A Housemarque vem me chamando a atenção desde os tempos de Super Stardust HD para PlayStation 3. Naquela época, ela se mostrou um estúdio focado em criar jogos onde a jogabilidade é o verdadeiro protagonista, fazendo o jogador sempre querer voltar para jogar mais. No PlayStation 4, ela fez isso com jogos como Resogun e Nex Machina, e agora no PlayStation 5 faz isso com Returnal e Saros.
No caso de Saros, o estúdio finlandês decidiu não mudar muito a fórmula que apresentou em Returnal, oferecendo uma experiência roguelike tão similar àquela do jogo de 2021, que o novo game poderia até mesmo chamar-se Returnal 2 e faria sentido.
Carcosa te espera
Saros ocorre num planeta chamado Carcosa, com o jogador fazendo parte de uma megacorporação da Terra chamada Soltari, que decide colonizar Carcosa para obter um recurso valioso chamado Lucenita. Três equipes Echelon foram enviadas ao planeta com essa tarefa, mas o contato com todas elas foi perdido. Soltari então decide enviar a Echelon IV, uma tripulação de emergência, para ver o que aconteceu. Quatro executores foram escalados para a missão, com um deles sendo Arjun Devraj, o personagem principal da história.
Embora os objetivos oficiais de Arjun sejam encontrar os membros das Echelon anteriores e obter Lucenitas, ele na verdade decidiu ir até Carcosa em busca de sua esposa, Nitya, que faz parte da equipe Echelon I. A história se desenrola com foco nisso, mas há algo nesse planeta misterioso que mexe com as mentes e emoções das pessoas, fazendo-as mudar completamente e até enlouquecer.
A trama possui alguns momentos interessantes, mas no geral não impressiona. Ela apresenta um misto de situações confusas e outras um tanto óbvias, tendo personagens completamente esquecíveis e com os quais você pode interagir para entender mais sobre eles e como Carcosa os está afetando.
Assim como em Returnal, o que se destaca em Saros não é a história, mas sim a jogabilidade, que é fantástica.
Hora de morrer e tentar outra vez
Saros, da mesma forma que ocorre em Returnal, apresenta vários biomas que o jogador precisa explorar para avançar na campanha. Ao morrer, você renasce de volta em sua base, chamada de Travessia, para tentar novamente.
Há três atributos principais no personagem, sendo a Resiliência, que aumenta sua vida total, o Domínio, que eleva a capacidade do escudo e o uso de arma de Energia, e o Ímpeto, que aumenta o ganho de Lucenita para acelerar o aprimoramento de Proficiência, que serve para subir o nível do personagem para que ele obtenha armas melhores.
Uma das principais mudanças em Saros ao ser comparado com Returnal é a forma como você explora os biomas. No novo game, se você estiver, por exemplo, no bioma 3 e morrer, não precisará atravessar os biomas 1 e 2 novamente para chegar ao terceiro, sendo possível se teletransportar diretamente ao bioma 3, o que poupa muito tempo. Os ciclos também são muito menores, durando cerca de 30-35 minutos cada um, caso você explore cada canto do bioma. Se decidir rushar até o chefe, o ciclo dura consideravelmente menos, mas o desafio no chefe pode acabar se tornando maior por causa disso.
Por ser um jogo roguelike, cada ciclo muda o layout dos biomas em Saros. No entanto, após jogar em um determinado bioma várias vezes, você vai se deparar com cenários que já viu antes. Quanto mais você explorar para encontrar Lucenitas, armas, artefatos e recursos, mais preparado estará para encarar o chefe. Na maioria dos biomas, você pode morrer uma vez e em seguida reviver para tentar de novo a partir do mesmo lugar, mas se morrer pela segunda vez, será levado de volta à sua base. Essa vida extra pode ser recuperada obtendo sucesso em um desafio chamado Limiar do Pesadelo, que é acessado por meio de um portal que existe dentro de cada bioma.
Na Travessia, você pode usar as Lucenitas que encontrou para aprimorar os atributos passivos de Arjun, sendo algo essencial para obter sucesso nas partes mais avançadas da campanha. Há também algo chamado Modificadores Carcosanos, que oferecem Proteções, que são vantagens tais como causar mais dano nos inimigos ou aumentar o raio de coleta das Lucenitas, e Provações, que são desvantagens para que o desafio fique ainda maior. É necessário deixar esses modificadores equilibrados para poder utilizá-los, ou seja, se quiser muitas Proteções, também precisará ativar uma grande quantidade de Provações.
As habilidades ativas de Arjin vão sendo liberadas com o progresso na história, então não esquente a cabeça se achar um lugar que não consegue acessar em um dado momento. Isso é sinal de que você ainda não tem o que é preciso para chegar lá. Meu conselho, neste caso, é zerar o jogo primeiro antes de ir atrás dos itens colecionáveis e coisas do tipo, porque daí você já estará com todas as habilidades.
