A Truth Social, rede social criada por Donald Trump, começou a vender, no último sábado, 1º, acesso antecipado às postagens feitas pelo presidente dos Estados Unidos.
Segundo a agência de notícias Reuters, a Trump Media & Technology Group (TMTG), proprietária da Truth Social, ofereceu o serviço a investidores de Wall Street por até US$ 100 mil por mês. Fontes ouvidas pela agência também afirmaram que a empresa apresentou um plano com desconto de US$ 60 mil mensais para assinantes que fecharem contrato de três anos.
Procurado, o gabinete de imprensa de Trump se recusou a comentar o assunto e encaminhou os questionamentos à TMTG. A empresa, por sua vez, divulgou um comunicado no qual acusa os democratas de deturparem o serviço "por oposição ideológica ao livre mercado ou por não compreenderem a distinção entre informação pública e não pública - ou, muito provavelmente, por ambos".
Apelidado de Truth API, o serviço disponibilizará as publicações da Truth Social aos clientes em milissegundos. A plataforma oferecerá cobertura contínua, 24 horas por dia, e incluirá um arquivo histórico de postagens que remonta a 2022.
Trump costuma comentar assuntos relevantes na rede social, abordando com frequência temas como tarifas, mudanças no governo americano e o conflito no Oriente Médio.
No mês passado, por exemplo, em publicações na Truth Social, ele ameaçou aumentar as taxas sobre importações do Canadá, acabar com o acordo nuclear com a Arábia Saudita e intensificar a guerra contra o Irã. Com acesso prévio a essas informações, investidores que apostaram na queda do dólar canadense, na desvalorização das ações de empresas de energia nuclear e na alta dos contratos futuros de petróleo poderiam obter grandes lucros.
Trump já fez ações, títulos e moedas dispararem ou despencarem com comentários publicados nas redes sociais. Isso cria oportunidades para os chamados high-frequency traders (operadores de alta frequência), especializados em comprar e vender ativos em questão de milissegundos, explorando pequenas e passageiras diferenças de preços.
Essas reviravoltas são especialmente lucrativas, pois permitem que os operadores ganhem nos dois sentidos: antecipam-se à alta ou à queda das ações após uma postagem com ameaças, realizam os lucros em frações de segundo e, em seguida, passam a apostar no movimento contrário.
"Para as grandes empresas, será algo de que precisarão", disse o cofundador da Themis Trading, Joe Saluzzi, que estima que cerca de 100 empresas de negociação de alta frequência estejam dispostas a pagar pelo serviço. "São informações que impactam o mercado."
O serviço surge em um momento em que essas empresas aumentam os investimentos em fluxos de dados e servidores que contornam conexões mais lentas da internet por meio de ligações diretas com fontes de notícias e informações de mercado.
A possibilidade de lucro nunca foi tão grande graças à capacidade da inteligência artificial de interpretar postagens e notícias com mais precisão para identificar informações capazes de movimentar os mercados, somada à propensão de Trump de anunciar decisões e gerar notícias pelas redes sociais.
A iniciativa, no entanto, levanta questionamentos sobre o uso de informações privilegiadas e do cargo público para benefício próprio.
"Se fosse o CEO de uma empresa de capital aberto, ele seria preso", disse a diretora da Able Alpha Trading, Irene Aldridge, que não pretende contratar o serviço. "Temos um presidente dos EUA que acompanha tudo de perto, que toma todas as decisões, e ele está divulgando isso antecipadamente para um grupo seleto."
Além de Trump, o serviço incluirá publicações de outros colaboradores de "alto escalão" da Truth Social, como os filhos mais velhos do republicano, Donald Trump Jr. e Eric Trump.
A Truth Social afirmou que as informações serão divulgadas aos operadores e ao público em geral ao mesmo tempo, de modo que não haveria qualquer problema de equidade. Saluzzi, porém, disse que esse argumento é uma cortina de fumaça, porque o que realmente importa não é o momento em que as postagens são divulgadas, mas quando elas são efetivamente recebidas.
"Quem compra esse tipo de informação e tem um sistema preparado para processá-la consegue agir mais rápido do que você e eu", afirmou Saluzzi. Referindo-se aos pequenos investidores, acrescentou: "Quem sempre sai perdendo é o investidor de varejo."
No ano passado, a TMTG registrou faturamento de US$ 3,7 milhões. As ações da empresa caíram 75% desde que Trump assumiu o cargo, e ela continua acumulando prejuízos de centenas de milhões de dólares, apesar da ajuda do presidente ao impulsionar o tráfego da plataforma com anúncios de decisões importantes.
Trump publica notícias na Truth Social com tanta frequência que a assessoria de imprensa da Casa Branca copia suas postagens em e-mails enviados em resposta a questionamentos da imprensa sobre políticas do governo. Quando as publicações ainda não estão disponíveis, jornalistas às vezes são orientados a "esperar pela verdade" - um trocadilho com o nome da rede social.
A plataforma poderá enfrentar problemas caso os democratas assumam o controle do Congresso nas eleições de meio de mandato, marcadas para novembro, e iniciem investigações, conforme prometeu a senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, em comunicado divulgado na sexta-feira, 31, no qual criticou a Truth API. "Vamos responsabilizar os culpados por essa corrupção descarada perante o povo americano", escreveu Elizabeth.
Se os prejuízos da empresa continuarem aumentando, alguns analistas preveem que o presidente irá além e utilizará a plataforma ainda mais para anunciar políticas públicas. "Isso com certeza vai acontecer", alertou a representante do grupo de defesa da transparência governamental Public Citizen, Craig Holman. "Trump sabe como vender produtos."/Com informações da AP