Apesar de vencer o Fluminense por 1 a 0 com gol de Carrascal e manter a liderança do Brasileirão com 64 pontos, o Flamengo deixou uma impressão preocupante ao desperdiçar chances claras, sobretudo com Pedro. A ineficiência ofensiva rubro-negra e o alívio de placares magros mantêm os jogos abertos e alimentam as esperanças do vice-líder Palmeiras, que soma 63 pontos. Na reta final, a falta de contundência do líder ameaça transformar sua superioridade em risco real de perder o título nacional.
O Flamengo venceu o Fluminense por 1 a 0, chegou aos 64 pontos e manteve a liderança do Campeonato Brasileiro. Ganhou o clássico, mas deixou uma impressão incômoda: a de um time que tem recursos para resolver partidas e, ainda assim, parece satisfeito em sobreviver a elas.
O Palmeiras soma 63 pontos. Um ponto. É essa a distância que separa o Flamengo de um rival que não precisa de incentivo para disputar o título. Mas o líder parece disposto a oferecê-lo por conta própria. Cria oportunidades, desperdiça, mantém o adversário vivo e depois trata o alívio da vitória como se o placar encerrasse qualquer discussão.
Não encerra. O Flamengo teve condições de construir um resultado mais confortável e falhou justamente na parte que decide o futebol. Não se trata de exigir goleadas nem de transformar cada erro em tragédia. Trata-se de cobrar de um candidato ao título o mínimo de competência para aproveitar as chances que ele próprio constrói. Dominar sem concluir é uma forma de desperdiçar trabalho.
Pedro foi o retrato mais evidente dessa ineficiência. Desperdiçou uma chance clara no primeiro tempo e voltou a finalizar para fora na etapa final. Aos 18 minutos do segundo tempo, Leonardo Jardim o substituiu por Bruno Henrique. Um minuto depois, Carrascal marcou após cruzamento de Lucas Paquetá.
O gol resolveu a partida, mas também tornou mais visível a contradição rubro-negra: foi preciso acertar uma jogada para compensar tantas oportunidades mal aproveitadas. O Flamengo venceu, mas não convenceu de que aprendeu a controlar os próprios jogos. E, na reta final, viver de alívio é uma estratégia que cobra juros.
O resultado não pode ser uma cortina
Há uma maneira preguiçosa de analisar futebol: venceu, está tudo certo. O placar vira argumento para encerrar a conversa, e qualquer crítica passa a ser tratada como exagero. É uma ótima receita para a complacência. Também é uma péssima maneira de preparar um time para disputar um título até o fim.
O Flamengo não precisa pedir desculpas por ganhar de 1 a 0. Precisa entender por que não fez mais quando teve condições. Uma equipe que desperdiça oportunidades e deixa a partida aberta não demonstra superioridade completa; demonstra que ainda há uma distância entre produzir e resolver.
Pedro merece cobrança, mas não pode ser transformado no bode expiatório de uma falha mais ampla. O centroavante perdeu chances, porém o desperdício não foi apenas dele. O time teve oportunidades para ampliar e não aproveitou. Culpar um jogador é fácil; reconhecer que a equipe inteira precisa ser mais eficiente exige uma análise menos confortável.
Leonardo Jardim também não pode usar a vitória como resposta para tudo. O treinador tem a obrigação de cobrar precisão e consistência, sobretudo quando a margem na tabela é tão pequena. Se o Flamengo continua deixando jogos em aberto depois de criar condições para resolvê-los, há um problema que o resultado positivo não apaga.
O Palmeiras agradece
A classificação é direta: Flamengo com 64 pontos, Palmeiras com 63. O Rubro-Negro está na frente, mas não construiu uma vantagem que permita qualquer distração. O rival segue perto, e cada oportunidade desperdiçada pelo líder é uma chance a menos de transformar a liderança em uma posição mais segura.
O Palmeiras não precisa que o Flamengo lhe entregue o campeonato. Basta continuar fazendo a própria parte. O problema é que o Rubro-Negro, ao não aproveitar as oportunidades que aparecem, ajuda a manter a disputa no terreno em que qualquer detalhe pode mudar tudo.
Na reta final, a diferença entre ser campeão e ficar pelo caminho não está apenas nas grandes decisões. Está também na capacidade de fazer o simples quando o jogo oferece a oportunidade. O Flamengo teve essa chance contra o Fluminense e preferiu deixar a conta aberta até Jorge Carrascal marcar.
A vitória vale três pontos. A atuação, porém, deveria servir de advertência. O Flamengo continua líder, mas não pode confundir estar na frente com ter a disputa sob controle. Se insiste em desperdiçar o que cria, transforma a própria superioridade em promessa vazia e mantém o Palmeiras à espreita.
O líder ganhou o clássico. Mas, em vez de impor respeito, deixou dúvidas. E quem disputa um título não pode passar a reta final distribuindo esperança ao rival e chamando de tranquilidade o alívio de ter escapado por um gol.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.