A persistência da volatilidade econômica global e das tensões geopolíticas, além do avanço desenfreado da inteligência artificial (IA), têm pressionado a agenda dos conselhos de administração das empresas no Brasil. Com isso, é elevada também a expectativa de investidores de que o papel dos seus integrantes seja cada vez mais preventivo, técnico e capaz de antecipar riscos.
A visão vem da edição mais recente do estudo "Tendências Globais de Governança Corporativa 2026", produzido pela consultoria Russell Reynolds Associates. A pesquisa global, que tem periodicidade anual, mapeia as principais tendências identificadas por lideranças da área para os integrantes de conselhos de administração brasileiros e de outros países para o ano de 2026.
Nesta edição, foram ouvidos mais de 1.200 líderes de empresas e conselheiros de administração. Além de lideranças no Brasil, foram ouvidos representantes de 60 países, entre eles Estados Unidos, China, Japão, Canadá, México, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Índia, Austrália e Cingapura.
No contexto brasileiro, as cinco tendências identificadas para 2026 foram:
- Instabilidade econômica e incerteza política restringindo ambições de negócios e puxando o foco para saúde financeira, eficiência, liquidez e sustentabilidade de caixa;
- A IA deixando de ser um conceito abstrato para se tornar uma responsabilidade central da governança;
- A supervisão de capital humano indo além da remuneração e abrangendo cultura, desenvolvimento de liderança e planejamento de sucessão, tanto para executivos quanto para membros do conselho;
- O crescimento da importância da avaliação interna dos conselheiros e da responsabilização do conselho de administração;
- As metas ambientais estando mais vinculadas ao financiamento, à gestão de riscos e à eficiência operacional, em vez de apenas à reputação corporativa.
Na avaliação da Russell Reynold Associates, as tendências para os conselhos de administração no Brasil em 2026 refletem um cenário que requer maior cautela e eficácia dos integrantes dos colegiados, como afirma o sócio-diretor da consultoria no Brasil, Jacques Sarfatti.
"O ambiente ficou mais exigente e menos previsível", diz. "Há volatilidade econômica, aceleração da IA e tensões geopolíticas persistentes, o que empurra os conselhos para um papel mais técnico, preventivo e diretamente conectado à estratégia do negócio. No Brasil, isso se soma à necessidade de equilibrar maturidade digital, responsabilidade socioambiental e diversidade na composição dos conselhos."
O mapeamento indica também uma mudança de direção no foco dos conselhos. Na pesquisa de 2024, um ano antes da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP-30) no Brasil, as agendas ambiental e de diversidade apareciam mais fortemente entre os temas para a agenda nos conselhos do País. Em 2026, eles perderam vigor.
O declínio também está sinalizado na pesquisa "Prioridades dos conselhos de administração para 2026 no Brasil", da consultoria Ernst & Young (EY), divulgada no início do ano, em que as pautas relacionadas a mudanças climáticas e gestão ambiental aparecem em último lugar para conselheiros, entre nove áreas prioritárias investigadas pelo mapeamento.
Para Sarfatti, a mudança reflete a maturação da agenda nos conselhos e o aumento da pressão externa sobre sua atuação. "Em 2024, o foco estava em incorporar temas como ESG e diversidade. Em 2026, esses tópicos já estão mais consolidados, e a prioridade passa a ser execução, gestão de riscos e governança de tecnologias como a IA."
Além disso, os conselhos estão tendo que lidar com o crescente monitoramento de investidores e reguladores, acrescenta o analista. "(Isso) exige dos conselhos maior accountability (prestação de contas), preparo técnico e capacidade de antecipar riscos. Com um ambiente mais instável e complexo, os conselhos deixam de focar apenas em 'o que fazer' e passam a atuar cada vez mais em 'como fazer'."
O cenário que retrata as tendências dos conselhos brasileiros aparece em linha com os tópicos eleitos globalmente, o que indica, na visão de Sarfatti, que o Brasil está alinhado às principais prioridades da governança global e inserido na mesma agenda estratégica dos mercados mais maduros.
"Na prática, isso mostra que os conselhos brasileiros já estão acompanhando e respondendo aos mesmos desafios globais. Ou seja, o País não está defasado. Ele está participando ativamente da agenda internacional de governança, com um nível crescente de sofisticação e alinhamento às melhores práticas."
Desafio com a IA
Entre as cinco tendências apontadas para os conselhos no Brasil, a governança da IA é vista como a mais desafiadora para enfrentar em 2026, pois deixa de ser um tema pontual e passa a exigir atuação contínua do conselho, com supervisão ativa, novas competências técnicas e integração direta às estruturas de risco e de compliance.
Um agravante é que muitos conselhos ainda estão em processo de desenvolver familiaridade com o tema, ao mesmo tempo em que precisam tomar decisões estratégicas sobre ele, acrescenta Sarfatti.
Como orientação diante dos resultados da pesquisa, os conselhos precisam evoluir sua atuação para um modelo mais dinâmico, técnico e integrado à estratégia do negócio, para conduzir seu trabalho com resiliência e eficiência ao longo do ano, comenta o analista.
"Isso significa tratar a governança como uma capacidade contínua de adaptação: fortalecer o entendimento sobre IA, incorporar novas competências ao colegiado, ampliar o uso de análises de cenário e aprofundar a supervisão sobre riscos. Além disso, revisar a própria dinâmica do conselho, para garantir que esteja adequada ao nível crescente de complexidade (dos temas em foco)."