A linha do tempo de como gestão de Casares ruiu no São Paulo

Presidente, que se elegeu duas vezes com forte coalizão, perde apoio, é investigado pela Polícia Civil e enfrenta processo de impeachment

10 jan 2026 - 05h41
(atualizado às 08h10)

Júlio Casares vive o pior momento na presidência do São Paulo. É algo que seria impensável ao fim do seu primeiro mandato, em 2023, quando articulou sua reeleição, com uma forte coalizão. Ao fim desta semana, ele pode ser afastado provisoriamente em um processo de impeachment - veja o que é preciso acontecer para isso no fim do texto.

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O mandatário foi eleito em dezembro de 2020, após uma trajetória em cargos de diretoria do clube. A eleição, válida para o triênio 2021-2023, foi vencida por 155 votos a 78 de Roberto Natel, da oposição. Na época, a votação ocorreu em um sistema de drive-thru por causa da pandemia de covid-19.

No primeiro ano do mandato, o São Paulo conquistou o Paulistão, saindo de uma fila de 16 anos. No último, veio o título inédito da Copa do Brasil. Amplamente apoiado no Conselho Deliberativo e com bons resultados em campo, Casares pautou e aprovou o retorno da possibilidade de reeleição.

Em dezembro de 2023, contudo, ele não teve adversário. O presidente foi aclamado para um segundo mandato com 194 votos, contra 30 votos foram em branco e 10 nulos. "Há três anos eu dizia que a preocupação não era apenas deixar um quadro na parede, mas deixar um legado. Nós assumimos com uma dificuldade da pandemia, uma incerteza quanto às dívidas, mas o futebol respondeu. A gestão continua e tenho convicção de que o São Paulo tem muito a percorrer", falou, na época.

Desta vez, porém, os resultados em campo não vieram. Em 2024, o time caiu na fase de quartas de final do Paulistão (para o Novorizontino), Copa do Brasil (para o Atlético-MG) e Libertadores (para o Botafogo).

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No futebol, as críticas se estendiam a contratações, comandadas pelo então diretor da pasta, Carlos Belmonte. As reclamações iam no sentido de o clube ter alto custo e pouco retorno nos movimentos de transferências.

O balanço financeiro de 2024, por exemplo, apresentou déficit anual é de R$ 287 milhões, enquanto a dívida total ficou em R$ 968,2 milhões (a maior da história do clube). O futebol era (e continua a ser) o setor que mais pesava nos cofres.

Em paralelo à crise financeira, Casares experimentava movimentos de dissolução do apoio. Belmonte era colocado como possível sucessor na presidência, mas Casares demonstrou apoiar outras possibilidades, como Olten Ayres de Abreu Júnior (presidente do Conselho Deliberativo) ou Márcio Carlomagno (superintende geral).

Quem saiu, contudo, foi Carlos Belmonte, finalmente, rompendo com Casares. Isso não impediu que ele, enquanto conselheiro, aprovasse o orçamento da gestão para 2026. Com pontos polêmicos, como déficit acumulado de janeiro a novembro e superávit em dezembro e festa junina com custo de R$ 3,5 milhões, a proposta foi aprovada por apenas cinco votos de diferença.

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Essa vitória foi a última de Casares. Dias depois, 57 conselheiros protocolaram um pedido de impeachment. As acusações envolvem má gestão orçamentária, venda de atletas abaixo do valor de mercado e a descoberta do uso irregular de um camarote do MorumBis por integrantes da gestão.

Os envolvidos, Mara Casares e Douglas Schwartzmann, se licenciaram dos cargos e passaram a ser investigados internamente. O caso parou na Polícia Civil, que já tinha outro inquérito sobre o clube, para apurar desvios em contratos.

Diante da repercussão, o impeachment ganhou força mesmo entre conselheiros que apoiavam Casares. Um dos dissidentes foi Vinicius Pinotti, que atuava como consultor da presidência. Ele é o nome da oposição para a eleição deste ano no clube.

Protestos contra a gestão cresceram entre torcedores no último ano.
Protestos contra a gestão cresceram entre torcedores no último ano.
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Um respiro para Casares foi o parecer do Conselho Consultivo. O grupo de notáveis do clube recomendou que não seja aprovado o afastamento do presidente. Na prática, o documento não é determinante, mas serve para embasar a discussão dos votos.

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Apesar disso, o movimento entre os conselheiros foi contrário. Mais apoiadores deixaram a gestão. Até mesmo o Grupo Participação, do próprio Casares, comunicou não apoiar mais o presidente.

"O Grupo Participação comunica oficialmente aos conselheiros e sócios o seu desligamento da coalizão 'Juntos Pelo São Paulo'. A recomendação de nossa coordenação, respeitando a democracia, direito pleno e independente de cada conselheiro, é para que compareça à assembleia na votação pelo impeachment", escreveu o grupo em nota.

Se houver, no mínimo, 191 votos (75% dos conselheiros), Casares é afastado provisoriamente. Em até 30 dias após a votação do Conselho, uma Assembleia Geral de sócios do clube deverá ser instituída para ratificar a decisão do Conselho Deliberativo. Nesta instância, basta maioria simples.

Se Casares for afastado no Conselho e pela Assembleia, ele é também banido do clube. Já em caso de renúncia, ele se mantém no Conselho Consultivo. Essa última situação é semelhante ao que viveu o ex-presidente Carlos Miguel Aidar. Em 2015, ele deixou o cargo, sob acusações de desviar recursos do clube. Na época, o departamento jurídico do São Paulo recebeu uma notificação do MP-SP, mas negou irregularidades e não houve avanço em investigações.

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