O problema físico de Lionel Messi acendeu um alerta na Argentina a menos de 20 dias da estreia da seleção na Copa do Mundo, marcada para 16 de junho, diante da Argélia. O Inter Miami informou que o camisa 10 deixou o jogo contra o Philadelphia Union, no último domingo, 24, por conta de uma "sobrecarga associada à fadiga muscular na posterior da coxa", mas sem detalhar a gravidade do quadro.
O comunicado, porém, deixa margem para diferentes cenários médicos: desde um desgaste muscular reversível em poucos dias até uma lesão muscular com necessidade de semanas de recuperação.
Ao Estadão, o médico ortopedista, traumatologista e especialista em medicina do esporte Miller Assis explicou o que significa o diagnóstico divulgado pelo clube norte-americano, os possíveis tempos de retorno e os fatores que tornam o caso ainda mais delicado por envolver um atleta de 38 anos às vésperas de uma Copa do Mundo.
Isso significa que, matematicamente, ainda existe uma janela para Messi chegar à estreia da Argentina em condições de jogo, mas tudo depende da real magnitude do problema.
Por que idade, calendário e carga de jogos pesam no caso de Messi?
Além do diagnóstico em si, o contexto do atleta também influencia diretamente o prognóstico.
Messi tem 38 anos, atua em sequência intensa de jogos e se aproxima de um dos momentos mais importantes da carreira. Segundo Miller, atletas dessa faixa etária precisam de monitoramento constante. "Ele tem que estar submetido a um protocolo de avaliação contínua, de preferência diária", afirma.
O médico explica que esse acompanhamento vai além dos exames tradicionais e pode envolver avaliação subjetiva do atleta — qualidade do sono, dor, sensação de fadiga física e mental —, além de dados objetivos ligados à saúde muscular.
Ele cita, por exemplo, o uso de termografia (mapeamento da temperatura da pele usando câmeras infravermelhas), biomarcadores sanguíneos e análise de desempenho para acompanhar como o organismo responde às cargas de treino e competição.
Nos atletas mais velhos, a recuperação tende a ser mais lenta: "O que acontece nos atletas de idade maior? Eles têm uma dificuldade nessa recuperação. Então, eles podem demorar mais tempo a voltar no nível de uma aptidão completa à atividade física", explica.
Por isso, o controle da carga de trabalho se torna decisivo.
Controle de carga, fadiga acumulada e o risco de acelerar o retorno
A musculatura posterior da coxa está entre as mais exigidas — e mais lesionadas — do futebol de elite.
Segundo Miller Assis, arrancadas, frenagens bruscas e mudanças rápidas de direção submetem a região a elevadas cargas excêntricas, o que ajuda a explicar a alta incidência de problemas musculares no local.
"Sequência de jogos intensa, sequência de treinamento intensa, pressão pelo resultado, tudo isso vai gerar uma fadiga muscular acumulada", explica.
Esse acúmulo, segundo o especialista, representa tecnicamente um aumento do processo inflamatório, dificultando a recuperação adequada da musculatura. Com isso, começam a surgir sinais como queda de performance, redução de velocidade, sensação de cansaço e alterações em indicadores fisiológicos.
Se esse processo se prolonga, o risco de lesão aumenta. "Quanto mais nós temos esse efeito de carga acumulada, maior é o risco de uma lesão para esse atleta, porque o músculo não recuperou das microlesões, que são normais quando exposto à atividade física", explica.
No caso específico de Messi, existe ainda um equilíbrio delicado entre recuperar o atleta e manter seu nível competitivo.
Descansar demais pode comprometer a performance; acelerar demais pode aumentar o risco de agravar o quadro ou provocar recidiva. "Nós temos um limite muito tênue entre o que é a mais alta performance e o que é o risco de ter alguma lesão", resume o médico.
Dentro do cenário divulgado pelo Inter Miami, Miller vê margem para otimismo moderado.
Confira na íntegra o comunicado emitido pelo Inter Miami sobre a situação de Messi:
"O Inter Miami comunica uma atualização da lesão de Lionel Messi, cortesia do hospital Baptist Health.
O capitão do Inter Miami teve que deixar o campo ontem, domingo, dia 24 de maio, durante a partida contra o Philadelphia Union, devido a um desconforto físico.
Depois de passar por exames nesta segunda-feira, o diagnóstico inicial indica uma sobrecarga associada à fadiga muscular na posterior da coxa esquerda.
A estimativa de seu retorno às atividades físicas irá depender de sua evolução clínica e funcional."