Trânsito brasileiro mata mais que guerras e sabemos o que fazer para impedir

País registrou 37.150 mortes em 2024, número que aumenta sem parar. Homens jovens de moto são as principais vítimas, e especialistas apontam velocidade, álcool e fiscalização ineficiente como principais motivos

20 set 2026 - 15h02
Resumo
O trânsito brasileiro matou 37.150 pessoas em 2024, superando fatalidades de guerras como a da Ucrânia. A tragédia atinge principalmente motociclistas e idosos pedestres, impulsionada por excesso de velocidade, consumo de álcool e infraestrutura urbana inadequada. Pela primeira vez, o Nordeste liderou em mortes absolutas, superando o Sudeste. Sem reformas no desenho viário e fiscalização, o país descumprirá a meta legal de reduzir pela metade essas mortes evitáveis até 2028.

A invasão russa na Ucrânia já entra em seu quinto ano e, desde fevereiro de 2022, o conflito já levou à morte de 17,2 mil cidadãos do país europeu, segundo dados da ONU. O trânsito brasileiro matou mais que o dobro em muito menos tempo: 37.150 mortes em 2024, de acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.

São 102 vidas por dia, uma a cada 14 minutos. Números ainda mais preocupantes quando visto que, de 2022 a 2024, os três primeiros anos da guerra, o asfalto brasileiro foi palco cerca de 106 mil mortos — seis vezes o total de civis falecidos em todo o conflito.

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"Nosso sistema de mobilidade mudou mais rapidamente do que nossa política de segurança viária", diz Guimarães. "Não se resolve a mortalidade de motociclistas simplesmente dizendo ao motociclista para 'ter cuidado'. É necessário redesenhar o sistema considerando que milhões de brasileiros se deslocam sobre duas rodas e praticamente sem proteção física."

Quase tão grave quanto a questão dos motociclistas, entretanto, é a exposição de pedestres, principalmente idosos, aos riscos do tráfego. Isso porque os transeuntes com mais de 60 anos representaram um terço dos pedestres mortos nos últimos levantamentos.

É algo que o sociólogo Eduardo Biavati, especialista em segurança viária, já vem alertando: "nós ainda não damos a devida atenção para a vulnerabilidade dos pedestres", afirma. "O país envelhece, lembra ele, e os atropelamentos de idosos crescem em todas as capitais. Falta calçada para a criança. Então, você imagina, a calçada que falta para a criança é a mesma que falta para um idoso."

Outro fator que já atrai a lupa de especialistas é o fato de que, em 2024, o Nordeste ultrapassou o Sudeste em mortes absolutas pela primeira vez na série iniciada em 2010: 11.894 contra 10.995, segundo a Vital Strategies, com dados do Ministério da Saúde. Isso ainda que a região nordestina tenha uma frota que não chega à metade dos veículos do sudeste.

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Entre 2023 e 2024, as mortes cresceram 15,7% no Norte e 11,6% no Nordeste. O Centro-Oeste, por sua vez, tem a taxa mais alta, 24,5 mortes por 100 mil habitantes; o Sudeste, a menor, 12,4.

Velocidade, álcool e a sensação de vigilância

Ao analisar o cenário crítico brasileiro, Biavati associa a tragédia a três fatores, em linha com o apontado pelo ONSV. "Em primeiro lugar, velocidade. Se tudo acontecesse a velocidades menores, nós não teríamos o número crescente de mortos que a gente tem registrado nos últimos anos."

O país tem até 2028 para prestar contas da meta que fixou em lei, e os dados de 2025 ainda são preliminares. Se a tendência se mantiver, o Brasil chegará ao prazo com mais mortes do que tinha quando prometeu reduzi-las pela metade.

Como resume Guimarães, trata-se de "um sistema que ainda tolera energia, velocidade e conflitos incompatíveis com a fragilidade do corpo humano".

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