Eclipse mortal
Nos biomas de Saros, você encontra vários tipos de inimigos diferentes, incluindo monstros alienígenas e criaturas robóticas, que podem te matar rapidamente se você não for rápido ao se movimentar e atacar.
Tais inimigos possuem três tipos diferentes de ataques, sendo um de esferas amarelas, que você pode desviar por entre elas, o de esferas azuis, que você também pode desviar atravessando-as, além de absorvê-las com seu escudo de energia, e um ataque de esferas vermelhas que você não consegue desviar atravessando de frente, mas pode aparar quando obtiver a habilidade que permite isso.
Além dos oponentes normais, existem subchefes poderosos que contam até mesmo com uma barra de vida especial, e os chefões que apresentam três barras de vida, cada uma delas representando uma etapa da luta com eles. São adversários formidáveis, mas que tornam-se previsíveis depois que você entende o padrão de luta deles e, de preferência, esteja usando a arma ideal para derrotá-los. Os combates também são complementados pela ótima trilha sonora.
Falando em armas, temos o Canhão de Mão, Espingarda, Fuzil, Balestra e Chakram, e todas elas possuem três variações diferentes. Por exemplo, o Fuzil Inteligente trava a mira automaticamente nos inimigos, enquanto o Fuzil de Massacre não faz isso, mas tende a causar mais dano.
Todas as armas apresentam disparos secundários, que você ativa apertando L2 pela metade, sendo este um dos usos do jogo nos recursos do controle DualSense, que também pode ser usado para emitir mensagens ao jogador por meio do seu alto-falante embutido.
Além das armas principais, há também armas de energia que servem para causar muito estrago aos oponentes e quebrar determinados tipos de paredes, que às vezes escondem segredos. A energia dessas armas vai recarregando à medida que você ataca os inimigos com as armas principais.
Há também um tipo de super ataque que você libera após algumas horas de jogo e pode ser ativado apertando L3+R3, infringindo uma quantidade colossal de dano nos inimigos, sendo ideal para usar nos chefes do jogo ou em situações de aperto.
Saros também apresenta uma mecânica que envolve ativar o Eclipse do planeta Carcosa, deixando os inimigos mais fortes, com eles podendo causar corrupção na barra de vida de Arjun, que só pode ser revertida disparando as armas de energia. Além disso, o Eclipse apresenta artefatos com atributos melhores, mas que também causam uma desvantagem ao jogador ao serem equipados, e muda o layout dos biomas, permitindo entrar em locais antes inacessíveis.
Nos primeiros quatro biomas de Saros, mesmo com o Eclipse, eu achei o desafio baixo demais, mesmo nos chefes. Eis que então, a partir do bioma 5, a situação mudou totalmente, com a dificuldade aumentando de forma bastante drástica, e ficando cada vez maior até o fim do jogo. Isso vale inclusive para os chefes, com alguns deles necessitando de várias tentativas até que eu conseguisse entender seus padrões de ataque e descobrir a melhor arma para derrotá-los.
Sobre a quantidade de biomas, prefiro deixar que você descubra isso por conta própria para não estragar a surpresa, mas o número é maior do que o de Returnal. No total, levei cerca de 12 horas para terminar o jogo. Ao zerar, você pode continuar jogando para obter os coletáveis que ainda faltam.
Falando do desempenho no PS5 Fat, onde joguei o game, Saros manteve-se em 60 fps a maior parte do tempo, com apenas uma ou outra queda na taxa de quadros e que não afetou negativamente a jogabilidade. As cutscenes e cinemáticas pré-renderizadas, no entanto, são em 30 fps.
No geral, gostei do meu tempo jogando Saros, mas assim como Returnal, ele deixa um pouco a desejar em alguns aspectos. Além da história, que poderia ser melhor e com personagens mais marcantes, eu gostaria, por exemplo, que fosse possível sair do jogo no meio de um ciclo e poder voltar mais tarde a partir daquele ponto onde parei, mas isso não acontece aqui. Se fechar o game e voltar depois, terá de recomeçar o ciclo.
Também não é possível escolher com qual arma você quer começar um novo ciclo. Você fica preso à arma com a qual morreu no ciclo anterior e precisa explorar o bioma no ciclo seguinte até encontrar outra arma.
Por fim, o preço de R$ 400 por um jogo roguelike não me parece adequado, a não ser que Returnal tenha sido um dos melhores jogos da geração para você. Caso contrário, convém esperar um desconto antes de comprar Saros.
Considerações
Saros é ideal para quem deseja mais da experiência que foi oferecida em Returnal, agregada de algumas melhorias. Assim como o jogo de 2021, ele deixa a desejar na história, mas apresenta uma jogabilidade fenomenal e que te faz querer continuar jogando mais e mais. Ainda peca um pouco no aspecto roguelike em comparação com outros jogos deste gênero, mas oferece uma jornada ao mesmo tempo divertida e repleta de desafios.
Saros chega em 30 de abril para PlayStation 5.
Esta análise foi feita com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Sony.