Opinião: raça e capitalismo interferiram no caso Juliana Marins?

Quanto mais informações chegam sobre o caso, mais se percebe que o tratamento dado a Juliana foi negligente

27 jun 2025 - 15h17
Juliana Marins, brasileira que precisou de resgate após queda durante trilha em vulcão na Indonésia
Juliana Marins, brasileira que precisou de resgate após queda durante trilha em vulcão na Indonésia
Foto: @ajulianamarins via Instagram / Estadão

No mundo globalizado, existem poucos inocentes. Não há espaço, na grande maioria das vezes, para a coincidência. O fato de Juliana Marins ser uma pessoa negra, brasileira, deve ter interferido na forma como ela foi tratada antes mesmo de o acidente acontecer.

É sabido que a região é muito pobre e que o turismo dos vulcões é parte importante para a economia da Indonésia; logo, a necessidade de cumprir o horário dos passeios para pegar outros grupos de turistas, ou coisas nesse sentido, fazem parte do descaso sofrido por Juliana.

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Segundo relatos de pessoas que opinaram sobre o local em sites de viagem, o passeio é bem complicado. Tem momentos em que a caminhada passa a ser escalada, que a temperatura cai drasticamente durante o pôr do sol, e o percurso demanda um preparo físico imponente para completar a trilha sem maiores problemas. Esse tipo de reclamação nos sites é comum porque, segundo quem comenta, na maioria das vezes, não é comunicado por ninguém esse tipo de situação.

Pelo que se sabe, Juliana teria ficado exausta durante a trilha e o guia a teria mandado aguardar, enquanto seguia o percurso, ou seja, a abandonou lá. Depois de um tempo, ele parou para esperá-la e, ao notar que ela não chegou, foi em busca da carioca. Acredito que nesse meio tempo ocorreu o acidente com Juliana, que alguns dias depois teria caído ainda mais. Segundo a autópsia, a brasileira teve um trauma grave no tórax, que originou uma hemorragia e faleceu 20 minutos após uma queda.

É fato que outras pessoas já morreram nesse mesmo vulcão, mas o guia não ter uma corda de 150 metros em um vulcão gigante como esse, deixá-la para trás, seguir trilha sem ela, além da demora do resgate e a falta de tentativa de mandar comida, água, agasalhos para ela via drone, me fazem questionar se havia um real incômodo com a queda da Juliana. A pergunta que fica na minha mente é se um turista branquinho, estadunidense, teria esse mesmo tratamento pautado pelo descaso.

Advogada que fez a mesma trilha que Juliana Marins detalha perigos da escalada
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O mundo é globalizado. Pessoas da cor da Juliana não são vistas em canto nenhum como uma pessoa que vale o risco, entende? Posso estar muito equivocado, mas isso é o que paira na minha mente hoje. É como se pessoas negras, independentemente de onde estejam, fossem pessoas descartáveis, no sentido de que a baixa manutenção do cuidado não trará consequências graves. Um loiro, inglês de sobrenome pomposo faria com que as pessoas gastassem mais tempo e energia para o resgate. Não que a morte não fosse evitada, mas os esforços seriam outros. Por medo de retaliação, por maior empatia ou por possível recompensa.

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A gente pensa que branco só tem privilégio no Brasil, mas esquecemos que os brancos seguem colonizando partes do mundo e que o fenótipo deles, sobretudo na era da cibercultura, ainda é o que está em destaque nos espaços de poder. Ainda que brasileiro, um cara branco nas condições da Juliana carregaria uma outra empatia e um outro medo de terceiros de consequências. Repito, não só pela possibilidade do salvamento em vida, mas em todo o processo de remoção do corpo, autópsia e entrega para a família.

Eu, enquanto pessoa negra brasileira, morro de medo de viajar para locais onde dependeria de mais empatia das pessoas em caso de problemas de saúde. Penso em viagens para grandes centros, nunca só e com possibilidades que não dependam de terceiros, sobretudo locais. Com isso não estou responsabilizando a Juliana Marins pela sua morte, muito pelo contrário, estou dizendo que o cuidado com gente branca do norte global é diferenciado.

Fica nítido que para alguns ter condições de acessar não é suficiente pois ainda assim há outros riscos que o acesso não protege. A queda poderia ter sido evitada, as informações do local poderiam ser mais bem explicadas, a forma como trataram a família, inclusive dando informações falsas sobre entrega de mantimentos, poderia ser diferente e, sobretudo, o resgate poderia ter sido feito com muito mais antecedência, inclusive podendo ter evitado o deslizamento por mais do que os 300 metros iniciais.

A globalização exportou e possibilitou o acesso das pessoas a muitas coisas, inclusive aos preconceitos, e nessa exportação fica o questionamento de quem merece ajuda integral e quem merece atenção parcial.

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Fonte: Luã Andrade Luã Andrade é criador de conteúdo digital na página do Instagram @escurecendofatos. Formado em comunicação social e membro da APNB. Luã discute questões étnico raciais e acredita que o racismo deva ser debatido em todas as esferas da sociedade. As opiniões do colunista não representam a visão do Terra.
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