. Uma das coisas mais importantes para mim, como transformação do espaço artístico, como lugar de cura, é poder criar personagens diversos para que a gente possa ter imaginários diversos sobre a vivência trans", diz Aretha em entrevista ao Terra.
No trabalho como atriz, Aretha quer mostrar ao público que pessoas trans podem ser muito mais do que estereótipos e da maneira como foram retratadas ao longo de anos. Como exemplo, ela cita Camila, personagem que interpreta na série Reencarne, do Globoplay, uma enfermeira que ajuda um cientista em experimentos macabros para salvar a esposa dele da morte.
"Durante muitos anos na trajetória do audiovisual, o que a gente teve era o sofrimento de mulheres trans e travestis na tela. Poder fazer a Camila, que o drama dela era com a mãe, a dificuldade da relação com a mãe. Não era a transgeneridade em primeiro lugar, mas a humanidade da Camila que era importante. Ao ampliar o imaginário de quem assiste, acredito que curo, de alguma forma, a quem assiste e a mim mesma" -- Aretha Sadick em entrevista ao Terra
Além da série do Globoplay, Aretha também está em Cidade de Deus: A Luta Não Para, da HBO Max, nos filmes Vítimas do Dia, Ayô e em outros trabalhos no cinema e teatro. Em sua trajetória profissional, ela busca trabalhos diferentes e em que possa mostrar novas facetas.
Um exemplo disso é o sonho que ela tem para o futuro: o de poder protagonizar uma comédia romântica, no estilo mais clássico possível e água com açúcar, sem conflitos por ser trans. "Olha que coisa maravilhosa, onde o único problema é conquistar o amor no final."
"O mercado diz que é importante que você faça alguma coisa por muito tempo do mesmo jeito, é tipo um bordão. Você repete aquele bordão por muitos anos para que as pessoas te entendam. Quando você se predispõe a fazer coisas muito diferentes de tempos em tempos, o mercado tem dificuldade de assimilar isso", pondera.
Porém, Aretha Sadick busca inspiração em Madonna, uma artista que "de tempos em tempos se reinventa e vai criando eras, se aprofunda nisso, abandona aquilo e depois pega de volta, porque nunca nada fica para trás e se perde totalmente."
Ela pontua que atualmente é a única atriz trans e negra retinta com reconhecimento no Brasil e que toda personagem que ela fizer terá essa identidade também. "Cada trabalho demanda uma coisa, mas, às vezes, é muito pautado em uma realidade, e às vezes a gente quer poder se distanciar e fabular formas de ser e existir, mas sempre sendo uma pessoa preta e trans, pois isso é indissociável de quem sou e do que se vê no mundo. É abraçar essa complexidade e, nas frestas, achar maneiras de pulsar encantamento e vida. Para mim, esse é o papel da arte", conclui Aretha.