Nos últimos anos, temos visto o renascimento do Endurance pelo mundo. A introdução dos Hypercars se mostrou um tremendo acerto e os LMGT3 tiveram um belo desempenho, a despeito da retirada dos LMP2 do WEC (estes tem um papel interessante em outras categorias e cabe depois falarmos neles aqui). Grandes marcas vieram para o FIA WEC e o IMSA e os campeonatos tem tido um publico crescente ano após ano desde 2023.
O sucesso da fórmula, que combina um equilibrio entre filosofias que sempre tiveram dificuldade de se alinhar (os europeus do ACO e os estadunidenses do IMSA), controle de desenvolvimento e gastos, trazem novos entrantes. E cada vez mais as provas atraem mais gente, tanto nos autódromos, mídia e redes sociais.
Não à toa que tivemos extensões de regulamento. Originalmente, o atual regulamento que entrou em vigor em 2021 terminaria em 2025. Inicialmente, foi extendido para 2027. Posteriormente, houve uma renovação para 2029 e antes de Le Mans, um acordo entre todos garantiu a permanencia das regras técnicas até 2032.
Até aí, tudo certo, lindo e maravilhoso. Entretanto, o diabo mora nos detalhes. E aqui reside o grande problema que pode garantir o crescimento do FIA WEC e do IMSA ou mais uma morte pelo caminho...
Nos ultimos tempos, temos visto uma grande discussão sobre o Balanço de Performance (o tão falado BoP), especialmente entre os Hypercars (LMH e LMDh). Embora FIA/ACO e IMSA usem os mesmos parametros de homologação (e este ano, ambos usaram o mesmo tunel de vento para testes, o Windshear nos Estados Unidos), o modo que se usa é bem diverso. Não à toa que se ouviu muito que o IMSA conseguia manter o nível muito mais próximo entre os carros do que o FIA WEC, sem tanta firula.
Em 2025, FIA/ACO optaram por mexer na sistemática do BoP para o WEC, procurando aumentar a amostra de voltas para medição do desempenho. Porém, principalmente no período pré-Le Mans, houve muito questionamento interno. Inclusive foi um dos pontos que pesaram para a saída da Porsche nos Hypercars no FIA WEC, por achar que o sistema foi "ingrato". Pierre Fillon, Presidente do ACO, admitiu que "nao funcionou".
Um novo sistema vendo sendo discutido, embora as novas regras publicadas não dão muitas pistas do que vem, embora tenha a previsão de um item baseado em sucesso, algo semelhante ao que já existe na LMGT3, onde os tres primeiros das ultimas provas recebem peso adicional.
Mas além do BoP, uma questão acaba por ser mais crítica ainda e aqui sim pode definir se o Endurance pode seguir crescendo ou marcar a perda de mais uma oportunidade: a convergência de plataformas.
Havia a preocupação de que a entrada de novas fabricantes e a estabilidade de regras pudesse levar a uma "corrida armamentista", com as marcas atuais investindo mundos e fundos em novos projetos para poder se aproximar dos novos carros. Não eram poucas as notícias de que haveria a construção de novos carros, aos invés do uso dos pacotes de atualização (evo jokers). Uma dessas era a Peugeot, que já tinha feito uma enorme transformação no 9X8.
Na linha da prorrogação de regras, uma ideia que era advogada pela Porsche era a convergência das plataformas do Hypercars. Hoje, temos duas: os Le Mans Hypercars, que tem maior liberdade técnica, especialmente na recuperação de energia (podem usar tração integral e recuperar mais energia); e os Le Mans Daytona Hypercars (LMDH), que usam sistema híbrido padrão, com recuperação de energia somente no trem traseiro e 25% dos LMH (50KW contra 200KW). A parte aerodinamica e mecanica (chassis) entre as duas é igual.
Na atual configuração, poucos escolheram os LMH (Peugeot, Toyota, Ferrari e Aston Martin), enquanto as demais marcas, inclusive as novatas Genesis (Hyundai), Ford e McLaren optaram pelos LMDH, até por serem mais baratos de desenvolver por conta do sistema híbrido padrão.
Diante da dificuldade de equalização entre as plataformas (motivo este que, desde a entreda do atual regulamento, nenhum LMH foi correr no IMSA),a intenção da FIA/ACO de introduzir o hidrogênio como combustível em algum momento (Toyota, Alpine e BMW tem projetos neste sentido) e evitar um aumento de custos, houve a ideia de unificar.
Achar este meio do caminho é complicado, pois significaria tirar alguma coisa dos LMH e turbinar os LMDH. Entretanto, há esta discussão entre todas as partes. Embora haja a concordância da manutenção das regras até 2032, as principais marcas se comprometeram a permanencer no FIA WEC até 2029, pois seria um prazo para que os novos entrantes pudessem amortizar seus investimentos e os atuais carros não tivessem que sofrer muito para seguir na pista.
A Porsche olha com atenção para esta discussão, pois ela consideraria um retorno ao FIA WEC se as escolhas "certas" fossem tomadas, lembrando que o 963 teve o uso de dois pacotes de atualização e poderia usar a sua estrutura para uma nova versão do 963 ou até mesmo uma nova arma (964?). A Peugeot, que trabalhava em um novo projeto, já fala em "esticar" a vida útil do 9X8. A mesma coisa vale para a Ferrari, que já se comprometeu a ficar até 2029 com o 499P.
As entidades sabem do tamanho da responsabilidade e que um passo em falso pode botar tudo a perder. As discussões seguem em curso e deveremos ainda ouvir falar muito deste assunto por aqui. Mas 2030 é o momento crucial para o Endurance.