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Tarifaço: Governo, no momento adequado, saberá como implementar lei da reciprocidade, diz Alckmin

Executivo anunciou que haverá recalibragem do chamado plano Brasil Soberano, que prevê apoio às empresas exportadoras afetadas pela sobretaxa

16 jul 2026 - 17h10
(atualizado às 18h30)

BRASÍLIA - O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou nesta quinta-feira, 16, que o tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos sobre a importação de produtos brasileiros é uma medida "injusta e descabida. Ele afirma que nenhum dos argumentos levantados pelo país como justificativa são plausíveis.

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"Tarifaço dos EUA é medida injusta e descabida, EUA têm superávit com Brasil. Os argumentos partem de uma base totalmente falsa, não têm justificativa. Argumentos levantados na Seção 301 partem de bases falsas sobre Pix e desmatamento", disse o ministro em entrevista coletiva. "Mesmo com o Pix, cartão de crédito cresceu no Brasil. E o Brasil não está batendo recorde de desmatamento, como disseram."

O ministro afirmou que, no momento adequado, o governo saberá como implementar a Lei de Reciprocidade Econômica. Aprovada pelo Congresso Nacional em abril de 2025, a lei permite que o País responda a medidas unilaterais adotadas por países ou blocos econômicos que impactem negativamente a competitividade internacional brasileira.

Governo Lula repudia tarifaço e fala em acionar lei da reciprocidade no momento adequado
Governo Lula repudia tarifaço e fala em acionar lei da reciprocidade no momento adequado
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

"Nós temos uma lei que é a lei da reciprocidade, aprovada por unanimidade do Congresso Nacional. E o governo, no momento adequado, saberá como implementá-la", disse.

O vice-presidente afirmou que a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) irão realizar um "empenho" para que o Brasil abre novos mercados para os produtos brasileiros que receberam a nova taxação de 25% dos Estados Unidos.

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"A Apex, o BNDES, o BDI vão fazer um empenho redobrado para a gente abrir novos mercados e crescer ainda mais o comércio exterior. Mas destacando que o ano passado, mesmo com taxação dos EUA, foi o recorde de exportação para o Brasil", disse.

Também participam da coletiva de imprensa o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; os ministros Dario Durigan (Fazenda), Mauro Vieira (Relações Exteriores), Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e João Paulo Capobianco (Meio Ambiente) e a secretária Nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães. A coletiva ocorre na sede do MDIC, em Brasília.

Levaremos a Lula retomada do processo de reciprocidade conforme determina lei, diz Durigan

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que será levado para avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o processo de retomada da reciprocidade em relação aos EUA.

"O presidente Lula nos dará orientação a respeito disso. Nós seguiremos sem baixar a cabeça, sem nos dobrar a interesses estrangeiros. Com isso, vamos seguir protegendo o Pix, o maior símbolo da nossa soberania financeira. Nós seguiremos protegendo a nossa soberania, sem 'viralatice'. E nós seguiremos protegendo a nossa democracia contra a interferência internacional indevida", declarou Durigam

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Ele reforçou ainda que o governo segue aberto à diplomacia e à negociação, seja com os Estados Unidos ou com qualquer outro país. Já Mauro Vieira, das Relações Exteriores, reforçou que o Brasil "sempre teve interesse" em negociar e discutir acordos com os EUA e ressaltou que o presidente Lula quer seguir em diálogo com EUA e todos os países.

Durigan afirmou que a estabilidade dos indicadores macroeconômicos no Brasil estará mantida, apesar do que ele chamou de "interferência externa dos EUA". Ele também argumentou que ampliação das exceções no tarifaço, de 25%, reforça que há complementaridade das economias dos EUA e Brasil.

"A nossa estabilidade macroeconômica está e estará mantida a despeito da interferência externa dos Estados Unidos. Com isso, eu não quero menosprezar o impacto negativo, porventura, para alguns setores. Vamos seguir entregando recorde de emprego no país, de geração de emprego, mínima de inflação, recorde de balança comercial, de abertura de novos mercados, de investimento em infraestrutura", declarou Durigan.

Ministro afirma que governo vai recalibrar plano de apoio às empresas afetadas

O ministro da Fazenda disse que haverá uma recalibragem do chamado plano Brasil Soberano, que prevê apoio às empresas exportadoras de bens industriais diante de medidas como o tarifaço dos EUA. Ele disse que é possível que no mês que vem os efeitos deste plano de apoio já possam ser verificados.

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"Os setores afetados serão mais uma vez chamados ao diálogo e nós ampliaremos e reforçaremos o Plano Brasil Soberano, que dá apoio a quem foi injustamente afetado", declarou Durigan. O governo entende que alguns setores serão afetados, mas a estabilidade macroeconômica "está e estará mantida a despeito da interferência externa dos Estados Unidos", segundo argumentou o ministro da Fazenda.

Ele também adiantou que foram testados com sucesso linhas de apoio a exportadores e repetiu que os setores serão ouvidos. O Novo Brasil Soberano ainda não tem valor. O governo federal conseguiu aprovar no Congresso a disponibilização de linhas de financiamento para o enfrentamento dos impactos causados por razões geopolíticas e de instabilidade internacional, inclusive aqueles decorrentes da aplicação de percentuais majorados de tarifas comerciais, às pessoas jurídicas.

As linhas de financiamento serão concedidas com a utilização de até R$ 15 bilhões, pela previsão até então, a exportadoras de bens industriais e seus fornecedores, bem como a atuantes em setores industriais "relevantes ao comércio exterior brasileiro". Essa é a previsão da Medida Provisória publicada em março.

