O CSA notificou o condomínio da Liga Forte União (LFU) pedindo a investigação e eventual troca do administrador Gabriel Ribeiro Lima, alegando potencial conflito de interesses e risco de vazamento de dados estratégicos devido à sua ligação societária com a ODDZ Network, holding de Ronaldo Fenômeno. Em resposta, Lima e o Comitê Condominial defenderam a legitimidade de sua atuação, afirmando que seu vínculo é prévio, público, não executivo e que não há qualquer prova de irregularidade.
O CSA enviou nesta quinta-feira, 20, documento para pressionar o condomínio da Liga Forte União (LFU) a investigar e eventualmente substituir sua administradora, alegando que o administrador Gabriel Ribeiro Lima acumula a função com participação societária e no conselho da ODDZ Network, grupo ligado a Ronaldo Fenômeno, o que, na visão do clube alagoano, gera potencial conflito de interesses e risco de acesso indevido a informações estratégicas dos 33 clubes que integram o bloco.
Procurado, Lima diz que não exerce função executiva na ODDZ, na qual sua participação é publica e conhecida, e afirma se dedicar à administração do condomínio. (leia o comunicado na íntegra mais abaixo).
"Divergências fazem parte de uma estrutura dessa natureza. Transformá-las em suspeitas sobre a minha integridade, por meio de insinuações levadas à imprensa sem a apresentação de fatos concretos, revela falta de compromisso com a verdade e com a reputação das pessoas envolvidas", rebateu o executivo.
O CSA, no documento, levanta uma série de suspeitas de conflito de interesses, acesso a informações sensíveis e acusa falta de independência envolvendo Gabriel Ribeiro Lima. O clube alagoano, que disputa a Série D, não faz parte nem da FFU nem da Libra.
De acordo com o CSA, Gabriel Ribeiro Lima é sócio-fundador e membro do conselho da ODDZ Network, holding criada por Ronaldo Fenômeno, enquanto também exerce a função de administrador do Condomínio Forte União. A ODDZ atua em áreas como marketing esportivo, mídia, agenciamento de atletas e conteúdo audiovisual.
O CSA sustenta que isso pode criar um problema porque o administrador teria acesso a informações confidenciais dos 33 clubes integrantes da FFU, incluindo:
- receitas e situação financeira dos clubes;
- contratos de direitos de transmissão;
- valores de recompra;
- preços e inventário de propriedades comerciais;
- negociações com patrocinadores;
- estratégias comerciais;
- posições negociais dos clubes diante do investidor.
A notificação tenta demonstrar que há uma sobreposição entre os negócios da ODDZ e os interesses do condomínio.
O documento cita a Octagon Latam, empresa do grupo ODDZ, que trabalha com marketing esportivo, patrocínios, eventos e agenciamento de atletas. O CSA menciona que a agência tem ou teve relações com marcas como Mercado Livre, Ambev, Red Bull e Mastercard, que podem ser potenciais anunciantes das propriedades comerciais negociadas pelo condomínio.
Também menciona o agenciamento de jogadores pela Octagon de clubes que pertencem ao condomínio, como Rodrigo Garro e Tamires, ambos do Corinthians, e a produção audiovisual da Beyond Films.
A tese do CSA é: o administrador estaria simultaneamente em uma posição com acesso privilegiado às informações comerciais dos clubes e ligado a uma empresa que atua no mesmo ecossistema de negócios.
O CSA afirma ter encontrado um documento chamado "Resposta FFU Manifestacao CRB.docx", que seria uma resposta da Associação Futebol Forte União a uma manifestação do Clube de Regatas Brasil (CRB).
Nas propriedades do arquivo, segundo a notificação, aparece como autor Marco Farah, apontado como Chief Business Development Officer da ODDZ Network.
Isso leva o CSA a questionar por que um executivo de uma empresa privada ligada ao administrador do condomínio teria participado da elaboração de um documento institucional da FFU e se outros documentos também teriam sido produzidos ou revisados por pessoas externas à estrutura da entidade.
Briga no CADE
A notificação é uma continuação de uma disputa que já estava em andamento.
Em 12 de agosto, o CSA havia questionado a participação do administrador do condomínio em uma audiência técnica no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Os alagoanos argumentam que o condomínio não era requerente daquele processo e pediam que a administração não interviesse na disputa entre os clubes.
