Às vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, o Comitê Olímpico Internacional (COI) admitiu publicamente que a crise climática já compromete a viabilidade do evento no modelo tradicional. Em reuniões realizadas nesta quarta-feira (4), dirigentes discutiram mudanças estruturais que podem alterar calendário, formato e até o DNA dos esportes de inverno.
O principal debate envolve o calendário olímpico. Pela primeira vez em mais de 60 anos, o COI considera antecipar os Jogos de Inverno para o mês de janeiro, deixando fevereiro reservado às Paralimpíadas. A avaliação técnica aponta que o aumento das temperaturas em fevereiro já começa a afetar as provas, enquanto o sol de março torna inviável a realização segura das competições paralímpicas.
Em Milão-Cortina, o impacto climático já é concreto. Cerca de 80% da neve utilizada nas provas será artificial. Para viabilizar o evento, a organização estima o uso de aproximadamente 2,5 milhões de metros cúbicos de neve produzida artificialmente, o que exige o consumo de 946 milhões de litros de água, além da operação contínua de canhões de neve e geradores.
Um estudo interno do COI ampliou ainda mais o sinal de alerta. De acordo com o relatório, até 2040 apenas dez países no mundo terão condições climáticas adequadas, combinação de frio e disponibilidade de água, para sediar Jogos de Inverno. As edições já definidas para 2030, nos Alpes Franceses, e 2034, em Salt Lake City, estão mantidas no calendário tradicional de fevereiro, mas podem ser as últimas nesse formato.
Diante desse cenário, o COI também discute mudanças no programa esportivo. O presidente da Comissão de Coordenação, Karl Stoss, revelou que a entidade avalia a inclusão de modalidades tradicionalmente associadas aos Jogos de Verão, como corrida e ciclismo, adaptadas a ambientes de inverno. A proposta busca reduzir a dependência da neve, ampliar o apelo comercial e atrair um público mais jovem.
A discussão marca um ponto de inflexão para o olimpismo de inverno. A combinação entre custos elevados, escassez de neve natural e instabilidade climática força o COI a repensar um modelo que, por décadas, dependeu de condições ambientais hoje cada vez mais raras.