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"Cripface é mais uma prática capacitista normalizada"

4 set 2026 - 17h22
Resumo
A ausência de atores com deficiência no musical "Feliz Ano Velho" reacendeu o debate sobre o "cripface", prática de escalar artistas sem deficiência para esses papéis. Em entrevista, o escritor e ativista Paulo Fabião condena a prática como capacitismo normalizado, comparando-a ao blackface. Ele denuncia a falta de acessibilidade que afasta profissionais dos palcos e refuta a ideia de que limitações físicas impeçam atuações de destaque, apontando o preconceito como a verdadeira barreira.

Paulo Fabião é jornalista e escritor, com três livros publicados, além de ativista e palestrante. A convite do blog Vencer Limites (Estadão), ele fala sobre a presença e participação de artistas com deficiência em produções culturais. "Dizer que pessoas com deficiência não podem cantar ou dançar é o mesmo que dizer que negros não podem ser médicos ou gerentes de banco. Não tem lógica, só preconceito", diz.

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A ausência de atores com deficiência para viverem o papel de Marcelo Rubens Paiva, que é tetraplégico e personagem central do espetáculo musical 'Feliz Ano Velho', com estreia prevista para 19/9 em São Paulo, reabriu as discussões sobre o 'cripface'.

Para ampliar o debate, o blog Vencer Limites (Estadão) procurou representantes do setor cultural, gente com e sem deficiência, e pediu opiniões a respeito da prática de escalar atores ou modelos sem deficiência para interpretar personagens com deficiência em filmes, séries, peças ou propagandas.

Laís Vitral, curadora e idealizadora do Acessa BH, diz que "o debate sobre o cripface levanta uma questão legítima de representatividade e acesso a oportunidades" (leia a reportagem completa).

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Quem também opina é Paulo Fabião, jornalista e escritor, autor de 'Capacitismo em toda parte o tempo todo' e 'Crônicas de um humorista fracassado', ambos lançados em 2026 pela editora Uiclap, e de 'O Incluso', da editora Kotter, em 2020.

"Eu me autodenomino 'ex-comediante' porque eu não exerço mais o ofício da comédia, mas não é porque eu quis, não foi uma opção minha, não fui que eu parei com a comédia, foi a comédia que parou comigo por falta de acessibilidade nos espaços", afirma Fabião. "Tem muito espaço que é até acessível para ir, mas não para a pessoa com deficiência subir no palco. Então, se eu fazia um show sobre falta de acessibilidade, não fazia sentido eu falar isso num lugar em que tive que ser carregado para fazer esse show", diz.

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blog Vencer Limites (Estadão) - Há pessoas com deficiência, cadeirantes, que permitem serem carregadas porque isso também funciona como um protesto, para mostrar que aquele lugar não é acessível. Qual é a sua avaliação?

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Paulo Fabião - Não posso falar por todos, mas boa parte das pessoas que falam isso, que preferem serem carregadas em forma de protesto, sabem que se reclamarem de acessibilidade, as portas serão fechadas. Elas preferem continuar trabalhando, sendo carregadas, do que não trabalharem. Para mim, passou a não fazer mais sentido depois de um determinado período. E falar que você prefere ser carregado acaba sendo cômodo porque vão pensar: quantas pessoas com deficiência que precisam de acessibilidade frequentam o local? Uma, duas, três. Então, é melhor carregar do que do que ter acessibilidade, porque isso ainda é visto como gasto, não como em investimento. E tem a questão do risco físico porque, sendo carregado, você pode cair, sofrer um acidente, o que é pior ainda.

blog Vencer Limites (Estadão) - Qual é a sua opinião sobre a prática do cripface, quando personagens que têm deficiência são vivenciadas por artistas que não são pessoas com deficiência, mas simulam as deficiências da personagem no palco, no cinema, na TV?

Paulo Fabião - Cripface é mais uma prática capacitista normalizada. Além da questão da representatividade e, principalmente das oportunidades de trabalho, algo bem escasso para pessoas com deficiência, deficiência é uma característica que não se interpreta.

Cripface tem esse nome justamente porque é equivalente ao blackface, com atores brancos fazendo papel de personagens negros, só que o blackface é corretamente condenável e condenado no meio artístico, mas o cripface é aceito. A existência do cripface se justifica pela mesma lógica antiga das pessoas que faziam blackface, de que não existiam atores negros qualificados, o que era mentira.

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Tem também a negligência de não querer procurar atores com deficiência.

blog Vencer Limites (Estadão) - Atrizes e atores que são pessoas com deficiência podem ser chamados para viver personagens que têm deficiência ou isso mantém e fortalece um estereótipo? Escalar atrizes e atores com deficiência apenas para personagens que, necessariamente, não seriam pessoas com deficiência é uma maneira de quebrar estereótipos ou isso é um capacitismo? Essa escolha tem que ser da atriz e do ator ou de quem escala o elenco?

Paulo Fabião - Deficiência é uma característica que não se deve interpretar. Ninguém melhor do que atores com deficiência para fazerem personagens com deficiência, porque não é uma questão de interpretação, mas de algo natural do corpo. A deficiência, quando interpretada, mesmo em produções sérias, acaba virando chacota, quase um deboche.

blog Vencer Limites (Estadão) - É válido o argumento de que artistas com deficiência não podem vivenciar determinadas personagens porque as características físicas desse artista causadas pela deficiência não permitem a performance exigida? Por exemplo, cantar em um espetáculo musical no teatro?

Paulo Fabião - É só ver exemplos, aqui mesmo no Brasil. Nós temos o Edu O., que é um mestre em dança. Tivemos o Nelson Ned, cantor com desplasia, já falecido, uma das maiores vozes do nosso País.

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Dizer que pessoas com deficiência não podem cantar ou dançar é o mesmo que dizer que negros não podem ser médicos ou gerentes de banco. Não tem lógica, só preconceito mesmo, um desconhecimento absurdo.

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