Aphelion aposta na emoção espacial, mas tropeça na performance

Novo título da Don’t Nod leva o jogador aos limites do Sistema Solar

4 mai 2026 - 12h16
Aphelion aposta na emoção espacial, mas tropeça na performance
Aphelion aposta na emoção espacial, mas tropeça na performance
Foto: Reprodução/Dont Nod

A Don’t Nod já provou que sabe contar histórias como ninguém com os jogos da franquia Life is Strange e que domina a verticalidade e o silêncio com Jusant, de 2023. Em Aphelion, o estúdio francês tenta unir esses dois mundos em um cenário de ficção científica "pé no chão", com influências de filmes como Interestelar e Perdido em Marte, desenvolvido em colaboração com a Agência Espacial Europeia (ESA). 

O resultado é uma experiência visualmente arrebatadora e atmosfericamente tensa, mas que sofre com escolhas de design que podem testar a paciência do jogador e que acaba se perdendo no próprio vácuo.

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Duas faces da sobrevivência em Perséfone

Como um grande fã de ficção científica, achei a premissa de Aphelion - ou Afélio, em português, que é o ponto da órbita em que um corpo celeste (planeta, cometa) está mais distante do Sol - bastante promissora: no ano de 2060 a Terra já não sustenta a vida, e dois astronautas — Ariane e Thomas — são enviados ao planeta gelado Perséfone, nome do misterioso "nono planeta" que foi encontrado em nosso Sistema Solar, para avaliar se ele pode servir de novo lar para a humanidade.

Após um acidente com a nave, Ariane e Thomas caem em pontos diferentes no planeta, oferecendo gameplays e pontos de vistas divididos entre os dois. Separados, feridos e isolados, eles precisam sobreviver enquanto tentam se reencontrar.

Ariane carrega a parte mais dinâmica da experiência, com uma movimentação centrada em travessia e exploração vertical. É nesse momento que o jogo encontra seu melhor ritmo, evocando o mesmo senso físico de progressão visto em Jusant. Escalar superfícies instáveis e atravessar grandes vãos com o auxílio de um gancho traz, ao menos no início, uma sensação genuína de fluidez e descoberta.

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Já Thomas, que foi ferido e possui uma mobilidade limitada, apresenta seções mais lentas voltadas para a resolução de quebra-cabeças e gerenciamento de recursos, como o oxigênio. É um ritmo mais cerebral que contrasta bem com a urgência de Ariane.

O planeta é belo, hostil e silencioso. As paisagens congeladas, cortadas por fenômenos estranhos e uma presença alienígena à espreita, criam uma atmosfera que funciona bem — quase como se o jogo fosse mais forte quando ninguém está falando.

Quando o jogo começa, algo se perde

Sem sistema de combate ou inimigos, Aphelion apresenta aventura narrativa linear
Foto: Reprodução

O problema surge quando você encosta no controle. Aphelion se estrutura como uma aventura linear em terceira pessoa, misturando exploração, escalada, quebra-cabeças e furtividade. Na teoria, é uma combinação que remete a clássicos modernos — algo entre Uncharted e experiências mais contemplativas. Mas na prática, falta consistência.

A movimentação é irregular, as animações nem sempre acompanham a ambição e as mecânicas parecem “quase lá”, mas nunca são totalmente refinadas.

A alternância entre Ariane — mais ágil e focada em escaladas — e Thomas — limitado e dependente de sobrevivência — é uma boa ideia no papel, mas desequilibrada na execução.

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Foto: Reprodução

E talvez o maior pecado: a repetição. Escalar, andar, evitar, repetir. A sensação de descoberta, essencial em qualquer ficção científica, vai se diluindo com o tempo, e o que temos aqui é um simulador de caminhada ou de escalada.

Além disso, o jogo traz uma ausência completa de combate direto. Em vez disso, o game aposta em tensão, exploração e furtividade contra uma entidade alienígena - que lembra o "monstro de fumaça" da série Lost - que persegue os protagonistas.

O problema é que a atmosfera, por mais envolvente que seja, acaba sabotada por sistemas de jogo genéricos. A criatura, que deveria ser o ápice do medo, torna-se um obstáculo chato e repetitivo, transformando o que deveria ser puro terror em uma experiência que oscila perigosamente entre o brilho visual e o tédio mecânico.

Foto: Reprodução

Visualmente, Aphelion tem uma bela apresentação. Construído na Unreal Engine 5, o jogo entrega cenários que parecem pinturas congeladas — distantes, frios, quase intocáveis.

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A trilha sonora orquestrada também merece destaque, com temas que ajudam a sustentar a atmosfera, criando aquele tipo de ambientação que tenta preencher os espaços onde o gameplay não consegue chegar.

Vale destacar também o cuidado com a localização em português do Brasil, com menus e legendas bem adaptados, facilitando a imersão sem ruídos. Mesmo sem dublagem em nosso idioma, o trabalho de voz original em inglês nas performances de Ariane e Thomas sustenta bem o tom emocional da narrativa, evitando qualquer sensação de artificialidade. Ainda assim, é bom ajustar as expectativas: trata-se de uma experiência enxuta, que se desenrola em cerca de 6 a 7 horas apenas.

Considerações

Aphelion - Nota 6,5
Foto: Divulgação / Game On

Aphelion é uma aventura cinematográfica linear que apresenta momentos genuinamente bons, mas que, no fim, não atinge um pouso perfeito, sem conseguir fechar a experiência com a mesma força que promete no início. Há méritos na atmosfera e na proposta — especialmente para quem aprecia ficção científica mais introspectiva e jogos voltados à contemplação. Mas quem espera por uma profundidade mecânica ou um impacto emocional no nível dos melhores trabalhos da Don't Nod, talvez saia com a sensação de que algo ficou faltando.

Aphelion está disponível para PC, PlayStation 5 e Xbox Series.

Esta análise foi feita no PlayStation 5, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Don't Nod.

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Fonte: Game On
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