Chefe da diplomacia americana disse que Lula não negociou "de boa-fé" e "colocou o próprio ego acima de um acordo em benefício do povo brasileiro". Governo brasileiro vê motivação política em tarifas.O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, acusou nesta quinta-feira (16/07) o chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, de atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de maneira "grosseira e arrogante" ao justificar o novo tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump ao Brasil.
Em uma postagem no X, Rubio disse que Lula não negociou "de boa-fé" e "colocou o próprio ego acima de um acordo em benefício do povo brasileiro". "E essas tarifas são o preço disso", escreveu.
Para Vieira, as declarações de Rubio são "inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro".
"Rubio ataca de forma grosseira e arrogante o chefe de Estado de um país amigo", disse o chanceler brasileiro, acrescentando que Lula sempre se mostrou disposto a negociar.
"Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas no curso das negociações."
De acordo com o ministro, o governo Trump tentou pressionar o Brasil a ceder acesso exclusivo a empresas americanas a alguns setores da economia.
Na quarta, o governo brasileiro divulgou nota em que afirma que 76% das importações americanas entraram no Brasil livres de tarifas, e que a tarifa média efetivamente incidente sobre produtos americanos era de apenas 3,1%.
Governo brasileiro vê motivação política em tarifas
Segundo Vieira, as tarifas foram impostas por "razões políticas" e as justificativas apresentadas pela Casa Branca "não têm lastro na realidade".
Para o ministro, a alegação de que o Pix cria concorrência desleal para as empresas americanas de cartões de crédito "não é um argumento sério".
Washington também argumentou que o desmatamento ilegal no Brasil dificulta a competitividade da indústria madeireira americana nos mercados globais — algo que Vieira classificou como "absurdo".
"Desde 2022, reduzimos significativamente o desmatamento na Amazônia e no Cerrado", afirmou.
Trump é aliado do ex-presidente de ultradireita Jair Bolsonaro e de sua família. O filho mais velho de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, é o principal adversário de Lula nas eleições presidenciais de outubro.
No ano passado, Washington impôs tarifas ao Brasil citando, entre outras justificativas, o julgamento que resultou na condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
A maior parte dessas tarifas foi posteriormente suspensa após negociações entre os dois países.
Tarifas de até 25%
Na quarta-feira (15/07), os EUA anunciaram que vão taxar produtos brasileiros em até 25% como punição ao que consideram "práticas comerciais desleais" do Brasil.
A medida, que entra em vigor em 22 de julho, encerra uma investigação aberta há um ano sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, criada para responder a medidas econômicas "irrazoáveis ou discriminatórias" de governos estrangeiros que restrinjam o comércio americano.
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Elias Rosa, as tarifas devem afetar cerca de 18% das exportações aos EUA, equivalentes a cerca de 7 bilhões de dólares.
A taxa vale para todos os produtos brasileiros, com exceção de 2.100 itens isentos devido à importância para a economia americana. Entre eles estão carne bovina, café, diversas frutas e verduras, laticínios, instrumentos médicos, plásticos e borracha, além de minerais e metais como carvão, cobalto, níquel e alumínio.
Em resposta, o Brasil ameaçou retaliar com tarifas recíprocas sobre produtos americanos.
A nova rodada de tarifas de Trump vem apesar de um histórico de superávit comercial dos EUA com o Brasil. Em 2025, as exportações americanas para o Brasil superaram as importações em quase 42 bilhões de dólares; apenas os superávits comerciais dos Estados Unidos com a Holanda e o Reino Unido foram maiores.
ra (AFP, AP, ots)
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