O CSA pede ao Comitê Condominial, entre outras coisas:
- Contrato completo da administradora, incluindo aditivos e anexos;
- mandato e procurações concedidos à administradora;
- informações sobre dedicação exclusiva, carga horária, não concorrência e conflitos de interesse;
- composição societária da empresa administradora;
- informações sobre a remuneração da administradora e de Gabriel Ribeiro Lima;
- políticas de compliance e declarações de conflito de interesses;
- levantamento de contratos entre o condomínio/FFU/clubes e empresas da ODDZ;
- identificação de terceiros contratados pela administradora;
- esclarecimentos sobre a autoria do documento produzido em resposta ao CRB;
- atas de reuniões que eventualmente tenham autorizado o acúmulo de funções por Gabriel.
Além disso, solicita que a administração não compartilhe documentos e informações do condomínio com terceiros sem contrato, confidencialidade e autorização prévia e que Lima deixe de participar dos procedimentos no CADE enquanto a questão estiver sendo analisada.
O CSA também fez 19 questionamentos a Lima. O clube quer saber se:
- se ele confirma ser sócio e conselheiro da ODDZ;
- qual é sua participação societária;
- quanto tempo dedica à administração do condomínio;
- quanto é remunerado e por quem;
- se possui vínculos com o investidor ou com a equipe comercial;
- se houve declaração formal de conflito de interesses;
- se empresas da ODDZ mantêm contratos com o condomínio ou clubes;
- se participou de negociações envolvendo marcas atendidas pela Octagon;
- se teve participação em negociações envolvendo atletas agenciados pela Octagon;
- quais mecanismos existem para impedir que informações dos clubes cheguem à ODDZ;
- se Marco Farah realmente participou da elaboração da resposta ao CRB;
- e se pessoas ligadas à ODDZ tiveram acesso a documentos ou informações dos clubes, inclusive material submetido ao CADE sob sigilo.
O prazo dado é de cinco dias para manifestação. O CSA ainda afirma que poderá levar os fatos e a resposta ao CADE e adotar medidas judiciais, arbitrais ou administrativas
Leia a nota de Gabriel Lima
"O Condomínio Forte União (CFU) foi instituído para organizar, sob uma mesma Convenção, os interesses de mais de 30 clubes, representados em bloco pela Futebol Forte União (FFU), e de um investidor. A Administradora representa o conjunto dos condôminos e sua contratação foi aprovada por unanimidade nas assembleias da FFU e do CFU. Foi nesse contexto que assumi a responsabilidade de administrar uma estrutura complexa, executar decisões coletivas e fazer cumprir regras comuns, inclusive quando elas contrariam a posição individual de algum de seus integrantes.
Divergências fazem parte de uma estrutura dessa natureza. Transformá-las em suspeitas sobre a minha integridade, por meio de insinuações levadas à imprensa sem a apresentação de fatos concretos, revela falta de compromisso com a verdade e com a reputação das pessoas envolvidas. Minha participação na ODDZ Network é pública, anterior à minha atuação no CFU e era conhecida quando assumi minhas funções. Não exerço função executiva na ODDZ e minha atividade profissional é dedicada à Administração do Condomínio.
A Administradora também não exerce a comercialização dos direitos do CFU, atividade atribuída à Equipe Comercial. A notificação reúne 19 questionamentos e diversas associações relacionadas à minha trajetória profissional, mas não aponta um único episódio concreto de compartilhamento indevido de informação, favorecimento à ODDZ, benefício pessoal ou prejuízo causado a qualquer condômino.
O próprio documento reconhece que os fatos mencionados não configuram, isoladamente, ilícito e registra expressamente que não me atribui, nem atribui a qualquer outra pessoa, a prática de ato ilícito. Os questionamentos terão o devido tratamento nas instâncias competentes."
Leia a nota do comitê condominial
"O Comitê Condominial acompanha de forma permanente a atuação da Administração do Condomínio Forte União e reconhece o trabalho desenvolvido por Gabriel Lima à frente do CFU, com dedicação, experiência no futebol brasileiro e compromisso com as regras estabelecidas na Convenção. A participação de Gabriel na ODDZ Network é anterior à sua atuação no Condomínio e era de conhecimento dos integrantes da estrutura quando ele assumiu suas funções. Gabriel Lima permanece no pleno exercício de suas funções e conta com a confiança do Comitê para seguir conduzindo a Administração do CFU".