Carta de Trump a Lula mostrou expressa motivação política para tarifaço, diz Vieira

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que houve "expressa motivação política" com a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros aplicada pelos EUA. Como exemplo disso, ele recordou a carta do presidente Donald Trump em julho de 2025, quando a tarifa de 50% foi anunciada.

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Ele reforçou que o Brasil "sempre teve interesse" em negociar e discutir acordos com os EUA e ressaltou que o presidente Lula quer seguir em diálogo com EUA e todos os países.

Mauro Vieira repetiu que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, teria criticado o presidente Lula de forma "inaceitável e ofensiva". Nesta madrugada, ao anunciar a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, Rubio disse, no X, que o governo brasileiro não negociou com os americanos de boa-fé.

Também presente na coletiva, a secretária Nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães, disse que o governo brasileira esperava cooperação dos EUA no tema de criminalidade. Ele refutou qualquer argumento de possível "má-fé" da parte do Brasil.

EUA pediu para Brasil limitar investimentos em minerais críticos, diz Elias Rosa

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que os Estados Unidos, durante uma das rodadas de negociações realizadas na tentativa de evitar a aplicação da sobretaxa sobre os produtos brasileiros nos EUA, pediram que o Brasil limitasse o investimento interno em projetos e empresas de extração de minerais críticos.

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"Numa das rodadas de negociação, o que nos foi solicitado foi que nós fizéssemos medidas que limitassem investimentos por atores não orientados pelo mercado e entidades estrangeiras. A exemplo do que eles fizeram com outros países [...] Obviamente não aceitamos e não aceitaremos", disse.

O ministro afirmou que, mesmo com a tarifa já confirmada, o governo federal não sairá da mesa de negociação e não "abandonará o multilateralismo".

"Defendemos o multilateralismo. No último encontro que nós tivemos, no final da terça-feira, nós deixamos claro que o Brasil não sai da mesa de negociação. Não abandona a mesa de negociação, porque acreditamos no multilateralismo."

Brasil teve menor índice de desmatamento da década no 1º semestre de 2026, diz Capobianco

O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que as alegações dos Estados Unidos sobre a política ambiental brasileira não possuem fundamento técnico e ignoram os resultados recentes obtidos pelo País no combate ao desmatamento.

"O governo norte-americano afirmava que o Brasil tinha um descontrole do desmatamento. Nós preparamos vários documentos demonstrando tecnicamente os avanços da conservação. Na Amazônia, inclusive, nós reduzimos 50% o desmatamento nos três últimos anos e este ano seguimos reduzindo", disse.

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Capobianco destacou que o Brasil registrou uma queda recorde do desmatamento em junho deste ano e alcançou, no primeiro semestre de 2026, o menor índice para o período na última década, desde o início do atual sistema de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O ministro também rebateu as críticas relacionadas ao setor madeireiro. De acordo com ele, o Brasil responde por apenas 0,65% de todo o mercado internacional de madeira, participação que classificou como reduzida. O ministro acrescentou que os produtos florestais exportados pelo País não concorrem diretamente com a produção norte-americana, baseada principalmente em madeiras de clima temperado.

Capobianco afirmou ainda que o sistema brasileiro de exportação de madeira está entre os mais rigorosos do mundo. Segundo ele, toda a cadeia é rastreada e certificada, desde a origem da madeira na floresta até o embarque para o exterior. Capobianco ressaltou que cargas destinadas à exportação são submetidas à fiscalização de órgãos ambientais e aduaneiros e precisam comprovar a origem legal do produto.

"O Brasil tem uma participação muito pequena no mercado internacional de madeiras. O Brasil exporta apenas, participa, melhor dizendo, apenas com 0,65% de todo o mercado internacional de madeiras [...] Mesmo se houvesse competição, a acusação da ilegalidade é absolutamente inverídica. O sistema de exportação de madeira é hoje um dos mais rigorosos de todo o sistema de controle ambiental. Toda madeira exportada é certificada."

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Para Capobianco, as justificativas ambientais apresentadas pelos Estados Unidos para embasar a investigação comercial contra o Brasil são "absolutamente improcedentes" e não refletem a realidade do setor ambiental brasileiro.

O novo tarifaço

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) confirmou a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, em comunicado publicado no fim da noite de quarta-feira, 15. A entrada em vigor da cobrança está programada para a próxima quarta-feira, 22.

A nova tarifa ocorre no âmbito da investigação comercial sob a Seção 301 da Lei de Comércio americana. Os EUA acusam o Brasil de adotar práticas ilegais em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico - como o Pix -, tarifas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal.

A publicação do USTR trouxe uma lista de mais de 2 mil itens isentos da tarifa de 25%, incluindo carne bovina, café, laranja, suco de laranja, partes para a fabricação de aviões, petróleo e celulose.

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Outros produtos básicos brasileiros com peso relevante na inflação americana também foram deixados de fora da taxação, sob a justificativa de que "não são produzidos no país", o que fez com que a lista de exceções crescesse em comparação com a publicada de maneira preliminar em junho.

Escritório Comercial dos EUA se diz 'aberto a negociar'

O USTR afirmou, em documento sobre a conclusão das investigações, que a taxa é necessária para enfrentar o que considera como "práticas comerciais injustas", que estariam impedindo trabalhadores e produtores dos Estados Unidos de acessar o mercado brasileiro.

"Negociações extensas com o Brasil ao longo do último ano não resolveram essas questões, mas continuamos abertos a prosseguir as negociações com o Brasil para promover mudanças há muito necessárias nos problemas identificados nesta investigação", disse o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer.

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