Carmo Dalla Vecchia caminha para os 21 anos de casamento com o autor de novelas João Emanuel Carneiro, mas eles não imaginavam um cenário que a família pudesse aumentar durante boa parte dessas quase duas décadas. Hoje, o casal tem o filho Pedro, de 6 anos, que o ator descreve como um menino doce, gentil e estável emocionalmente, ao contrário do que diziam algumas suposições homofóbicas que ele já ouviu desde que se tornou pai.
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Em entrevista concedida ao Terra para este Dia dos Pais, Carmo relembrou que vislumbrou a possibilidade de ter um filho com João quando viu o exemplo de Elton John, artista que sempre admirou e que teve o primeiro filho com o marido em 2010.
"Passaram alguns anos, a gente investigou, fizemos uma viagem para fora do Brasil e fomos a uma clínica. A gente perguntou, questionou, conheceu casais que tinham feito o que queríamos fazer, sentamos com casais homossexuais diferentes para perguntar. A gente promoveu esses encontros com outras pessoas depois que nos tornamos pais também", conta.
O ator recorda que outro comentário que costumava ouvir com a paternidade era sobre possíveis situações de preconceito que o filho pudesse enfrentar. Porém, isso acabou não se comprovando na realidade. Os momentos de homofobia que eles enfrentaram aconteceram no ambiente familiar.
"Às vezes, o preconceito vem da família. Meu filho nunca passou por preconceito na escola ou em qualquer lugar que ele tenha ido. As pessoas falam: 'E o dia que ele perguntar pela mãe?'. Elas não percebem que estão botando a homofobia para fora com esse comentário."
Carmo conta que o dia que Pedro perguntou sobre a mãe foi muito mais simples e corriqueiro do que as pessoas imaginam. "Estava fazendo fisioterapia com o meu filho do lado. Ele perguntou: 'Papai, eu não tenho mãe?'. Eu disse: 'Não, tem famílias que têm dois pais, que têm um pai e uma mãe. Você é de dois pais.Tem mais alguma coisa que você gostaria de me perguntar?'. Ele disse que não. Nossa, me falaram que esse momento seria algo tão sério."
Ser pai curou traumas
Passados seis anos do nascimento de Pedro, Carmo enxerga o filho como um menino gentil, carinhoso e solar, do tipo que presenteia os pais com desenhos, flores e cartões. Ao mesmo tempo, tem aprendido cada vez mais com o amadurecimento do menino. Na visão do artista, "um filho para pessoas espertas serve como psicanálise."
No caso dele, a chegada de Pedro serviu para curar traumas antigos que tinha com o próprio pai. "Tive um pai muito distante da minha vida. Desde o primeiro momento que o meu filho nasceu já foi diferente. Ao mesmo tempo, tinha a preocupação de não ser diferente igual. Por exemplo, se o meu pai foi ausente, posso me tornar um pai superprotetor, que é a mesma energia, só que ao contrário."
O ator conta que esse foi um assunto que discutiu muito em terapia assim que decidiu que seria pai e comenta que esse é um dos privilégios de uma relação homoafetiva. Como casais homoafetivos geralmente não correm o risco de engravidar por acidente, a decisão de ter um filho costuma ser mais planejada, o que pode dar mais estrutura para a criança.
"A chance de ter sido uma criança planejada com uma vida mais ou menos arquitetada é maior. Geralmente, essas crianças tendem a ter uma rede de apoio e uma qualidade de vida melhor. Tive a sorte de não precisar tirar meu filho de casa antes dos seis meses se não fosse para tomar sol ou para dar uma qualidade boa de vida. Ele foi preservado."
A vida em família
Para Dalla Vecchia, outro ponto que faz a patenidade funcionar bem no caso dele e de João Emanuel Carneiro é o fato dos dois se complementarem. Enquanto o ator é bom em gerenciar tarefas práticas, o autor de Avenida Brasil, A Favorita e outros sucessos assume o lado brincalhão.
"O João é o rei da brincadeira, ele é mais lúdico. Eu sou o mais prático, que sabe dos aniversários, do que está faltando na cozinha, do pediatra. Sento para ler um livro com ele e ver um filme, mas brincar é com o João."
Com o contato frequente com os pais, Carmo conta que Pedro também acabou pegando alguns traços da personalidade de cada um. "Ele carrega gostos por coisas diferentes como eu. Gosto de bandas diferentes, de coisas que ninguém viu. Já do João, ele pega um gosto apurado por alimentos. O Pedro é um garoto com um paladar muito apurado. Acabo percebendo a mistura de um e de outro."
Transformado após se tornar pai, Carmo elenca a maior lição que aprendeu com o filho. "É esse amor que não espera nada em troca. Esse amor de doação. Vou fazer isso porque tô a fim. Vou abrir mão de comprar tal coisa para mim para comprar para ele porque tô a fim. Não vou ter oportunidade de ter esse tempo para mim, vou deixar de fazer as coisas que eu gosto no meu dia a dia para cuidar dele porque eu tô a fim. Isso não vai ser um problema. Esses aspectos do amor que são os mais bonitos", conclui.