Ayrton Senna é reconhecido mundialmente por sua carreira na Fórmula 1, mas também teve experiências em outras categorias. Uma delas ocorreu em 1984, nos 1000 Km de Nürburgring, etapa do Mundial de Endurance (WEC). Naquele ano, em sua estreia na F1 pela Toleman, Senna recebeu o convite de seu amigo português Domingos Piedade para competir pela Joest Racing, guiando um Porsche 956, carro de destaque em Le Mans.
Na Fórmula 1, Senna ainda dava seus primeiros passos, mas já chamava atenção. A Toleman, equipada com motores Hart turbo, não figurava entre as equipes de ponta, mas o brasileiro demonstrava velocidade impressionante, sobretudo em condições de pista molhada. Sua primeira grande atuação veio no GP de Mônaco de 1984, quando largou em 13º e avançou até alcançar Alain Prost, antes da corrida ser interrompida. O segundo lugar conquistado foi seu primeiro pódio e marcou sua chegada definitiva ao cenário mundial.
A performance em Mônaco repercutiu fortemente na Europa e mudou a percepção sobre Senna. De promessa da Toleman, passou a ser visto como futuro campeão mundial. Sua habilidade em extrair desempenho de carros limitados e o talento em pista molhada tornaram-se suas marcas registradas, chamando a atenção de dirigentes das principais equipes da Fórmula 1.
Pouco antes da prova de Nürburgring, Senna também brilhou ao vencer a corrida de inauguração do novo traçado do GP do circuito alemão, organizada pela Mercedes-Benz. Competindo em carros iguais contra nomes consagrados como Niki Lauda, Alain Prost e Carlos Reutemann, o brasileiro saiu vencedor, reforçando ainda mais sua reputação no automobilismo europeu.
Foi nesse contexto que surgiu o convite para correr pela Joest Racing. A adaptação de Senna ao Porsche 956 foi imediata e impressionou. Sem experiência prévia em protótipos do Grupo C, mostrou velocidade desde os primeiros treinos, realizados sob chuva. No classificatório, registrou o nono melhor tempo, surpreendendo a equipe alemã pela rapidez com que se ajustou ao carro.
A Joest, que havia conquistado sua primeira vitória em Le Mans naquele ano, era referência na categoria. Reinhold Joest chegou a questionar se Senna era apenas mais um piloto pagante, mas Domingos Piedade garantiu que se tratava de um talento já em ascensão na Fórmula 1. No carro número 7, Senna dividiu a pilotagem com Henri Pescarolo e Stefan Johansson, também piloto da F1.
A corrida começou com pista molhada e neste cenário Senna conseguiu disputar a liderança, mas a pista foi secando ao longo das voltas e um problema na embreagem obrigou o carro a permanecer cerca de 15 minutos nos boxes, o que custou oito voltas em relação aos rivais. Após o reparo, o trio conseguiu recuperar posições e terminou em oitavo lugar, enquanto a vitória ficou com o Porsche da equipe oficial, guiado por Stefan Bellof e Derek Bell.
Reinhold Joest ficou impressionado não apenas com a performance de Senna, mas também com sua postura fora da pista. O brasileiro dedicava horas a discutir acertos e compreender os detalhes técnicos do carro, comportamento incomum para um piloto tão jovem e em início de carreira na Fórmula 1. Após a prova, Joest chegou a perguntar quando Senna voltaria a correr pela equipe, mas Piedade foi categórico: aquela seria sua única participação no endurance. E assim se encerrou a breve, porém marcante, passagem de Senna pelas corridas de longa duração.