Entre a população brasileira economicamente ativa, seis em cada dez pessoas precisaram, no último ano, fazer atividades remuneradas além do trabalho formal para complementar a renda e pagar todas as contas. Serviços gerais -- como faxina, reformas, manutenção e jardinagem -- são os trabalhos mais comuns para aqueles que fizeram os chamados “bicos” neste período. É o que revela a pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social, feita pelo Instituto Cidades Sustentáveis e Ipsos-Ipec, em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen e com co-financiamento da União Europeia.
O levantamento mostra que, apesar de uma parcela significativa dos entrevistados precisar recorrer a atividades extras, 18% informaram que a renda aumentou nos últimos 12 meses. Outros 31% disseram que diminuiu e 45%, que se manteve estável no período.
Orçamento Doméstico
O estudo aponta ainda que a alimentação é o item de maior impacto no orçamento doméstico para 47% dos respondentes. Os gastos com moradia aparecem em segundo lugar, com 27%, seguidos pelas despesas com saúde, em terceiro, com 11%.
Dessa maneira, os hábitos de consumo refletem estratégias de adaptação ao orçamento mais apertado. “O aumento do consumo de ovos, combinado à redução do consumo de carnes, laticínios e produtos hortifrutigranjeiros, por exemplo, sugere que parte da população tem substituído produtos de maior valor por alternativas mais acessíveis para manter a alimentação da família”, explica a coordenadora do programa cidades sustentáveis, Zuleica Goulart.
Mobilidade social demanda atenção
Já no recorte com os dados sobre mobilidade social fica evidente que os avanços de escolaridade das últimas décadas ainda não se traduzem, na mesma proporção, em melhoria de renda e das condições materiais de vida de milhares de brasileiros.
Entre os respondentes da pesquisa, 73% afirmam ter escolaridade superior à de seus pais, enquanto 46% dizem possuir renda maior do que a deles quando tinham a mesma idade.
“O desafio é fazer com que a qualificação educacional e profissional esteja conectada a oportunidades concretas de trabalho, geração de renda e inclusão produtiva”, defende o diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen, Vitor Hugo Neia.
Outro ponto de destaque está na percepção dos respondentes sobre a situação econômica nos últimos cinco anos, sendo que 45% dos participantes afirmam ter aumentado sua renda; 44% melhoraram sua escolaridade e 41% registraram avanço nas condições de moradia.
Em contrapartida, 35% relatam redução da renda e 24% dizem ter enfrentado piora nas condições de moradia, evidenciando que os movimentos de ascensão não ocorrem de maneira uniforme.
“Mobilidade social não pode ser entendida apenas como aumento de renda. Aqui falo da possibilidade de uma pessoa ampliar sua autonomia, acessar oportunidades de educação e trabalho, melhorar sua condição de moradia e construir uma trajetória diferente daquela vivida pelas gerações anteriores”, explica Neia.
Para este resultado, a pesquisa ouviu de maneira online 3,5 mil pessoas, com 16 anos ou mais, das classes ABCDE, espalhados em dez capitais do País: Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia.