O relatório IRIS 2026, do Observatório Nacional de Segurança Viária, aponta grandes disparidades na segurança do trânsito no Brasil. O Distrito Federal lidera o ranking geral de prevenção e gestão, enquanto o Amazonas tem o pior desempenho. O estudo destaca que a fiscalização e a infraestrutura variam fortemente entre os estados e adverte que a escassez de dados oficiais e a baixa integração dos municípios ao sistema nacional comprometem diagnósticos confiáveis e ações preventivas eficazes.
A segurança no trânsito brasileiro muda significativamente de um Estado para outro. É o que mostra a edição 2026 do Indicadores Rodoviários Integrados de Segurança (IRIS), elaborado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV). O levantamento compara dados de 2024 e permite observar a evolução em relação aos indicadores de 2023.
Mais do que contabilizar mortes, o estudo procura medir a estrutura disponível para prevenir sinistros e reduzir sua gravidade. Para isso, considera os seis pilares do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans) e acrescenta um sétimo, dedicado especificamente aos indicadores de mortalidade. Os resultados são transformados em notas e classificações de uma a cinco estrelas.
O resultado revela diferenças expressivas entre as Unidades da Federação. O Distrito Federal aparece na primeira posição da classificação geral, com quatro estrelas, seguido por Rio de Janeiro, com 3,9, e Goiás, com 3,8. São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Ceará aparecem com 3,4 estrelas. Na outra ponta estão Maranhão, com 2,1, Acre e Amapá, ambos com 2,0, e Amazonas, com 1,9.
Apesar de o mapa do estudo mostrar uma concentração de melhores resultados no Centro-Oeste, Sudeste e Sul e classificações mais baixas em parte do Norte, o próprio ONSV ressalta que não há um padrão regional uniforme.
Estados de uma mesma região, e até vizinhos, podem apresentar desempenhos bastante diferentes. Segundo o relatório, isso indica que as condições institucionais, operacionais e de gestão de cada Estado têm peso importante nos resultados.
A comparação entre 2023 e 2024 reforça essa diferença. Roraima apresentou o maior avanço na classificação geral, enquanto Acre e Amapá tiveram as maiores reduções. Também houve melhora em Estados como Mato Grosso e em parte do Nordeste e Sudeste, mas sem uma tendência comum a todas as regiões.
O estudo faz uma ressalva importante: evolução percentual não deve ser confundida com desempenho absoluto. Um Estado pode apresentar uma alta expressiva partindo de uma nota muito baixa e ainda permanecer em posição inferior na classificação.
Falta de dados também é um problema
Um dos pontos mais preocupantes do levantamento aparece antes mesmo da fiscalização: a qualidade das informações utilizadas para administrar o trânsito.
No pilar de Gestão da Segurança no Trânsito, o IRIS avaliou, entre outros aspectos, a integração dos municípios ao Sistema Nacional de Trânsito (SNT), a qualidade dos dados disponíveis no Registro Nacional de Sinistros e Estatísticas de Trânsito (RENAEST) e as informações oferecidas pelos Detrans.
Segundo o levantamento, grande parte dos municípios brasileiros ainda não está formalmente integrada ao SNT, mesmo mais de 25 anos depois da criação do atual Código de Trânsito Brasileiro. Sem essa integração, muitos municípios ficam sem autonomia para exercer funções como engenharia de tráfego, educação e fiscalização.
A situação dos dados também chama atenção. Apenas cinco Estados apresentaram informações consideradas suficientemente completas no RENAEST, enquanto nos demais havia elevada proporção de campos indisponíveis. Para o ONSV, essa falta de informações prejudica a elaboração de diagnósticos confiáveis e, consequentemente, o planejamento da segurança viária.
Nesse quesito, o Distrito Federal ficou na primeira posição, com nota 10. São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Santa Catarina também receberam cinco estrelas. Na outra ponta, Maranhão teve nota zero.
Outro aspecto interessante do estudo é a maneira como ele trata as infrações de trânsito. Um Estado que registra muitas multas não necessariamente tem motoristas que cometem mais infrações.
Isso acontece porque o volume de autuações também depende da capacidade de fiscalização. Uma taxa elevada pode ser consequência de uma fiscalização mais abrangente, enquanto poucos registros podem indicar que determinados comportamentos de risco simplesmente não estão sendo detectados. O IRIS faz essa ressalva ao analisar tanto educação quanto fiscalização.
O excesso de velocidade é o exemplo mais claro. Por ser uma infração frequentemente detectada de maneira automatizada, ela é a mais comum entre os registros analisados. Distrito Federal, Goiás e Roraima apresentam as maiores taxas, enquanto Estados do Norte e Nordeste têm índices muito baixos. O relatório afirma que essa diferença pode refletir tanto maior abuso de velocidade quanto maior abrangência da fiscalização eletrônica.
O mesmo cuidado vale para o álcool. Acre, Mato Grosso e Roraima aparecem com as maiores taxas de infrações por alcoolemia. Já Bahia, Ceará e Rio de Janeiro têm índices mais baixos, mas o ONSV ressalta que isso pode estar relacionado a déficit de fiscalização, e não necessariamente a um comportamento mais seguro dos motoristas.
Diferença na quantidade de radares
A infraestrutura de fiscalização também varia bastante. Distrito Federal, Goiás e Ceará têm as maiores taxas de câmeras de fiscalização em relação à frota. Amazonas, Acre e Rondônia aparecem na outra extremidade, com índices extremamente baixos. Segundo o estudo, a ausência de equipamentos compromete a capacidade de detectar infrações e agir preventivamente contra comportamentos de risco.
O levantamento também cruza a quantidade de infrações por excesso de velocidade com o número de câmeras. Roraima, Amazonas e Rondônia apresentam os maiores índices nesse indicador, enquanto Piauí, Mato Grosso do Sul e Ceará combinam poucas câmeras com poucos registros de infrações. O ONSV interpreta esse cenário como possível sinal de baixa efetividade do sistema de fiscalização.
No Pilar VI, de Normatização e Fiscalização, o Distrito Federal novamente ficou em primeiro, com nota 10. Goiás, Ceará, São Paulo, Tocantins e Paraná também aparecem entre os Estados classificados com cinco estrelas. Amazonas teve nota zero.
Celular e motos também revelam diferenças
O IRIS analisou ainda indicadores relacionados ao comportamento dos condutores. Goiás, Distrito Federal e São Paulo registraram as maiores taxas de infrações por uso de celular ao volante. Já Pará, Rio Grande do Sul e Rondônia estão entre os Estados com menos registros.
Mais uma vez, o relatório alerta que poucos registros não significam necessariamente menor uso do celular: eles podem ser consequência de fiscalização insuficiente ou subnotificação.
Outro indicador particularmente relevante para o trânsito brasileiro é a relação entre condutores habilitados para motocicletas e a frota de motos. Santa Catarina e Distrito Federal têm as melhores proporções, enquanto Maranhão e Piauí apresentam os maiores desequilíbrios, o que pode indicar uso irregular de motocicletas por pessoas não habilitadas.
Educação também muda de um Estado para outro
No Pilar IV, dedicado à Educação para o Trânsito, o Rio de Janeiro ficou na primeira posição, com nota 10, seguido por Rio Grande do Sul, Sergipe, Pernambuco, Espírito Santo e Bahia, todos na faixa de cinco estrelas.
Na parte inferior estão Acre, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Amapá, Mato Grosso e Roraima, classificados com uma estrela. Roraima teve nota zero nesse pilar.
A comparação anual mostra novamente movimentos bastante diferentes. Piauí teve o maior crescimento, de 95,16%, seguido por Pará, com 42,36%, e Rio de Janeiro, com 39,18%. Roraima apresentou queda de 100%, enquanto Mato Grosso recuou 46,51% e Amapá, 37,06%.