A reta final da passagem de Didier Deschamps, durante a qual ele pareceu ter o toque de Midas, se transformou em um tormento tantalizante após a França sofrer uma derrota ampla por 2 x 0 para a Espanha na semifinal da Copa do Mundo, mas as recentes decepções dos Bleus não mancharão um legado sem precedentes.
A França perdeu a final da Copa do Mundo de 2022 para a Argentina e agora foi derrotada pela Espanha em três semifinais consecutivas em grandes competições: na Eurocopa de 2024, na Liga das Nações e nesta terça-feira pela Copa do Mundo.
No entanto, Deschamps, que assumiu o comando em 2012 com o futebol francês ainda marcado pelo motim e pela humilhação da Copa do Mundo da África do Sul dois anos antes, será lembrado acima de tudo como o técnico que levou a França ao seu segundo título mundial em 2018, duas décadas depois de ter sido o capitão do primeiro em solo francês.
Com um recorde de 20 vitórias em Copas do Mundo como treinador, ele colocou a França nas semifinais em três edições consecutivas, com duas decisões, e a consolidou como a força mais consistente do futebol internacional em grandes competições.
A disputa pelo terceiro lugar, no próximo sábado, será uma despedida anticlimática para o técnico de 57 anos, que anunciou no ano passado que deixará o cargo quando seu contrato expirar após o torneio.
Seu sucessor — o ex-companheiro de seleção Zinedine Zidane é o favorito há muito tempo — herdará um elenco talentoso e um desafio familiar: transformar o que talvez seja o maior reservatório de talentos da história do país na máquina vencedora que ele deveria ser.
A FRANÇA RARAMENTE É EXUBERANTE
As seleções de Deschamps raramente foram associadas à exuberância. Ele às vezes foi criticado por priorizar equilíbrio, disciplina e eficiência em detrimento do espetáculo, mesmo contando com alguns dos jogadores de ataque mais talentosos do futebol mundial.
Mas os resultados várias vezes justificaram os seus métodos.
Ele levou a França às quartas de final da Copa do Mundo de 2014, na qual a seleção perdeu por uma diferença mínima para a Alemanha, que acabou se sagrando campeã, antes de conduzir os anfitriões à final da Eurocopa de 2016. A derrota para Portugal na prorrogação foi dolorosa, mas lançou as bases para a conquista do título mundial na Rússia, dois anos depois.
A França venceu a Croácia por 4 x 2 na final de 2018, tornando Deschamps o terceiro homem, depois do brasileiro Mario Zagallo e do alemão Franz Beckenbauer, a conquistar a Copa do Mundo como jogador e como técnico.
A seleção também ganhou a Liga das Nações em 2021 e esteve a uma disputa de pênaltis de revalidar o título da Copa do Mundo no Catar, recuperando-se de uns primeiros 80 minutos desastrosos para empatar em 3 x 3 com a Argentina em uma das melhores partidas da história do torneio.
RESERVA DE CRÉDITO
Essas conquistas deram a Deschamps uma reserva de crédito que poucos treinadores poderiam igualar.
Ele sobreviveu às repercussões da decepcionante campanha da França na Eurocopa de 2020, aos debates recorrentes sobre seu estilo de jogo cauteloso e ao longo e polêmico afastamento do atacante Karim Benzema.
Sua autoridade permaneceu intacta porque ele continuou montando times capazes de chegar longe nos torneios.
O ex-volante havia construído uma carreira marcada pelas vitórias muito antes de assumir o comando da França.
Nascido em Bayonne em 1968, ele estreou na primeira divisão pelo Nantes ainda adolescente, antes de se juntar ao Olympique de Marselha, com o qual conquistou dois títulos do campeonato nacional e foi capitão do primeiro clube francês a levantar a Liga dos Campeões, em 1993.
Ele se transferiu para a Juventus no ano seguinte. Em Turim, Deschamps conquistou três títulos da Serie A e mais uma Liga dos Campeões, consolidando-se como o discreto organizador no coração de uma das equipes dominantes da Europa.
Eric Cantona certa vez o descreveu de forma desdenhosa como um "carregador de água", mas esse rótulo acabou por capturar as qualidades que definiam Deschamps: disciplina, inteligência, abnegação e uma compreensão instintiva do que as equipes vencedoras exigiam.
Ele disputou 103 partidas pela seleção e foi o capitão da equipe que conquistou a Copa do Mundo no Stade de France em 1998, antes de completar uma histórica dobradinha na Eurocopa realizada dois anos depois.
O sucesso o acompanhou na carreira de técnico.
Deschamps levou o Monaco à final da Liga dos Campeões de 2004, guiou a Juventus de volta à Serie A imediatamente após seu rebaixamento no escândalo do Calciopoli e pôs fim à espera de 18 anos do Olympique de Marselha por um título do Campeonato Francês em 2010.
Quando ele sucedeu seu ex-companheiro de seleção Laurent Blanc, em julho de 2012, a França ainda tentava reconstruir sua reputação após a greve dos jogadores na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.
ORDEM, CONFIANÇA, SUCESSO
Deschamps restaurou a ordem em primeiro lugar, a confiança em segundo e o sucesso logo em seguida.
Seus críticos argumentavam que o elenco talentoso da França exigia um futebol mais ofensivo. Sua resposta era geralmente a mesma: os torneios eram vencidos por meio da adaptabilidade, da determinação defensiva e da aceitação de que o estilo importa menos do que a sobrevivência.
Por mais de uma década, foi difícil contestar esse argumento.
A maneira como ocorreu a derrota desta terça-feira, no entanto, vai doer. A França chegou como favorita após seu poder ofensivo carregá-la durante a competição, mas acabou sendo superada técnica, tática e fisicamente pela Espanha em Dallas.
Deschamps admitiu que sua equipe precisava estar no seu melhor para competir e ficou bem aquém disso.
A França não conseguiu impor sua força, seu badalado ataque foi neutralizado e seu meio-campo foi dominado — um capítulo final sombrio para um técnico cujas equipes costumavam encontrar uma saída, mesmo quando jogavam mal.
"Não quero jogar fora tudo o que fizemos", disse Deschamps após a derrota. "Mas, nesta partida, a Espanha mostrou que tinha algo a mais."
Foi uma avaliação adequadamente ponderada vinda de um homem que raramente permitia que triunfos ou desastres alterassem sua postura pública.
Deschamps partirá sem a despedida gloriosa que tanto almejava, mas com um histórico que o coloca ao lado das figuras mais influentes da história do esporte francês.
Ele ergueu a Copa do Mundo como capitão, levantou-a novamente como técnico e passou 14 anos garantindo que a França estivesse quase sempre presente quando os maiores prêmios do esporte fossem decididos.
Uma noite dolorosa em Dallas não pode apagar isso.