IA vira 'equipe invisível' no agenciamento e muda forma como empresários conduzem carreiras e negociações no esporte

Especialista em inteligência artificial para negócios, Marcílio Drummond comenta sobre o uso de IA fora dos campos esportivos

9 jan 2026 - 21h39
Marcílio Drummond
Marcílio Drummond
Foto: Divulgação / Esporte News Mundo

O telefone vibra sem parar. Em um grupo, um dirigente pede vídeos curtos "para agora". Em outro, um treinador quer entender se o atleta realmente encaixa no modelo de jogo. Ao mesmo tempo, a família do jogador cobra atualizações, enquanto um contrato chega em PDF, repleto de prazos, metas e condicionantes.

Essa rotina intensa, descrita por empresários e profissionais próximos ao dia a dia do agenciamento esportivo, tem impacto direto no mercado: oportunidades esfriam, negociações perdem força e decisões de carreira acabam sendo tomadas sob pressão.

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É nesse cenário que a inteligência artificial, antes vista como um tema distante ou excessivamente técnico, começa a se consolidar como uma ferramenta prática de gestão.

- Não é sobre substituir o empresário. É sobre tirar o empresário do sufoco operacional para que ele volte a fazer o que mais gera valor: relacionamento, leitura de ambiente e timing - afirmou Marcílio Drummond, especialista em inteligência artificial para negócios e CEO da Super Inteligênc[IA].

No futebol, tempo é dinheiro. A janela de oportunidade de um atleta costuma ser curta: semanas de destaque podem se transformar rapidamente em esquecimento após poucos jogos. Para o empresário, o desafio está em acompanhar sinais, manter conversas aquecidas e apresentar o jogador com clareza a quem realmente decide. A gestão com inteligência artificial tem sido adotada justamente para transformar excesso de informação em rotinas simples e eficientes de ação.

- Quem fecha mais negócios não é, necessariamente, quem manda mais mensagens, mas quem consegue trabalhar com clareza, velocidade e consistência - explicou Drummond, completando:

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- Quando a IA entra como gestão, ela vira um sistema de organização e acompanhamento. O empresário deixa de depender da memória, do improviso e da urgência constante.

A comparação com estruturas europeias ajuda a entender esse movimento. Em clubes e agências fora do Brasil, é comum haver divisão clara de funções: profissionais dedicados a organizar o funil de negociações, preparar apresentações, acompanhar desempenho, controlar prazos e registrar histórico. No mercado brasileiro, muitos empresários ainda acumulam todas essas tarefas sozinhos ou com equipes muito reduzidas.

Segundo especialistas, a inteligência artificial tem sido usada justamente para assumir parte dessas funções repetitivas, acelerando a operação sem inflar custos.

- Quando falamos em "equipe invisível", não é uma metáfora de marketing. Estamos falando de funções reais. Um sistema bem montado consegue atuar como analista de desempenho, assistente de operações, organizador de documentos, preparador de dossiês, apoio de comunicação e controle de prazos, tudo ao mesmo tempo. É algo muito próximo do que grandes estruturas fazem com dez pessoas ou mais - pontuou.

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Na prática, essa "equipe invisível" funciona como um radar de oportunidades. Boa parte das negociações não começa com anúncios públicos, mas com sinais: improvisações em determinada posição, queda de rendimento de um titular, mudança de treinador ou aproximação de uma janela de transferências.

Com apoio da inteligência artificial, esses sinais deixam de ser apenas percepções soltas e passam a virar listas claras de ação, com priorização de clubes, definição de contatos e preparação de mensagens e materiais.

A forma de abordagem também muda. Em vez de contatos genéricos, o empresário passa a apresentar soluções objetivas, facilitando a decisão de quem está do outro lado.

"O clube decide rápido. A pergunta é se você está facilitando essa decisão ou criando mais trabalho", observa Drummond. "Um bom sistema ajuda o empresário a responder três pontos essenciais: o que o atleta entrega, por que ele serve para aquele clube e qual é o próximo passo."

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Outro aspecto crítico é a escolha do clube, frequentemente apontada como uma das decisões que mais impactam a carreira de um jogador. A troca por um clube de maior visibilidade pode significar salário mais alto no curto prazo, mas também o risco de virar terceira opção, perder minutos e desvalorizar no mercado.

A gestão com inteligência artificial tem sido usada para organizar essa decisão de forma mais racional, considerando função ideal, modelo de jogo do treinador, concorrência na posição e real possibilidade de vitrine.

"Minutos hoje viram dinheiro amanhã", resume Drummond. "Um contrato um pouco menor, mas com chance real de jogar, costuma abrir portas maiores no futuro. O sistema ajuda o empresário a enxergar consequência, não apenas valor imediato."

A apresentação do atleta é outro ponto sensível. Em meio ao grande volume de contatos que dirigentes e treinadores recebem diariamente, vídeos longos e materiais confusos tendem a travar negociações.

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A inteligência artificial vem sendo aplicada para padronizar o chamado "kit de apresentação", com informações objetivas, materiais curtos e linguagem adaptada ao decisor. A lógica é simples: quanto menos esforço o clube precisa fazer para entender o encaixe, maior a chance de avançar na conversa.

"O clube não compra talento no abstrato. Ele compra solução para uma necessidade concreta", destaca Marcílio Drummond. "Um bom dossiê não é o mais bonito, mas o que prova encaixe em poucos minutos."

Além da negociação em si, a operação diária também passa por transformação. Especialistas apontam que parte significativa das perdas no agenciamento acontece no acompanhamento: mensagens que não são respondidas no tempo certo, prazos esquecidos, histórico mal organizado e propostas que esfriam por falta de retorno.

Sistemas de gestão com inteligência artificial têm sido usados para estruturar o fechamento do dia, resumindo conversas, listando pendências, alertando prazos e sugerindo prioridades.

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"No futebol, a oportunidade tem prazo de validade", afirma Drummond. "O empresário de alto nível não é o que tem mais contatos no telefone, mas o que tem melhor acompanhamento. Quando o acompanhamento melhora, a operação escala sem perder qualidade."

Há ainda um ponto menos visível, mas igualmente relevante: a blindagem contratual e a proteção de imagem. Cláusulas mal interpretadas, bônus pouco claros, multas que travam movimentações futuras e ruídos na comunicação entre atleta, família e clube geram prejuízos financeiros e desgaste de reputação. A inteligência artificial tem sido usada para criar rotinas simples de verificação antes de assinaturas, garantindo que perguntas essenciais sejam feitas e registradas.

"Blindagem não é paranoia. É maturidade profissional", afirma Marcílio Drummond. "O sistema não substitui o olhar humano, mas força a rotina de fazer as perguntas certas sempre. Isso reduz prejuízo financeiro e evita crises desnecessárias."

Para empresários que desejam começar sem complicar, especialistas recomendam focar no básico: organizar o funil de negociações, padronizar apresentações e criar uma rotina diária de acompanhamento.

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"Esse é o arroz com feijão que dá dinheiro", resume Drummond. "Sem isso, o empresário vira refém da urgência. Com isso, ele vira gestor de oportunidades."

A discussão, nos bastidores, já mudou. A inteligência artificial não resolve o que é essencial no agenciamento - confiança, relacionamento e leitura de ambiente continuam sendo insubstituíveis. Mas ela tem sido usada para remover ruídos, aumentar consistência e devolver controle ao empresário.

"O debate não é mais se a tecnologia vai entrar no mercado, mas quem vai usar primeiro e melhor", conclui Marcílio Drummond. "No futebol, ganhar é antecipar. E gestão com inteligência artificial é, no fundo, isso: decisão, timing e padrão."

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