Um dos slogans da CBF diz que 'quando nasce um brasileiro, nasce um torcedor'. No entanto, centenas de pessoas lotaram as ruas da Zona Leste de São Paulo nesta sexta-feira, 3, para mostrar que esse torcedor nem sempre será da Seleção Brasileira: em uma grande festa azul e branca, apoiadores brasileiros da Argentina ajudaram a empurrar a equipe na vitória contra Cabo Verde em plena capital paulista.
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Antes mesmo das 17h, pouco mais de duas horas para bola rolar entre Argentina e Cabo Verde pela fase de 16 avos de final da Copa do Mundo, o público começou a se concentrar no cruzamento entre as ruas Mooca e Leme da Silva, onde fica o Moocaires. um simpático bar que mais parece ter se 'teletransportado' das ruas de Buenos Aires.
O nome, aliás, já diz muito sobre o estabelecimento: é a união entre Mooca, bairro onde o bar fica localizado, e Aires, que remete à capital argentina Buenos Aires. E isso graças à saudade sentida pelo proprietário Cristián Galarza, que mora no Brasil há 25 anos e, há 19, administra o Moocaires.
Com referências a pontos turísticos da capital argentina, como El Caminito, Galarza contou ao Terra que fundou o Moocaires após sentir falta de um café temático do país onde nasceu. Quase duas décadas após a fundação, o local se estabeleceu como um reduto da torcida da Albiceleste, incluindo brasileiros.
"Assim como eu também torço pelo Brasil quando joga contra outros times, que não seja a Argentina, lógico, é muito bom receber as pessoas aqui torcendo por a Argentina com uma energia muito boa, faz muito bem para o futebol, faz muito bem para a alegria do futebol e a ideia é exatamente essa. Proporcionar um espaço, um ambiente agradável com muita festa, muita alegria para qualquer um que venha torcer por a Argentina", afirmou.
Muitos torcedores, por sinal, fazem questão de explicar o que os levou a 'abandonar' a Seleção Brasileira para apoiar a Argentina na Copa do Mundo. Um deles é Renato Lamúcio, de 51 anos, que contou ter se decepcionado com o Brasil após a derrota para a França na final da Copa de 1998. No Mundial de 2002, quando a Seleção se tornou penta, ele lembra que assistiu sem torcer para nenhum time.
“Em 2002, assisti à Copa sem seleção e aí o futebol argentino é aquilo que eu gosto: garra e amor à camisa. Dali para frente, só veio o fanatismo mesmo. Eu só fiquei assistindo para ver se alguma seleção me agradava. A Argentina era um futebol mais perto do que o brasileiro anterior a isso, e foi o que me agradou, e daí em diante eu torço muito para a Argentina mesmo”, completa.
Mas nem mesmo toda a energia positiva emanada pelos brasileiros torcedores da Argentina em São Paulo foi capaz de impedir que os comandados por Lionel Scaloni sofressem diante de Cabo Verde.
Tensão por 120 minutos, e 'se não for sofrido, não é Argentina'
O clima de festa logo deu lugar à tensão quando o árbitro canadense Drew Fischer autorizou o início da partida entre Argentina e Cabo Verde. Porém, os torcedores explodiram em alegria aos 13 minutos da 1ª etapa com um golaço de Lionel Messi, que chegou a seu 7º gol no torneio e ao 20º em Copas do Mundo.
Mas o nervosismo ficou palpável no segundo tempo, após Deroy Duarte buscar o empate para Cabo Verde e com grandes defesas do goleiro Vozinha, que contribuiu diretamente para que o placar fosse mantido em 1 a 1 até o fim do tempo regulamentar.
Na prorrogação, Lisandro Martínez voltou a colocar a Argentina na frente, e Sidney Cabral deixou tudo igual, em 2 a 2. Com os nervos à flor da pele, os torcedores do Moocaires foram aos céus quando Cristian Romero marcou o terceiro, de cabeça, e fechou o placar da partida.
No pós-jogo, o discurso entre os torcedores foi um só: "Se não for sofrido, não é Argentina". É o caso do corretor de imóveis Lucas Vieira, de 31 anos. Paulistano, ele descreveu a partida como um 'tango dramático': "A gente acha que está com o jogo na mão e aí o coração acelera mais. Mas eu estava tranquilo, porque confio no Dibu [Martínez, goleiro da Argentina]."
Lucas se emocionou ao falar sobre a festa da torcida: "Não consigo explicar porque você não vai entender. É algo maior do que alegria e euforia. É sensacional."
O paulistano contou que torce pela Argentina 'desde que se entende por gente', e o que o faz gostar da equipe é a 'essência da torcida' dos hermanos': "É a paixão pelo futebol. Você ver um jogo com a torcida da Argentina é outra coisa. A raça, a luta do jogador e a sintonia com os torcedores. Não tem como descrever".
Questionado sobre para quem torceria em caso de uma semifinal entre Brasil e Argentina, Lucas conta que presenciou um momento doloroso à Seleção Brasileira, mas junto à torcida rival.
"Eu estava no 4 a 1 no Monumental (em Buenos Aires), torcendo para a Argentina. Foi incrível, melhor sensação da minha vida. É aquela coisa, ganhar é bom, mas ganhar do Brasil é muito melhor", afirma. Ao falar que é nascido e criado em São Paulo, ele destaca: "Porque argentino nasce onde quer".