Argentina e Espanha deveriam ter acertado as contas no Catar no início deste ano, na Finalíssima entre os campeões da América do Sul e da Europa, antes que os ataques de EUA e Israel ao Irã forçassem o cancelamento da partida. No domingo, em Nova Jersey, elas finalmente se enfrentarão com muito mais do que um troféu simbólico em jogo.
A final da Copa do Mundo oferece ao maior palco do futebol um confronto deliciosamente inusitado: a Argentina, cheia de energia, fogo e Lionel Messi, contra a Espanha, campeã europeia que parece tratar o caos como um erro administrativo e transformou o controle em algo próximo a uma forma de arte.
É a América do Sul contra a Europa, paixão contra precisão, uma partida entrelaçada com uma curiosa história pessoal, da linha lateral até La Masia, onde o maior jogador formado pelo Barcelona, Messi, enfrentará o adolescente Lamine Yamal, o jovem e brilhante herdeiro da academia.
A Argentina está de volta à final quatro anos após seu triunfo catártico no Catar, quando Messi finalmente ergueu o troféu em uma vitória de tirar o fôlego sobre a França. Naquela época, com Messi aos 35 anos, outra final de Copa do Mundo parecia algo improvável. Agora, aos 39, ele ainda desafia o tempo, os zagueiros e as probabilidades.
A campanha da Argentina tem sido menos uma defesa tranquila do título e mais uma verdadeira via-sacra. Com 17 dos 26 jogadores do elenco tendo participado do triunfo de 2022, a equipe de Lionel Scaloni chegou à final pelo caminho mais difícil: derrotando Cabo Verde na prorrogação e sobrevivendo a confrontos de tirar o fôlego contra Egito, Suíça e Inglaterra.
Em alguns momentos, jogaram com muita garra e paixão, impulsionados pelos gols, assistências e lampejos de magia de Messi. Cada intervenção acrescentou mais uma página ao debate sobre se ele ou o brasileiro Pelé é o maior jogador de futebol da história.
Se a Argentina tem dado a impressão de ser um Rocky Balboa cambaleando por mais um round, a Espanha chegou parecendo mais um grupo de profissionais frios que sabem exatamente por onde sair.
Invicta há 37 partidas, a Espanha pode conquistar sua segunda Copa do Mundo, depois de 2010, e quebrar o recorde internacional de invencibilidade estabelecido pela Itália entre 2018 e 2021. A equipe chegou à América do Norte como favorita das casas de apostas após vencer o Campeonato Europeu e, em grande parte, tem se comportado como um time que vê a pressão não como um perigo, mas como um compromisso já agendado.
Seu caminho parece ter sido cuidadosamente traçado, como se tudo antes da semifinal fosse parte do aquecimento. Sob o comando de Luis de la Fuente, que treinou muitos dos jogadores desde a adolescência nas categorias de base da Espanha, eles desenvolveram um nível de entrosamento coletivo capaz de fazer os adversários se sentirem presos em uma sala lindamente iluminada, mas sem portas. A França conhece bem essa sensação.
CONEXÕES PESSOAIS
O jogo posicional e de passes da Espanha pode ser sufocante, mas dentro dessa máquina há também uma criatividade desenfreada, e a maior parte dela vem de Lamine.
O ponta, que encantou o Campeonato Europeu aos 16 anos, passou sua curta carreira quebrando recordes de idade e superando expectativas. Desde que estreou pelo Barcelona aos 15 anos, ele tem sido comparado ao produto mais famoso da La Masia — o homem que enfrentará no domingo.
Messi e Lamine também estão ligados por uma das imagens virais mais estranhas do futebol: Messi, quando era um jovem jogador do Barcelona, fotografado dando banho no bebê Lamine. O que antes parecia uma curiosidade pitoresca agora parece um presságio elaborado por um roteirista particularmente brincalhão.
Quando questionado se o talento de Messi havia sido transmitido a Lamine naquele dia, como o toque de Midas, o pai de Lamine respondeu: "Quem pode dizer que não foi o contrário?"
As conexões continuam no banco de reservas. Scaloni enfrentará De la Fuente, que foi seu tutor no curso de treinadores da Federação Espanhola de Futebol há quase uma década. O aluno agora enfrenta o professor com a Copa do Mundo em jogo.
A final também pode ser influenciada pelas condições do campo. O gramado de Nova Jersey não tem sido favorável às seleções que buscam a posse de bola, com técnicos e jogadores reclamando de sua qualidade durante o torneio. Isso pode atrapalhar o ritmo da Espanha e levar a Argentina a um tipo de disputa acirrada e cheia de emoção, que ela adora.
O clima pode adicionar mais um elemento de intriga. A previsão é de um dia quente e úmido, com temperaturas em torno de 30 graus Celsius, e será apenas a segunda partida da Espanha em um estádio ao ar livre nesta Copa do Mundo. A fumaça dos incêndios florestais no Canadá também cobriu partes do Meio-Oeste e do Nordeste dos EUA com ar tóxico, gerando preocupações, já que mais de 80 mil torcedores são esperados na final.
Para a Espanha, a tarefa é manter a partida limpa, controlada e jogada de acordo com seus padrões. Para a Argentina, é transformar o desconforto em espetáculo mais uma vez.
No centro de tudo isso está Messi, tentando garantir que o que pode ser sua última partida na Copa do Mundo não termine como uma despedida, mas como um último ato de maestria.